Francis Picabia [ F. Picabia por F. Picabia ] 1903


"Fazer amor não é moderno; no entanto, ainda é do que eu mais gosto."


Francis Picabia
fotograma de [ A Dama de Xangai ] Orson Welles, 1947

O INFINITO

Gostava de passar pela experiência de um desses espelhos em frente dos quais um outro é colocado - sentir a minha imagem multiplicar-se por mim dentro até ao infinito. Porque é isto justamente o infinito - o interior de um espelho em face do qual outro foi posto. Sempre que dois espelhos amorosamente se interpelam, qualquer deles, incorporando o outro, o atravessa e, carregando-o consigo, se coloca, perfilado e atento, do outro lado.

Luís Miguel Nava, in "rebentação"
Luís Miguel Nava [ rebentação ] & etc, 1984



DECALCOMANIA

Palavras há que, como se as coisas a que estão presas encolhessem, ganham folgas. Outras incham. Não raro os poemas são protuberâncias assim. É quando o sol se pôe entre as palavras, quando entre elas suporíamos ouvir o mar bater, que com maior intensidade se revela a purulência. Cosida interiormente ao nosso espírito, a paisagem - como se com ele formasse um nó - jamais por nós será compreendida. O mar, bata ele onde bater, é uma decalcomania que não podemos arrancar sem que atrás fique o nosso próprio corpo em carne viva.

INTRODUÇÃO

Atei uma ligadura ao mundo. Seguindo uma estratégia diferente, há quem o aparafuse, ajoelhando-se na terra, ou abra nele um olho, uma pupila. Por cima dele o céu é elástico. Elástico, adesivo, eis dois dos atributos que, ao dar por acabado o livro de que este texto pode, entre outros, ser a introdução, mais me fascinam. A própria alma é elástica: podemos, assentando um dedo sobre a sua superfície e pressionando-a, levá-la a tocar nas coisas mais inesperadas. O real é um vidro pintado sob o sol berrante, as coisas prendem-se-ne ao espírito. Do mar, para não dar senão um exemplo, fiz a minha máscara integral.

CISÃO

Gostava de saber até que ponto a ideia de céu e a de unidade andam ligadas. Só assim poderia avaliar que peso tem o facto de eu sentir que o céu se encontra dividido e uma das partes se alojou trasversalmente no meu corpo. Tal é às vezes o seu peso, que me vejo constrangido a andar dobrado.

Luís Miguel Nava, in "rebentação"

Vittorio de Sica [ ladrões de bicicletas ] 1948


RAY CHARLES

Cego e negro, quem mais americano?
Com drogas, mulheres e pederastas,
a esposa e os filhos, rouco e gutural,
canta em grasnidos suaves pelo mundo
a doce escravidão do dólar e da vida.

Na voz, há sangue de presidentes assassinados,
as bofetadas e o chicote, os desembarques
de «marines» na China ou no Caribe, a Aliança
para o Progresso da Coreia e do Viet-Nam,
e o plasma sanguíneo com etiquetas de blak e white
por causa das confusões.
E há as Filhas da Liberdade, todas virgens e córneas,
de lunetas. E o assalto ao México e às Filipinas,
e a mística do povo eleito por Jeová e por Calvino
para instituir o Fundo Monetário dos brancos e dos louros,
a cadeira eléctrica, e a câmara de gás. Será que ele sabe?

Os corais melosos e castrados titirilam contracantos
ao canto que ele canta em sábias agonias
aprendidas pelos avós ao peso do algodão.
É cego como todos os que cegaram nas notícias da United Press,
nos programas de televisão, nos filmes de Holywood,
nos discursos dos políticos cheirando a Aqua Velva e a petróleo,
nos relatórios das comissões parlamentares de inquérito,
e da CIA, do FBI, ou da polícia de Dallas.
E é negro por fora como isso por dentro.

Cego e negro, uivando ricamente
(enquanto as cidades ardem e os «snipers» crepitam)
sob a chuva de dólares e drogas
as dores da vida ao som da bateria,
quem mais americano?

Jorge de Sena – 1964


A MOEDA DO TEMPO

Distraí-me e já tu ali não estavas
vendeste ao tempo a glória do início
e na mão recebeste a moeda fria
com que o tempo pagou a tua entrada


Gastão Cruz, in "a moeda do tempo" assírio & alvim (2006)

fotografia de Ralph Gibson

UM DIA O TERÇO VAI ABAIXO


***Aparições: A Senhora de Fátima***
Egon Schiele [ auto-retrato ] 1910


25 DE ABRIL DE 1912

Ontem: Lágrimas-silênciosas, tímidas, lastimosas; gritos-fortes, insistentes, implorantes; soluços roucos-desesperados, terrivelmente desesperados. Na cama, deitado, apático enfim, mortalmente assustado, inundado de suores frios. No entanto pela minha arte e por aqueles que amo, resistirei até ao fim.

Egon Schiele, in "diário da prisão" litoral edições (1987)


DESDE AS NOVE

Meia-noite e meia. Rapidamente passam as horas
desde as nove em que acendi o candeeiro,
e aqui me sentei. Estava sentado sem ler,
e sem falar. Falar com quem
totalmente só nesta casa.

O simulacro do meu corpo novo,
desde as nove em que acendi o candeeiro,
veio e encontrou-me e lembrou-me
fechados quartos com aromas,
e prazer passado - que prazer valente!
E trouxe-me também diante dos olhos,
ruas que se tornaram agora irreconhecíveis,
sítios cheios de movimento que findaram,
e teatros e cafés e era uma vez que o tempo tem.

O simulacro do meu corpo novo
veio e trouxe-me as tristezas também;
lutos de família, afastamentos,
sentimentos de gente minha, sentimentos
tão pouco apreciados dos mortos.

Meia-noite e meia. Como passam as horas.
Meia-noite e meia. Como passam os anos.


Konstandinos Kavafis, in "os poemas" relógio d'água
Wilma Stockenström [ viagem ao baobá ] assírio & alvim, 2007


Uma mulher sem nome e sem idade vive dentro de um baobá e recorda o trajecto da sua vida — escrava, cortesã, mulher, mãe. Um profundo retrato da natureza humana confrontada com as condições mais humilhantes, sustentado por um discurso poético, mas também cínico e irónico.
Este é o primeiro livro de Wilma Stockenström a ser traduzido em Portugal, em Africânder tem publicada uma vasta obra, nomeadamente prosa, poesia e teatro.

"Com amargura, pois. Mas proibi a mim própria esse sentimento.
Com escárnio, talvez, que é mais benévolo, que mantém transparente e não pode ser negligente; posso enfiar-me dentro de um buraco de árvore como um pássaro no seu ninho, e rir-me. E ficar calada também, ficar calada para exteriorizar os meus sonhos, talvez, porque dormir é o sétimo céu."


SONETO DE AMOR

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!


José Régio, in "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" antígona/frenesi (1999)

pintura de Hans Bellmer

YOUNG MARBLE GIANTS

[ colossal youth ] rough trade, 1980

João de Deus [ criptinas ] & etc, 1981


PEDAGOGIA

Falando mestre Diogo*
De uma Cartilha que fez,
Salta-lhe o Contreiras** logo:
— Tu cuidas que és pedagogo?
Peidagogo é o que tu és!
Com mais i no atributo
Ficas bem classificado:
Tu és o que eu sou, coitado!
Não passas de um pobre bruto.
Com fumaças de letrado!

João de Deus

*João Diogo, pedagogo lançador das bases da Escola Nona Oficial, que o Parlamento rejeitou e ele acabou em aplicar, apenas no colégio que dirigia.

**Manuel José Contreiras, professor-regente das escolas municipais de Lisboa (2ª metade do Sec. XIX).

JOÃO DE DEUS DE NOGUEIRA RAMOS, que ainda hoje se impõe na surpresa de muitos metros e rimas capazes, só eles, de nos fazer esquecer tanta «estrela», tanto «perfume», as «aves do céu», as «ondas do mar»...foi boémio, desenhador e tocador de viola em Coimbra (num curso de direito «tão demorado como a guerra de Tróia», compara o próprio), construtor sereno de uma posteridade encenada atrás das suas barbas de bondade, de um campo de flores, da Cartilha (maternal) onde soletraram, respeitosas, algumas gerações de portugueses.
Lisboa— que adversa foi ao poeta e a muito o obrigou, inclusivé a trabalhos de costura—fez-lhe uma Homenagem antes de ele morrer (não esquecendo o regresso a casa numa carruagem puxada a entusiasmo, por estudantes) e já morto ofereceu-lhe, de prémio, o Panteão dos Jerónimos.
Nasceu a 8 de Março de 1830 em São Bartolomeu de Messines, Algarve, e morreu a 11 de Janeiro de 1896 em Lisboa.

ALEXANDER SOKUROV

ALEXANDER SOKUROV é um cineasta russo que diz não gostar de cinema. Afirmação surpreendente para quem define a própria vida em função de uma obra abundante em numero de filmes realizados, mais de trinta, trasbordante em preocupações morais, éticas e estéticas. É um facto que prefere não falar muito de cinema, que vê pouco cinema. Será um dos seus segredos e por definição os segredos não se revelam. Em 1997, MÃE E FILHO, um dos mais secretos filmes contemporâneos, oitava longa metragem de ficção da sua filmografia, consagra-o como os mais importante cineasta russo da actualidade. Se, como ele próprio afirma, as pessoas têm uma ideia extremamente simples e sumária do visível, é a desvendá-lo que dedica os seus filmes.

Maria João Madeira, in "Alexander Sokurov" cinemateca portuguesa (1999)



[ pai e filho ] 2003, atalanta filmes


[ mãe e filho ] 1997, atalanta filmes


CREPUSCULAR

A incerteza cai com a tarde
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da
angústia. Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco de ondas
na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro
com o verso, prendo-o à frase,
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma.

Nuno Judice

imagem de Greg Spalenka

SAM PECKINPAH

[ straw dogs ] 1971


[ the wild bunch ] 1969

no prelo # 7


Tim Burton [ a morte melancólica do rapaz ostra ] antígona

Trevor Ferguson [ sparrow drinkwater ] cavalo de ferro

Flannery O'Connor [ sangue sábio ] cavalo de ferro

Enrique Vila-Matas [ doutor pasavento ] teorema

Richard Sennett [ a cultura do novo capitalismo ] relógio d'água




Paul Bowles [ memórias de um nómada ]

Paul Bowles [ deixa a chuva cair ]

Cesare Pavese [ diálogos com leucó ]

Sergio Pitol [ a vida conjugal ]

José Rodrigues Minguéis [ a escola do paraíso ]

Georges Bataille [ o ânus solar ]

Walter Benjamim [ a modernidade ]

Raúl Rêgo [ o processo de damião de góis na inquisição ]

Armando Silva Carvalho [ obra poética 1965-2005 ]

Helder Moura Pereira [ segredos do reino animal ]

Manuel de Freitas [ juros de demora ]

Luís Amorim de Sousa [ bellini e pablo também ]

Fernando Pessoa [ a poesia dos outros eus ]

Luís Falcão [ pétalas negras ardem nos teus olhos ]

José Agostinho Baptista [ além-mar (audiolivro) ]

Ana Leonor M. Rodrigues [ queimado por azul ]

Vasco Araújo [ hereditas ]

Valter Vinagre [ para ]

Bíblia, vols 3,4,5 e 6


nota: novo site da assírio & alvim , brevemente disponível


Fui
hóspede nesta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.

O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.

Essa ave em que o outono
Se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.


Sebastião Alba, in "A noite dividida" assírio & alvim

imagem de Esao

Almada Negreiros, 1934


A INVENÇÃO DO PENICO

O penico foi inventado, estava-se ainda na idade das cavernas. Naqueles dias um tipo cagava e mijava onde lhe dava na gana.
Havia, no entanto, numa aldeia à margem do rio que vários milhares de anos mais tarde se haveria de chamar de ouro, um homem com o nome de HUG BRR OÓ (a palavra dava então os seus primeiros passos), sujeito muito asseado.
HUG BRR OÓ tinha adquirido o hábito e ir fazer as suas necessidades à beira rio, de modo a que as águas, subindo com a maré cheia, arrastassem os excrementos transportando-os para longe. Evitava assim dois inconvenientes: o mau cheiro e os pés sujos pelo inadvertido calcar dum cagalhão (lembrem-se que, no tempo, não existiam sapatos).
Este expediente provava-se eficaz no verão, mas no inverno, quando se acordava a meio da noite com uma incrível vontade de fazer chichi, tornava-se extremamente desagradável ter de sair da caverna e do aconchego das peles de urso para ir mijar ao rio. A hipótese de urinar dentro da caverna, HUG BRR OÓ nem a punha, antevendo o insuportável mau cheiro que isso provocaria.
HUG BRR OÓ passou três noites em claro, a pensar como resolver tão angustiante problema.
Na noite seguinte lá conseguiu adormecer. Mas, dentro de poucas horas acordava. Atormentava-o uma enorme vontade de mijar.
Não lhe apetecia mesmo nada sair da caverna. Lá fora caia neve (estava-se em plena época glaciária). Durante uns minutos, HUG BRR OÓ lutou desesperadamente contra a vontade tão inoportuna.
Foi vencido, como era de esperar.
—Que se foda! - pensou ele com o seu umbigo (não havia ainda botões) — Vou mijar mesmo aqui dentro!
Escolheu um canto escuro e aliviou-se.
Pronto! Na manhã seguinte, a mulher de HUG BRR OÓ descobriu que ele lhe tinha mijado dentro de uma malga de barro (artigo que ela acabara de inventar no dia anterior, e de cuja existência ainda não dera parte ao marido).
Foi lavá-la ao rio.
E estava inventado o penico.

Alice Roxo, in [ fenda não ela mesma ] fenda (1980)
[ SIÃO ] frenesi, 1987

organização e notas:
Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião
prólogo:
Alexandre Melo


TARDE

Os dias passam assim,
como direi?
— delicados.
Não há projectos de viagens,
o tratado das grandes ideologias
abandonado a um canto;
os crimes perfeitos são outonais
e esta tarde é uma estação infinita;
a cama? «oh! a cama é larga».
lá fora a árvore é verde,
o universo expande-se;
do caderno à janela, penso neles,
nos amigos.
tarde duma única visão:
ter um terraço plantado de rosas.

_inédito_


António S. Ribeiro
Roy Lichtenstein [ crying girl ] 1963

LÁGRIMAS

Também as lágrimas são úteis; com lágrimas, comoverás diamantes; faz, se conseguires, que ela veja o teu rosto banhado de pranto; se as lágrimas não aparecerem, pois nem sempre surgem no tempo certo, esfrega os olhos com as mãos molhadas.

Ovídio, in "Arte de amar" livros cotovia

Oriundo na vontade dos homens se livrarem das forças incontrolavéis da natureza, o mito constitui uma política de salvação pública que se manteve muito para além do necessário, e se firmou pela força tirânica reduzindo a vida à exclusiva dimensão da sobrevivência, negando-a como movimento e totalidade.
Contestado, o mito unifica as contestações, cedo ou tarde engloba-as e dirige-as. Nada lhe resiste, imagem ou conceito, de quanto tente destruir as estruturas espirituais dominantes. Ele reina sobre a expressão dos factos e do vivido, à qual impõe a sua estrutura interpretativa (dramatização). A consciência do vivido, que encontra a sua expressão ao nível da aparência organizada, define a consciência individual.
O sacrifício compensado alimenta o mito. Já que toda a vida dos indivíduos implica uma renuncia a si próprio, é preciso que o vivido se defina como sacrifício e recompensa. Como prémio da sua ascece o iniciado (operário promovido, o especialista, o empresário—novos mártires canonizados democraticamente) recebe um abrigo talhado no seio da organização da aparência e instala-se confortavelmente na alienação. Ora nas sociedades unitárias os abrigos colectivos desapareceram, subsistem apenas as sua traduções concretas para uso comum: templo, igrejas, palácios,... lembranças de certa protecção universal. Restam hoje os abrigos individuais, cuja eficácia poderemos contestar mas com certeza não lhe ignoramos o preço.

Raoul Vaneigem, in "Banalidades de Base" frenesi (1998)
Alexandre O'Neill [ feira cabisbaixa ] Sá da Costa editora, 1979


PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra, surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...


Alexandre O'Neill
Paul Rachman [ American Hardcore ] 2006

Documentário inspirado no célebre livro de Steven Blush, "American Hardcore: a tribal history" 2001, sobre a história do Punk Hardcore Americano, desde os finais de 70 até ao ano de 1986.


HISTÓRIA EXEMPLAR

Entrei.
— Tire o chapéu — disse o Senhor Director.
Tirei o chapéu.
— Sente-se — determinou o Senhor Director.
Sentei-me.
— O que deseja? — investigou o Senhor Director.
Levantei-me, pus o chapéu e dei duas latadas no Senhor Director.
Saí.


Mário-Henrique Leiria, in "contos do gin-tonic" editorial estampa

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO 1938/2007



RESPOSTA

«Eu vinha para a vida, e deram-me dias»
vivos com os seus lugares e espaço.

Ontem nasci sem fim, e alimentei-me
nesta mesa que em duas se reparte.
Uma aba no mar, vagante à toa,
trouxe sabores de ondas, de orlas.
Outra aba na terra mostrou-me as pedras
polidas, úberes, gastas. Pedras
densas que me encheram o ventre
e me criaram similar à Terra.
No mar tive cristais quebrados, jóias;
na Terra, tão nítida poeira branca
que fundi as formas das flores visíveis.

E hoje é este olhar profundo,
deriva das imagens pelo mundo.


Fiama Hasse Pais Brandão, in "Cenas vivas" relógio d'água

VIDAS A NÚ...

Jeff Feuerzeig [ the devil and Daniel Johnston ] 2005


Jonathan Caouette [ tarnation ] 2003
Paul Éluard [ Algumas das palavras ] Dom Quixote, 1977
Antologia e prefácio de António Ramos Rosa
Tradução de António Ramos Rosa e Luisa Neto Jorge


A DE SEMPRE, TODA ELA

Se eu vos disser: «tudo abandonei»
é porque ela não é a do meu corpo,
eu nunca me gabei,
não é verdade
e a bruma de fundo em que me movo
não sabe nunca se eu passei.

O leque da sua boca, o reflexo dos seus olhos
sou eu o único a falar deles,
o único a ser cingido
por esse espelho tão nulo em que o ar circula através de mim
e o ar tem um rosto, um rosto amado,
um rosto amante, o teu rosto,
a ti que não tens nome e os outros ignoram,
o mar diz-te: sobre mim, o céu diz-te: sobre mim,
os astros adivinham-te, as nuvens imaginam-te
e o sangue espalhado nos melhores momentos,
o sangue da generosidade
transporta-te com delícias.

Canto a grande alegria de te cantar,
a grande alegria de te ter ou te não ter,
a candura de te esperar, a inocência de te conhecer,
ó tu que suprimes o esquecimento, a esperança e ignorância,
que suprimes a ausência e que me pões no mundo,
eu canto por cantar, amo-te para cantar
o mistério em que o amor me cria e se liberta.

Tu és pura, tu és ainda mais pura do que eu próprio.


Paul Éluard

brevemente...

David Lynch [ inland empire ] 2006
Aldina [ António José Forte ]


UM HOMEM

de repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda

António José Forte, in "uma faca nos dentes" & etc (1983)

"A perspectiva da rendibilidade a todo o custo é a cortina de ferro dum mundo vedado pela economia. A perspectiva de vida, por seu turno, abre-se para um mundo onde tudo existe com vista a ser descoberto e criado. Ora acontece que a instituição escolar pertence ao mundo dos negócios, o qual pretende administrá-la cinicamente, deixando até de sentir-se perturbado pelo velho formalismo humanitário. Resta saber se alunos e professores se deixarão reduzir à função de engrenagens lucrativas, pois nada de bom prevendo uns e outros nessa gestão dum universo em ruínas a que são convidados, eles bem podem preferir aprender a viver, em vez de se economizarem."

Raoul Vaneigem, in "Aviso aos alunos do básico e do secundário" antígona

RAUOL VANEIGEM


Para te ler a juventude tem que ler muito antes e ler leva tempo, portanto a juventude só te poderá ler na véspera de festejar cinquenta anos.
A não ser que a juventude saiba distribuir o trabalho estúpido pelos anos bissextos, guardando os dias que sobram para o estudo do mundo, do esqueleto ósseo, das vontades que reinam entre os vários tipos de animais e nas várias profissões, e ainda para o estudo cutâneo do amor.
Se tocares em todos os materiais com luva apenas tocarás nas luvas.

Gonçalo M. Tavares, in "Biblioteca" campo das letras
Já não é a primeira, nem tão pouco a segunda vez que a noticia de uma biografia de Alexandre O’Neill é feita em jornais e revistas do meio literário, e mais tarde adiado o lançamento sem qualquer justificação, mas ao que parece é desta que a coisa vai para a frente, ou pelo menos assim nos é dado a conhecer no muito recente site da editora Dom Quixote, o livro será apresentado por Inês Pedrosa 4ª Feira (7 de Fevereiro) às 21:00, na CERVEJARIA DA TRINDADE em Lisboa.

O



NA ESCOLA

_quando te disserem que a gaita de foles é um instrumento usado pelos pastores, não deves contestar afirmando que todos os homens a usam.

_se o professor te pedir emprestada uma caneta não deves, só por isso, parecer que foste convidada a fazer-lhe um broche.

_se o resultado de uma soma for 69 não deves rir como uma idiota.

EM VISITA

_dizer a uma senhora que são belos os seus cabelos louros, é amável; perguntar-lhe em voz alta se os pintelhos são da mesma cor, é indiscreto.

SUPERSTIÇÕES

_para um homem se apaixonar por ti põe-lhe um grão de sal na ponta da gaita e chupa-a até ele se dissolver.

_depois de perderes a virgindade, não deves dirigir-te a Santo António de Pádua para a recuperares. Lembra-te que o Santo António de Tebaida meditou muito sobre as questões do sexo, mas o de Pádua... nem de longe as cheirou.

_não rias durante o sermão se o pregador parecer acreditar «na pureza das raparigas cristãs».

NA CONFISSÃO

_não te masturbes no confessionário para aproveitar, logo de seguida, a absolvição.

EM PASSEIO

_se já tens marmelos, não os destapes a torto e a direito para dar de mamar às bonecas. É uma atitude consentida às amas, mas nunca às raparigas.

NA RUA

_dar uns tostões a um pobre para ele comprar um pão é uma acção meritória; chupar-lhe a gaita porque não tem amante é um exagero. Nada te obriga a fazê-lo.

NAS LOJAS

_não deves entrar num cabeleireiro e dizer, descaradamente, que desejas os pêlos da rata frisados.

DEVERES PARA COM DEUS

_dá-lhe graças, também, por ele ter feito nascer em ti o desejo do orgasmo e as mil formas de o alcançares.

NÃO DIGAS... DIZ...

_não digas «vou masturbar-me»; diz «vou ali e já volto».

_não digas «quando tiver pintelhos»; diz «quando eu for crescida».

_não digas «tenho vontade de foder»; diz «estou nervosa».

_não digas «ele dá três sem desencavar»; diz «tem um carácter muito firme».

_não digas «tem uma pixota grossa demais para a minha boca»; diz «sinto-me pequena quando falo com ele».


Pierre Louys, in "manual de civilidade para meninas" & etc (1980)
René Magritte [ time transfixed ] 1938


Há sempre um comboio que parte
de algures em qualquer parte do mundo

Há sempre um cais com gente
ansiosa da viagem para a parte incerta

Há sempre um futuro com destino
que a gente do cais não conhece

Dentro deste comboio louco
vou eu em viagem dentro de mim

No cais alguém fica à espera
de um comboio que já partiu


Henrique Risques Pereira, in "transparência do tempo" edições quasi

JEFFREY MICHEAL HARP

a little disconcerting

the cabinet makers

the high priestess


Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acôrdo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só
Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.
 

Alberto Caeiro

imagem de Gérad Dubois
[ Amarcord ] 1973

realizado por: Federico Fellini
escrito por: Tonino Guerra e Federico Fellini
Pieter Bruegel [ seven acts of mercy ] sec. XVI


ENCOMENDA POSTAL

Destino-te a tarefa de me sepultares
no segredo mineral da noite
com um lápis e uma máquina fotográfica

depois
fica atento ao correio
do secular laboratório nocturno enviar-te-ei
devidamente autografado
o retrato da solidão que te pertenceu

e numa encomenda à parte receberás
a revelação desta arte
onde a vida cinzelou precário corpo
na luz afiada de um vestígio de tinta.

Al Berto, in "Vigílias" assírio & alvim
Hans Bellmer, 1960


CÂNTICO

Num impudor de estátua ou de vencida,
Coxas abertas, sem defesa..., nua
Ante a minha vigília, a noite, e a lua,
Ela, agora, descansa, adormecida.

Dos seus mamilos roxos-azuis, em ferida,
Meu olhar desce aonde o sexo estua.
Choro... e porquê? Meu sonho, irreal, flutua
Sobre funduras e confins da vida.

Minhas lágrimas caem-lhe nos peitos...,
Enquanto o luar na nimba, inerte, gasta
Da ternura feroz do meu amplexo.

Cantam-me as veias, poemas nunca feitos...
E eu pouso a boca, religiosa e casta,
Sobre a flor esmagada do seu sexo.


José Régio, in "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" antígona/frenesi (1999)