POTLATCH [ o boletim da Internacional Letrista ] fenda

Para quem se interessa pelos pequenos gestos brilhantes e ainda mais por aqueles que deliberadamente ignorados pela historiografia oficial, mas que mudaram o curso dos acontecimentos culturais e políticos do século XX, aqui fica uma breve sequência de eventos que estão na génese da publicação de POTLACH:

—Em 1946, Isidore Isou cria o movimento Letrista, em ruptura, bastante pacífica diga-se de passagem, com André Breton e o surrealismo. A poesia onomatopaica baseada na letra como unidade lexical mínima é o estandarte do movimento.
—Em 1950, como crime fundador do letrismo, quatro jovens interrompem a missa pascal de Notre-Dame de Paris, e um deles, disfarçado de frade dominicano, salta para o altar e lê uma homilia em que proclama aos fiéis a morte de deus, escapando (por milagre?) à subsequente perseguição da policia convocada pelos verdadeiros padres logo que se aperceberam do embuste.
—Em 1951, Guy Debord entra em contacto com os letristas em Cannes, vindos expressamente de Paris para contestar o conhecido Festival e exigir a projecção do filme de Isou "Traité de bave et d'eternité" feito de quatro horas de cinema discrepante.
—Em 1952, um pequeno grupo de jovens radicais, entre os quais Debord, constitui a Internacional Letrista (I.L.) uma tendência clandestina à margem do movimento.
—No mesmo ano, consuma-se a cisão da I.L. com Isou após este se ter demarcado de uma acção pública de sabotagem a uma cerimónia de entronização de Charles Chaplin por parte de establishment cultural da época.
—Em 1954, inicia-se a publicação do boletim POTLATCH.
—Por fim, em 1957, a I.L. desaparece para dar lugar a uma outra Internacional mais consistente, a Situacionista.

Em concreto, POTLATCH consiste numa série de pequenos opúsculos, na verdade simples textos policopiados publicados entre 1954 e 1957, enviados gratuitamente (em coerência com a designação) para algumas pessoas escolhidas de forma a produzir maior efeito. Isto é, tanto como informação como provocação. Teve vários responsáveis, várias designações editoriais, várias periodicidades, mas ao certo nunca ocupou mais do que uma duzia de pessoas (e na sua redacção de forma consistente ainda menos do que isso).
Apesar desta aparente precariedade orgânica, a influencia foi e continua a ser enorme. Nunca é preciso muita gente para perturbar as sociedades. As boa ideias chegam. E elas abundam nas folhas que se seguem.

do prefácio

COISAS PARA VER ANTES DE MORRER...

Martin Scorsese [uma viagem pelo cinema americano] 1995

Martin Scorsese [a minha viagem a Itália] 1999


AUSÊNCIA

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


Sophia de Mello Breyner Andresen

imagem de Dan Page
A mercadoria como espectáculo

O espectáculo é a outra face do dinheiro: o equivalente geral abstracto de todas as mercadorias. Mas se o dinheiro dominou a sociedade enquanto representação da equivalência central, isto é, do carácter permutável dos bens múltiplos cujo uso permanecia incomparável, o espectáculo é o seu complemento moderno desenvolvido, onde a totalidade do mundo mercantil aparece em bloco como uma equivalência geral ao que o conjunto da sociedade pode ser e fazer. O espectáculo é o dinheiro que se olha somente, pois nele é já a totalidade do uso que se trocou com a totalidade da representação abstracta. O espectáculo não é somente o servidor do pseudo-uso, é já em si próprio, o pseudo-uso da vida.


Guy Debord, in "A sociedade do espectáculo" edições antipáticas

ilustração situacionista...





PODE-SE ESCREVER

Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar numa caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever


Pedro Oom, in "actuação escrita" &etc (1980)
...panfleto escrito por membros da Internacional Situacionista e estudantes da Universidade de Estrasburgo em 1966

"Vasto rebanho julgando nunca o ser, a estudantaria que aposta, positiva, na carreira, acoita-se nesse seu redil que a protege: o duma mediocridade superior, ou doutoral.
Tudo se desfaz, na decadência e no nojo de um «modo de vida» que tem a patologia, e o desastre, no seu âmago, e o estudante julga poder continuar a sê-lo, pacifico, nesta paz onde tudo apodrece.
Supondo-se manhosamente escol, ou parte obrigatória dele, o estudante, porém, apenas se revela, dest'arte, como vanguarda — patética — da patetice social qu o produz assim."


Alice Corinde, in "Da Miséria do Meio Estudantil, Considerada Nos Seus Aspectos Económico, Político, Sexual & Especialmente Intelectual & de alguns meios para a prevenir" fenda (1983)

a montanha mágica


NUVEM DE PÓ

No vale das crateras, uma ou duas vezes em cada cem anos, um vento, uma espécie de nuvem de pó, sopra do fundo da terra, e pelos funis enxutos das crateras sobe, lambendo como a língua dos gatos, por três dias, as casas e as faces dos habitantes daquele lugar. Então, todos perdem a memória: os filhos deixam de reconhecer os pais,as mulheres os maridos, as raparigas os namorados, as crianças os pais e tudo se torna um caos de sentimentos novos.
Depois cessa o redemoinho dentro das crateras e, lentamente cada coisa volta ao seu lugar, não recordando ninguém o que, dentro da nuvem de pó, aconteceu nesses três dias.


Tonino Guerra, in "Histórias para uma noite de calmaria"
cartão de natal da editora antígona encontrado aqui
À MINHA MUSA

Senhora da manhã vitoriosa
E também do crepúsculo vencido.
Ó senhora da noite misteriosa,
Por quem ando, nas trevas, confundido.

Perfil de luz! Imagem religiosa!
Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido!
Corpo, que é alma escrava e dolorosa,
Alma, que é corpo livre redimido.

Mulher perfeita em sonho e realidade.
Aparição Divina da Saudade...
Ó Eva, toda em flor deslumbrada!

Casamento da lágrima e do riso;
O céu e a terra, o inferno e o paraíso,
Beijo rezado e oração beijada.


Teixeira de Pascoais

imagem de Greg Spalenka


Nunca desde os tempos bíblicos tinha caído sobre nós flagelo mais hipócrita, mais obsceno, mais degradante afinal do que a viscosa garra burguesa! Classe mais hipocritamente tirânica, cobiçosa, voraz, tartufa em bloco! Moralizante e aldrabona! Impassível e chorona! Fria diante da desgraça! Mais insaciável? Mais gulosa de privilégios? Mais anemificante? Mais faminta das riquezas mais vazias? Enfim podridão perfeita!

Louis-Ferdinand Céline in "Mea Culpa" antígona (1989)


UM GATO PARTIU À AVENTURA

As palavras de vidro que tu depões em teus seios, para me ofereceres, raspam estridentes na camada inacessível dos meus olhos;
Caem e eu sonho para espalhar plumas nos espaços;
Trago na mão esquerda, hermética, fechada duramente, as delicadas linhas epidérmicas,
Leio nesse rendilhado de sensações o roteiro da minha viagem livre, o meu voo solitário, que eu inicio saltando dos telhados para as janelas;
É na abstracção hipnótica do rosa íris que eu te vejo acompanhar a estranha aventura dum albatroz,
E é ao cair da noite que eu aceno longamente os meus braços;
É na harmoniosa vibração azul que eu transmito o Sol vermelho do poente e da tristeza,
e , quando as minhas mãos se transformam em pérolas puras, os
teus olhos gelam para serem os gigantes da noite;

Livre um gato desliza pela goteira escura da cidade,
livre uma pequena ilha nasce no ponto ignorado do Oceano,
livres as ondas escorregam na superfície marinha,
livres os pássaros e os cavalos na noite da lua encarnada,
livre eu chamo-te dos cumes das serras,
livres as ondas os cavalos e os pássaros;

Abandono a terra da ilha para viver nos abismos, nas cidades que crescem, nos beijos que enchem o vento,
E oiço a imensa máquina que esmaga o ferro da estrada construída, a cortina sedosa dos teus cabelos, eu e tu,
e vejo o cego que avança com os braços levantados para o mundo incompreensível,
e liberta os corpos visíveis: os teus lábios, os teus seios, o teu sexo; e mães batem às janelas e imploram: LAMA!,

A um canto morre em agonia o primeiro grito;

O gato parte à aventura pelos telhados, pelos vales e pelos sonhos.



Henrique Risques Pereira

imagem de Jay Ferranti

Virgil Widrich [ fast film ] 2003




A DEFESA DO POETA

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.


Natália Correia

imagem de Gérard Dubois
Emma Santos "O Teatro" assírio & alvim (1981)


Emma Santos escreve e interpreta a doença, a dor física e o sofrimento mental, denunciando as semelhanças entre a loucura dos métodos usados para a tratar e a própria loucura. Emma Santos defronta-se com a loucura das instituições psiquiátricas onde foi internada e onde lutou para recuperar a sua voz. Segundo a sua mãe, a loucura é o teatro pessoal de Emma e a sua comédia traduz-se numa enorme solidão, vivida entre electrochoques e as outras doentes.


"A Loucura, imagino-a mulher, alta, inchada pelos medicamentos, semi-nua, só com um roupão de nylon acolchoado às flores roxas ou cor de rosa. Vi-a lá no hospital, todas as doentes eram uma e a mesma, devorando bolos e guloseimas ou de cigarro nos beiços.

O homem louco é mais discreto, fuma sentado na poltrona, lê o jornal, joga às cartas e não conta o sofrimento aos uivos como a mulherzinha loucura. Enforca-se e deixa como recordação um sexo enorme e erecto.

A Loucura-Mulher pois há muito que foi castrada, privada da linguagem, sem poder limpar pigarro, ar idiota, malcastrada."


Emma Santos in "O Teatro"


(a presente edição de “O Teatro” reproduz o texto por si representado cenicamente, entre Dezembro de 1976 e Janeiro de 1977)

a imortalidade da alma...



PLENO DE VIDA AGORA

Pleno de vida agora, concreto, visível,
Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três dos Estados Unidos,
A ti que viverás dentro de um século ou vários séculos mais,
A ti, que ainda não nasceste, me dirijo, procurando-te.

Quando leres isto, eu que era visível, serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino como serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti).

Walt Whitman in "cálamo"


UNICAMENTE, ÚNICA
Mente


Os adolescentes dissimulam o estupor com os seu modos
ariscos.
Os adolescentes procuram escudar-se de sinais
libidinosos.
Seguíamos amontoados no camião, à saída da cidade, e alguém olhou para a Lua.

Ao menos ela, ao menos ela existe,
ao menos ela ainda é a mesma.


Afinal, o que podemos nós esperar desta juventude
que a perseguição amestrou,
habituada a ordens inexoráveis,
à lentidão de discursos altissonantes,
ao trabalho obrigatório e inútil,
à insegurança permanente ?
Nada, na verdade, não podemos esperar nada desta juventude.
Os adolescentes arranjam a suas roupas coçadas,
atiram-se freneticamente ao mar.
Formidáveis e violentos, dispersam-se pelas
antigas avenidas principais.
E por fim, dissolvem-se na luz tropical.
Na imunda gaiola onde os aguarda
novo interrogatório há uma janela alta de vidro polido, e
ao longe, mais além — o que existirá na distância ?
O que podemos nós esperar desta juventude
que frequenta uma universidade onde não se ensinam línguas,
apenas textos que instilam o medo,
que vive num sítio onde lhe explicam permanentemente
porque é tão necessário dar a vida pelo país,
porque é necessário renunciar a tudo
— mesmo à fugaz felicidade de uma renúncia voluntária ?
O que podemos nós esperar desta juventude a quem
dizem: o teu destino é seres trabalhador agrícola;
a quem se ordena: torna-te militar;
que condenam a viver na escravidão e
na miséria,
sem sequer lhe ser permitido o consolo de expressar
tão flagrante desespero.
Tudo, na verdade, podemos esperar tudo desta juventude.
Atravessaremos a cidade devastada.
Atravessaremos a cidade em ruínas.
Atravessaremos a cidade em perpétua erosão,
sem reparar nas montras vazias e
sem perder tempo em filas intermináveis
e sem dar atenção aos insultos que devoram de alto a baixo as
grandes e empoeiradas janelas;
não faremos caso do homem que, humilhado e
faminto,
percorre a rua numa fúria silenciosa;
não nos despertarão curiosidade as pessoas que se amontoam à frente de um
estabelecimento
onde talvez ponham à venda refrescos de alperce daqui a
sete horas.
Sem nada enxergar, atravessaremos a cidade,
que lentamente se desmorona, para nos determos
diante do mar.
Unicamente diante do mar, abriremos os olhos.
Unicamente diante do mar, respiraremos um instante
(nem se avista a benção de uma
colérica esperança).
Unicamente.
Única
mente.


Reinaldo Arenas in "O Engenho" antígona


SOBRE O LADO ESQUERDO

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa: "o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração".


Carlos de Oliveira
Diego Rivera [ Ramón Gómez de la Serna ] 1915


O que impressiona no livro de Luis Buñuel é a riqueza e a diversidade desta longa vida que atravessa vários países e culturas. Vai da Idade Média aos Tempos Modernos. Passa pelo surrealismo, a guerra de Espanha, Hollywood e o México. É feita de humor, solidão, amizade e imaginação. É vista por um dos olhares mais finos e mais profundos do nosso tempo, de um eremita espirituoso que tem os seus momentos de melancolia.
(...)
Retrato de um indivíduo excepcional, passeio surpreendente e por vezes perverso através de um século agitado, este livro é também uma afirmação constante: uma moral pessoal rigorosa é a única exigência que possa governar uma vida.


Jean-Claude Carrière

Luis Buñuel "O meu último suspiro" fenda


NO SORRISO LOUCO DAS MÃES

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e orgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo.
São silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos. Porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudez de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado
por dentro do amor.


Herberto Helder

imagem de Ray Caesar


AGÊNCIA GERAL DO SUICÍDIO

Sociedade reconhecida de utilidade pública
Capital: 5.000.000 de francos
Sede social: Bulevar Montparnasse, Paris
Sucursais em Lião, Marselha, Dublin,
Monte-Carlo e São Francisco


Graças a dispositivos modernos, a A.G.S. tem o prazer de anunciar aos seus clientes que se encontra habilitada a garantir-lhes uma MORTE CERTA e IMEDIATA, o que não deixará de seduzir quem se afastou do suicídio com medo de "falhar". Foi pensando na eliminação dos desesperados, elemento de contaminação temível numa sociedade, que o Sr. Ministro do Interior se dignou honrar o nosso Estabelecimento com a sua presidência honorífica.
Por outro lado, a A.G.S. proporciona, finalmente, um modo minimamente correcto de abandonar a vida, pois a morte é a única fraqueza que não permite desculpas.Foram por isso organizados os enterros-expresso: banquete, desfile de amigos e conhecidos, fotografia (ou moldagem da máscara mortuária, à escolha), entrega das recordações, suicídio, colocação no esquife, cerimónia religiosa (facultativa), transporte do cadáver para o cemitério. A A.G.S. encarrega-se de executar as últimas vontades dos estimados clientes.

Nota : — Não tendo o nosso estabelecimento porta aberta para a rua, os cadáveres não serão, em caso algum, transportados para a morgue — isto para tranquilizar algumas famílias.

TARIFA

Electrocussão ................................. 200 F
Revólver ...................................... 100 F
Veneno ........................................ 100 F
Afogamento ..................................... 50 F
Morte perfumada - (taxa de luxo incluída) ..... 500 F
Enforcamento - (Suicídio para pobres) ........... 5 F

(A corda é vendida ao preço de 20 F o metro e 5 F para cada 10 centímetros suplementares)
Pedir catálogo especial aos Enterros-Expresso.
Para todas as informações dirigir-se ao Sr. J. Rigaut, Admnistrador-Principal, Bulevard Montparnasse, nº 73, Paris-6. Não será dada qualquer resposta a pessoas exprimindo o desejo de assistirem a um suicídio.


Jacques Rigaut in "3_histórias_3"

imagem de Christian Northeast

ARTHUR CRAVAN, nascido em 1887, era poeta, pugilista, ídolo do movimento Dadaista e Surrealista e era também sobrinho de Oscar Wilde, desapareceu no Golfo do México em 1918.

JACQUES RIGAUT, nascido em 1898, era poeta surrealista, fez parte do movimento Dadaista, os seus trabalhos baseavam-se essencialmente no tema do suicídio. Em 1929 suicidou-se com uma bala no coração, tal como já havia anunciado.

JACQUES VACHÉ, nascido em 1896, foi grande amigo de André Breton e uma grande influencia para este, que viria mais tarde a fundar o movimento surrealista. Trocaram cartas de conteúdo surrealista durante algum tempo, suicidou-se com uma overdose de ópio em 1919.


O presente livro reúne tudo o que foi escrito por estas três figuras destes dois grandes movimentos literários e artísticos, Dadaismo e Surrealismo.

Cravan/Rigaut/Vaché "3_histórias_3" antigona (1980)



CONVERSA À MESA

Morremos de vez, é certo.
Por isso, a vida é uma coisa,
de que acontece, ou não, gostar.

Mas, sendo assim, porque me acontece
gostar do mato vermelho,
da erva cinzenta e do céu verde cinza ?

E mais ? mas, vermelho,
cinzento, verde, porquê, especialmente ?
Não foi isso que eu disse :

Não esses especialmente. Apenas esses.
Gostamos do que acontece gostarmos.
Gostamos da maneira como o vermelho cresce.

Não tem importância.
Acontecer gostar é uma das maneiras
que as coisas têm de acontecer.


Wallace Stevens

imagem de Stefano Ricci


Kim Ki-Duk , realizador Sul Coreano, teve a sua primeira apresentação em Portugal em 2001, com " O bordel do lago" (2000), filme seleccionado para o Fantasporto, onde a temática sexual é a base do filme, mais tarde deslumbrou-nos com o poderoso "Primavera, Verão, Outono, Inverno, Primavera" (2003), ninguém fica imune ao poder das estações nem ao seu ciclo anual de nascimento, crescimento, e envelhecimento, nem mesmo dois monges que partilham um mosteiro flutuante num lago rodeado de montanhas. Em 2005 estreia nas nossas salas "Ferro 3" (2004), o silêncio de um solitário e a sua estranha forma de vida, uma mulher vitimada pelo marido. A solidão de um e a tristeza do outro será substituída pela alegria de uma forma muito secreta. O seu 12º filme,"o arco" 2005, conta-nos a história de um homem de 60 anos e de uma jovem de 16 que vivem a bordo de um barco de pesca em pleno oceano, longe do mundo. A jovem está-lhe prometida assim que completar os seus 17 anos, mas tudo irá mudar com o surgir de uma nova personagem, um jovem estudante. A sua estreia para França está prevista já para o mês de Dezembro, para Portugal ainda não há datas.
Vermeer [a rapariga do brinco pérola] 1665/66

Svjetlan Junakovic [a ovelha do brinco pérola] 19..



Tríptico

«Transforma-se o amador na coisa amada», com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.


Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.


Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.


E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo e do amor.


Herberto Helder
Alberto Giacometti [ Jean Genet ] 1954/55


O vento que rola um coração no pátio dos recreios, um anjo que soluça preso numa árvore, o pilar de céu que o mármore retorce, abrem portas de emergência à minha noite.

Um nobre pássaro que agoniza e o travo da cinza, a memória de um olho adormecido na parede e este doloroso punho que ameaça o firmamento, desce-me o teu rosto à palma da minha mão.

(...)

Diz-me que desgosto doido te faz explodir nos olhos esse desespero tão forte que uma dor bravia e desvairada aparece, apesar do gelo que choras, a enfeitar-te a boca redonda com um sorriso de luto ?

(...).


Jean Genet in "O condenado à morte" hiena editora (1986)

MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS


Mário Cesariny de Vasconcelos (Lisboa, 1923) pintor e poeta, um dos mais importantes defensores do movimento surrealista em Portugal, encontrava-se doente há já vários anos, com uma doença do foro oncológico, hoje, a morte chegou-lhe de madrugada levando-o da sua casa, em Lisboa, aos 83 anos. Ficou-nos o vazio e a tristeza da sua partida, mas para traz ficou a herança, a imortalidade das suas palavras.

Adeus Mário.


YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny in "Pena Capital"

Fotografia de Susana Paiva
Fernando Lemos [ a realidade pelo telhado ] 1949



Antes aquele relógio
luminoso
antes aquela nudez infinita
mármore do nosso medo

antes aquela música enraivecida
e sem dono

antes aquela dor de ambos
a soletrar os gestos bastantes
antes o abismo quebrando
a janela

antes

que esta manhã derramada
castigo implacável

antes

que surpreender os mortos e nada
ter com que os assustar


Fernando Lemos

Fenda, 90º e os Surrealistas...

Joan Miró [ portrait ] 1950


Antonin Artaud
— O teatro e o seu duplo (reedição), fenda

Luís Buñuel
— O último suspiro, fenda

Joan Miró
— Esta é a cor dos meus sonhos, 90º


Há vidas que duram um instante :
o nascimento.

Há vidas que duram dois instantes :
o nascimento e a morte.

Há vidas que duram três instantes :
o nascimento, a morte e uma flor.


Roberto Juaroz in "Poesia Vertical"

definição.










eterónimo



do Gr. héteros, outros + ónyma, ónoma, nome

adj.,
diz-se das palavras diferentes que exprimem a mesma coisa;

diz-se do autor que assina uma obra literária com um nome que não o seu;

diz-se dessa obra;
s. m.,
nome imaginário com que um autor assina a sua obra, atribuindo a esse autor imaginário características individuais diferentes das do verdadeiro autor, ou seja, criando um outro eu.

Enrique Vila-Matas, escritor Espanhol nascido em Barcelona em 1948



Antonio Tabucchi, escritor Italiano nascido em Pisa em 1943


[ "Todos conhecemos os bartlebys, esses seres nos quais habita uma profunda negação do mundo" — afirma Enrique Vila-Matas, heterónimo de António Tabucchi e grande perseguidor do síndroma de Bartleby na literatura. ]

Golgona Anghel

in "eis-me acordado muito tempo depois de mim uma biografia de Al Berto" ed Quasi



A terra, embora não nos seja mãe,
é para sempre inolvidada,
no mar a água é doce, ternamente
gelada, a água não é salgada.

No fundo, a areia é mais branca que giz,
o ar embriaga mais que vinho quente,
o corpo cor-de-rosa dos pinheiros
é único na hora do poente.

O poente, esse, é tal que não vejo
nos salgados turbilhões etéreos
se é fim do dia ou do mundo, outra vez
dentro de mim mistério dos mistérios.


Anna Akhmátova


imagem de Greg Spalenka
[ o acossado ] 1959

Realização: Jean-Luc Godard
Argumento: François Truffaut

Edward Hopper [ automat ] 1927



A VOZ

Amar era o mais alto fim
e o canto o meu maior intento.
Porém o amor
para sempre me negaste
e a minha bela voz
para sempre emudeceste.
Quem me dará
o que tu me retiras ?
Quem me concede
o que tu me destróis ?
Que estranha permuta
em mim se efectua !
Troca-se o Tudo
pelo nada maior.
(...).


Ana Hatherly in "a Dama e o Cavaleiro"

ASCENÇÃO DOS HIPOPÓTAMOS


Herberto Helder [ poema experimental ] 1966


VEM UMA MUDANÇA NO TEMPO DO CORAÇÃO

Vem uma mudança no tempo do coração
secar a sua seiva, e um brilho que nos fere
vibra no interior glacial do túmulo.
Transforma-se na cidade das veias
a noite em dia, e movem-se ali os vermes
sob o reflexo solar do próprio sangue.

Vem uma mudança ocultar nos olhos
os ossos da cegueira, e então o ventre
mergulha na morte como o aparecimento da vida.

A escuridão no tempo dos olhos
encontra-se com a luz; a profundidade do mar
rompe sobre uma terra sem arestas.
A semente, que gera dos flancos um bosque
vem dividir o seu fruto, e cada metade
derrama-se lentamente no vento adormecido.

O tempo ao percorrer a nossa carne e os ossos
fica húmido e seco; o que desperta e o que morre
junto dos olhos são como dois espíritos.

Vem uma mudança no tempo do mundo
transformar um espírito no outro, e cada criança
na sua mãe amolda-se sob uma dupla sombra.
Assim é arrastada a lua em direcção ao sol,
da pele são removidas as andrajosas vestes,
e o coração abandona-se à morte.


Dylan Thomas

imagem de Greg Spalenka

Santa-Rita Pintor [ cabeça ] 1912


"Outro português atingido pelo Não foi Guilherme Augusto Cau da Costa de Santa-Rita. O "poeta cujo senso da cor é um dos mais intensos entre os homens de letras", no dizer de Fernando Pessoa, incorporou o titulo "Pintor" ao seu nome próprio e ficou por esta alcunha conhecido. Ora Santa-Rita Pintor, "inimigo íntimo" de Sá-Carneiro e "Adivinhão Latino" como também lhe chamavam, é o estranho pintor das colagens cubitas que povoaram a revista Portugal Futurista e o numero 2 da revista Orpheu em reproduções ancoradas a títulos complexíssimos. Mas o que faz dele um elo da excentricidade é o facto de ser o célebre autor de uma obra
quimérica, invisível, reduzida a cinzas e isso no caso de admitirmos que tenha existido alguma vez, e que, como reza a lenda, tenha sido queimada a seu pedido expresso pelos parentes, após a sua morte."

Golgona Anghel, Lisboa 2006

"Deixou Santa-Rita, como pintor, alguma obra de peso, um considerável quadro, [...] a famosa máquina pictural, em suma, de horroroso estilo pompier, que tanto repugnava à sua apurada estesia e para cuja execução o Estado o pensionava ? Não, amigos."

Carlos Parreira, Lisboa 1919


in "eis-me acordado muito tempo depois de mim, uma biografia de Al Berto"


Pois a resposta a ambos é que sim, em 1919 poderia até ser um mito, em 2006 é um facto, o que mostra o fraco trabalho da autora ao pesquisar para aquilo que é suposto ser uma biografia de um dos Grandes nomes da poesia em Portugal, esta e muitas outras falhas, deixaram-me um pouco desiludido com o tão aguardado e mencionado trabalho da autora e que por ironia do destino até tem um prefácio da escritora Agustina Bessa-Luís. Enfim, contudo não quero desaconselhar a compra do livro, apenas mencionar que soube a pouco...

& estorias...


2ª edição [1987]

Excepção única à regra da & etc não fazer reedições.

Razão: dado o facto de o folheto original, colecção Contramargem, ter sido apreendido pelas polícias Judiciária e de Segurança Pública à ordem do Ministério Público, seguido de processo instaurado ao editor por crime de abuso de liberdade de imprensa (isto em 1982, seis anos volvidos sobre a liberdade instaurada a 25 de Abril), decide o editor, em pleno decurso do processo, voltar ao objecto do crime - desta vez com caricatura de Francisco Valença, versando o polémico Bispo de Beja, na capinha da reedição. 
Processo arquivado sem água-vai ao editor, regados a gasolina e sujeitos a Auto-da-Fé no pátio do Tribunal da Boa-Hora os exemplares “apreendidos”, não sofreu a reedição qualquer medida persecutória. Tudo bons rapazes na justiça à portuguesa!
Texto por: Victor Silva Tavares


Uma vez que sou portador de um dos exemplares que se safou às ditas autoridades, e creio que aqui o texto não irá arder nem tão pouco chegar às mãos de tais Ministérios, partilho convosco algumas passagens desta que é talvez uma das minhas melhores aquisições literárias, dado o seu valor histórico e creio que monetário, uma vez que esta edição custou na altura a mera quantia de 50 escudos... (obrigado pai!!).


1ª edição [1980]


Lisboa, 23 de Abril 1910

ao Sr. Ministro

A respeito da imunda e tórpida questão
do prelado bejense, eis a minha opinião
que, por ser racional, é digna de registo:

Alvitro que se faça exame patológico
na pessoa do chefe episcopal de Beja,
acusado de ser passivo anagógico
mais sórdido e mais vil de toda a lusa Igreja.
Melhor do que ninguém um médico é que deve
constatar se é verdade o que diz o Ançã:
desnudará o bispo
e analisá-lo-á como a ciência prescreve
assim como se faz a qualquer barregã.
Se ele o ânus tiver infundibuliforme,
se tiver abertura involuntária, enorme,
do orificium ani e incontinência alvina
tal como a que se viu na orgia cesarina
aos cinédios de Roma; e se mostrar a ausência
de pregas radiais e a degenerescência
do esfíncter, por atónico e relasso,
é, certo, um pederasta, um nojento devasso
que deve entrar na mesma história depravada
do Lacerda de Melo e o Marquês de Valada;
e, então, deve ir vaguear nas capitais, de noite,
e olvidando a mitra, o báculo, a exegese,
que busque o boulevard escuso onde se acoite;
frequente os urinóis e deixe a diocese.
É o caminho. Só um mas o contraria:
poder ir surpreendê-lo a policia praguenta
em flagrante delito homossexual;
e isso, nem o sonhar. Que escândalo seria,
que náuseas, santo Deus!, que conjuntura odienta
o bispo a figurar num processo imoral
punido pelo artigo
390
do Código Penal!?...

Se, pois, lhe não sorrir a vida no mictório,
nos bancos dos jardins, na crápula nocturna,
que vá para a Alemanha, ao purificatório
correctivo da ciência — o encerro em sanatório
onde o tornem normal, numa cura diuturna—.

(...)

Rogo-lhe aceite o alvitre, a bem da sanidade.


Sem mais, sou de V. etc.,

HOMEM-PESSOA


in "O Bispo de Beja" & etc (1980)