[ o acossado ] 1959

Realização: Jean-Luc Godard
Argumento: François Truffaut

Edward Hopper [ automat ] 1927



A VOZ

Amar era o mais alto fim
e o canto o meu maior intento.
Porém o amor
para sempre me negaste
e a minha bela voz
para sempre emudeceste.
Quem me dará
o que tu me retiras ?
Quem me concede
o que tu me destróis ?
Que estranha permuta
em mim se efectua !
Troca-se o Tudo
pelo nada maior.
(...).


Ana Hatherly in "a Dama e o Cavaleiro"

ASCENÇÃO DOS HIPOPÓTAMOS


Herberto Helder [ poema experimental ] 1966


VEM UMA MUDANÇA NO TEMPO DO CORAÇÃO

Vem uma mudança no tempo do coração
secar a sua seiva, e um brilho que nos fere
vibra no interior glacial do túmulo.
Transforma-se na cidade das veias
a noite em dia, e movem-se ali os vermes
sob o reflexo solar do próprio sangue.

Vem uma mudança ocultar nos olhos
os ossos da cegueira, e então o ventre
mergulha na morte como o aparecimento da vida.

A escuridão no tempo dos olhos
encontra-se com a luz; a profundidade do mar
rompe sobre uma terra sem arestas.
A semente, que gera dos flancos um bosque
vem dividir o seu fruto, e cada metade
derrama-se lentamente no vento adormecido.

O tempo ao percorrer a nossa carne e os ossos
fica húmido e seco; o que desperta e o que morre
junto dos olhos são como dois espíritos.

Vem uma mudança no tempo do mundo
transformar um espírito no outro, e cada criança
na sua mãe amolda-se sob uma dupla sombra.
Assim é arrastada a lua em direcção ao sol,
da pele são removidas as andrajosas vestes,
e o coração abandona-se à morte.


Dylan Thomas

imagem de Greg Spalenka

Santa-Rita Pintor [ cabeça ] 1912


"Outro português atingido pelo Não foi Guilherme Augusto Cau da Costa de Santa-Rita. O "poeta cujo senso da cor é um dos mais intensos entre os homens de letras", no dizer de Fernando Pessoa, incorporou o titulo "Pintor" ao seu nome próprio e ficou por esta alcunha conhecido. Ora Santa-Rita Pintor, "inimigo íntimo" de Sá-Carneiro e "Adivinhão Latino" como também lhe chamavam, é o estranho pintor das colagens cubitas que povoaram a revista Portugal Futurista e o numero 2 da revista Orpheu em reproduções ancoradas a títulos complexíssimos. Mas o que faz dele um elo da excentricidade é o facto de ser o célebre autor de uma obra
quimérica, invisível, reduzida a cinzas e isso no caso de admitirmos que tenha existido alguma vez, e que, como reza a lenda, tenha sido queimada a seu pedido expresso pelos parentes, após a sua morte."

Golgona Anghel, Lisboa 2006

"Deixou Santa-Rita, como pintor, alguma obra de peso, um considerável quadro, [...] a famosa máquina pictural, em suma, de horroroso estilo pompier, que tanto repugnava à sua apurada estesia e para cuja execução o Estado o pensionava ? Não, amigos."

Carlos Parreira, Lisboa 1919


in "eis-me acordado muito tempo depois de mim, uma biografia de Al Berto"


Pois a resposta a ambos é que sim, em 1919 poderia até ser um mito, em 2006 é um facto, o que mostra o fraco trabalho da autora ao pesquisar para aquilo que é suposto ser uma biografia de um dos Grandes nomes da poesia em Portugal, esta e muitas outras falhas, deixaram-me um pouco desiludido com o tão aguardado e mencionado trabalho da autora e que por ironia do destino até tem um prefácio da escritora Agustina Bessa-Luís. Enfim, contudo não quero desaconselhar a compra do livro, apenas mencionar que soube a pouco...

& estorias...


2ª edição [1987]

Excepção única à regra da & etc não fazer reedições.

Razão: dado o facto de o folheto original, colecção Contramargem, ter sido apreendido pelas polícias Judiciária e de Segurança Pública à ordem do Ministério Público, seguido de processo instaurado ao editor por crime de abuso de liberdade de imprensa (isto em 1982, seis anos volvidos sobre a liberdade instaurada a 25 de Abril), decide o editor, em pleno decurso do processo, voltar ao objecto do crime - desta vez com caricatura de Francisco Valença, versando o polémico Bispo de Beja, na capinha da reedição. 
Processo arquivado sem água-vai ao editor, regados a gasolina e sujeitos a Auto-da-Fé no pátio do Tribunal da Boa-Hora os exemplares “apreendidos”, não sofreu a reedição qualquer medida persecutória. Tudo bons rapazes na justiça à portuguesa!
Texto por: Victor Silva Tavares


Uma vez que sou portador de um dos exemplares que se safou às ditas autoridades, e creio que aqui o texto não irá arder nem tão pouco chegar às mãos de tais Ministérios, partilho convosco algumas passagens desta que é talvez uma das minhas melhores aquisições literárias, dado o seu valor histórico e creio que monetário, uma vez que esta edição custou na altura a mera quantia de 50 escudos... (obrigado pai!!).


1ª edição [1980]


Lisboa, 23 de Abril 1910

ao Sr. Ministro

A respeito da imunda e tórpida questão
do prelado bejense, eis a minha opinião
que, por ser racional, é digna de registo:

Alvitro que se faça exame patológico
na pessoa do chefe episcopal de Beja,
acusado de ser passivo anagógico
mais sórdido e mais vil de toda a lusa Igreja.
Melhor do que ninguém um médico é que deve
constatar se é verdade o que diz o Ançã:
desnudará o bispo
e analisá-lo-á como a ciência prescreve
assim como se faz a qualquer barregã.
Se ele o ânus tiver infundibuliforme,
se tiver abertura involuntária, enorme,
do orificium ani e incontinência alvina
tal como a que se viu na orgia cesarina
aos cinédios de Roma; e se mostrar a ausência
de pregas radiais e a degenerescência
do esfíncter, por atónico e relasso,
é, certo, um pederasta, um nojento devasso
que deve entrar na mesma história depravada
do Lacerda de Melo e o Marquês de Valada;
e, então, deve ir vaguear nas capitais, de noite,
e olvidando a mitra, o báculo, a exegese,
que busque o boulevard escuso onde se acoite;
frequente os urinóis e deixe a diocese.
É o caminho. Só um mas o contraria:
poder ir surpreendê-lo a policia praguenta
em flagrante delito homossexual;
e isso, nem o sonhar. Que escândalo seria,
que náuseas, santo Deus!, que conjuntura odienta
o bispo a figurar num processo imoral
punido pelo artigo
390
do Código Penal!?...

Se, pois, lhe não sorrir a vida no mictório,
nos bancos dos jardins, na crápula nocturna,
que vá para a Alemanha, ao purificatório
correctivo da ciência — o encerro em sanatório
onde o tornem normal, numa cura diuturna—.

(...)

Rogo-lhe aceite o alvitre, a bem da sanidade.


Sem mais, sou de V. etc.,

HOMEM-PESSOA


in "O Bispo de Beja" & etc (1980)

"No sábado à noite convidaram-me para uma festa na casa de um colega de trabalho. Éramos cerca de trinta técnicos entre os vinte e os quarenta anos. De um momento para o outro uma idiota começou a despir-se. Desfez-se da t-shirt, tirou o soutien, em seguida tirou a saia, ao mesmo tempo que fazia poses incríveis. Pavoneou-se um pouco em cuecas e em seguida começou a vestir-se tendo percebido que não havia mais nada para mostrar. No entanto é o tipo de rapariga que não se deita com qualquer um. O que sublinha o seu comportamento absurdo."
E assim começa o primeiro parágrafo daquele que é o primeiro romance de Michel Houellebecq, Extensão do domínio da luta, escrito em 1994 e agora editado para o nosso português pelas edições Quasi. Baseado no caos da vida contemporânea, o livro aborda o tema da subjectividade do indevido numa sociedade dominada pelo poder monetário, onde a banalidade dos materiais supera e preenche a falta das relações humanas, e onde o capitalismo e a pobreza existencial são o pano de fundo neste romance-ensaio que Houellebecq faz questão de baptizar como um romance da aprendizagem do desgosto.
Escrito com uma faca nos dentes, aliás, como o autor bem gosta de o fazer, não se poupando à provocação e à ironia, por vezes sendo mesmo excessivo, um livro obrigatório.

p.s. não recomendado a senhoras(es) mais sensíveis :)

Michel Houellebecq "extensão do domínio da luta" ed. quasi
tradução de Paula Lourenço


se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar morro de aflição.


"Acreditava que a sua obra se podia reduzir a um único texto. Aquele."

in "Eis-me acordado muito tempo depois de mim, uma biografia de Al Berto" edições quasi

Fotografia de Paulo Nozolino: Lisboa, Escadinhas do Duque, 1984 (colecção da Frenesi)

"O poeta não tem outro remédio senão ser revolucionário ou não ser poeta, pois deve lançar-se a todo o movimento no desconhecido; o passo por ele dado ontem não o dispensa do passo a dar amanhã porque é preciso recomeçar tudo de novo todos os dias, e aquilo que ele adquiriu durante o sono desfez-se já em poeira ao acordar. Para ele não existe qualquer lugar como chefe de família, apenas o risco e a aventura indefinidamente renovados. Somente a este preço pode dizer-se poeta e pretender um lugar legítimo à ponta mais extrema do movimento cultural, aí onde não há louvores nem medalhas a receber, mas sim bater-se com todas as suas forças para derrubar as barreiras sempre renascentes do hábito e da rotina.
Hoje ele só pode ser maldito. Essa maldição que a sociedade actual lhe lança assinala a sua posição revolucionária; mas sairá do seu esconderijo forçado para se pôr à cabeça da sociedade logo que ela, sacudida de alto a baixo, haja reconhecido a origem humana comum à poesia e à ciência, e o poeta, com a colaboração activa e passiva de todos, criará os exaltantes e maravilhosos mitos que lançarão o mundo inteiro no assalto ao desconhecido."

Benjamim Péret in "a ovelha galante" & etc (1993)

Francis Bacon [ sand dune ] 1983


"onde está a vida do homem que escreve, a vida da laranja, a vida do poema - a vida, sem mais nada - estará aqui ?
fora das muralhas da cidade ?
no interior do meu corpo ?
ou muito longe de mim - onde não possuo outra razão...
e me suicido na tentativa de me transformar em poema e poder, enfim, circular livremente."

Al berto

FUI PARA FORA CÁ DENTRO...


Fotografia de Daniel Blaufuks


Informo os estimados clientes que este café estará encerado durante os próximos dias, finalmente as tão aguardadas e bem merecidas férias, como tal as bicas que aqui forem tomadas estarão frias.
Prometo voltar em breve...


Tem os lábios secos.
Por isso não sorri.
Mas dança;
O velho dança: a decrepitude do vento.
Os velhos dançam sempre
Para esquecer mais o corpo,
para lançar mais trigo
sobre o coração da morte:
a santa vizinha;
o silêncio malcriado.


Sandro William Junqueira

O BAIRRO


Depois de nos ter presenteado no final do ano passado com mais dois moradores no BAIRRO, o senhor KRAUS e o senhor CALVINO, do qual já faziam parte os senhores BRECHT, VALÉRY, HENRI e JUARROZ, chega-nos agora mais um novo morador, o senhor WALSER... mas atenção, este novo vizinho do bairro, não mora exactamente no bairro, embora faça parte dele como todos os outros, mora ali, um pouco mais ao lado, mais propriamente no meio do campo, isolado, como sempre quis, na sua nova casa, acabada de construir, (talvez porque o senhor Robert Walser* assim o era, um ser isolado e muito solitário). É notável a construção de personagens que Gonçalo M. Tavares tem vindo a construir para dar vida a um bairro imaginário que se tivesse realmente existido seria sem duvida um lugar mágico e um local muito agradável de se viver. Mas Gonçalo M. Tavares não se fica por aqui, apresentando-nos na contra-capa deste seu novo livro um novo mapa onde se anunciam já os próximos moradores deste BAIRRO, os senhores RIMBAUD, BALZAC,CARROLL, MELVILLE, PROUST, HENRI M., CORTÁZAR, GOGOL, MUSIL, FOUCAULT, WITTGENSTEIN, BECKETT, ORWELL, BORGES, PESSOA, ELIOT, PIRANDELLO, BURROUGHS, WELLS, VOLTAIRE, WARHOL, DUCHAMP, CORBUSIER, LOYD WRIGHT, JOYCE, KAFKA, BRETON, MISHIMA, LORCA, C. ANDERSON, SWENDENBORG, e as Senhoras WOOLF e BAUSCH. Enfim, um mundo ainda por descobrir na arte suprema de Gonçalo M. Tavares.


Gonçalo M. Tavares "O senhor Walser" caminho
desenhos de Rachel Caiano

*ROBERT WALSER


Escritor suíço de língua alemã nascido em 1878 (Biel), escreveu vários romances, dos quais quatro fazem parte do catálogo da editora relógio d'água, O Ajudante, A Rosa, O Salteador e Jacob von Guten um diário (adaptado para o cinema em 1995 por Stephen e Timothy Quay "Instituto Benjamenta"), escreveu também muitos contos um dos quais também adaptado pelo realizador português João César Monteiro em 2000, o tão polémico "Branca de neve". Morreu a 25 de Dezembro de 1956, quando dava um dos seus passeios solitários, perto do manicómio de Herisau, local onde passou os seus últimos anos.

Edward Hopper [ South Truro Church ] 1930


AMOU TANTO

Agora era velhinha e não conseguia sentir-se tomada de qualquer sentimento em relação a coisa alguma, mas tinha amado muito.
Esperava ainda encontrar-se com algum ser que se movesse sobre a crosta da terra.
Até que se enamorou pela fachada de uma igreja de Assis, decidindo mudar-se para aquela cidade. Era Inverno, e durante os temporais nocturnos, saía com um guarda-chuva para fazer companhia à igreja, plena de uma luz amedrontada.
Depois, chegou a Primavera, e todas as manhãs e todas as tardes, com as mãos, tocava as pedras quentes e enxutas. Foi um amor sereno e sem traições que durou até à sua morte.

Tonino Guerra

escutar...


Cannonball Adderley [ somethin'else ] blue note 1958

Peter Blake [ I Love You ]



Transformar o amor para melhorar o amor
Transformar o corpo para melhorar o corpo.
Transformar a poesia para melhorar a poesia
Transformar este sítio para melhorar este sítio
mas transformar também este sitio para melhorar aquele sítio.
Transformar o corpo para melhorar outros corpos.
Transformar o amor para melhorar o amor

Gonçalo M. Tavares


PREFÁCIO

Antes do sol se pôr, o céu do Estoril enche-se de malvadas andorinhas. E isto estraga os planos de qualquer pessoa. Não há ordem naquela zaragata tão bem voada, que segue uma indecisão rabugenta e faz questão de confundir o que tanto custou a juntar.
As minhas andorinhas, tal qual as ruas, adivinham a minha morte, fingindo a vida. O sono é uma tarde perdida, para a qual não se acordou, às quatro da tarde, ou lá o que é: o mais que se sonhou é pouco para se ver.
O meu amor tem duas coisas pouco claras.
E esta é uma delas: pôr-me a olhar para o que não posso saber.
É na distracção que está a felicidade e estas crónicas pretendem desviá-la mais ainda. Cada andorinha tem a sua pancada— elas próprias talvez preferem «missão» —, mas não se consegue atribuí-las por mais de um segundo a uma única que seja, porque trocam de pancada em pleno voo e não têm peso.
Ia morrendo.
As andorinhas sabem que são bonitas e que o céu, sem elas, se ressente. Gostam de fazer sofrer quem as vê no intuito de pensar nalguma coisa. E sabem sempre que não há confusão ou algazarra que possa compensar a alegria que parecem trazer mas podem não trazer só por serem andorinhas.
Nunca é bom sinal começar a reparar nos passarinhos. Mas as andorinhas são um caso especial. Há ali uma identidade trocada qualquer; a tinta-da-china, que pareceu gatafunho a quem tinha tempo para perder com complicações de uma só cor: preto, branco e azul. E cada preto, cada branco e cada azul, claro ou escuro ou cinzento, conforme a andorinha no momento em que a vê — e quando se diz, sempre muito antes de se ver. Faz o quê ? Voa.
Voa apesar de tudo. E, apesar de tudo, voa.


Miguel Esteves Cardoso in. " A minha andorinha " assírio & alvim


Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.


Camilo Pessanha

Vincent van Gogh [ Autoretrato ] 1887



"Debaixo da pele o corpo é uma fábrica a ferver,
e por fora,
o doente brilha,
reluz,
com todos os poros,
estilhaçados."

Antonin Artaud in. "Van Gogh - o suicidado da sociedade"



A BORBOLETA

Contente mesmo contente
estive na vida muitas vezes
mas nunca como na Alemanha
quando me libertaram
e me pus a olhar para uma borboleta
sem vontade de a comer.


Tonino Guerra in. "Histórias para uma noite de calmaria"

aguarela de Jorge Martins



CÂNTICO NEGRO

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!



José Régio in. "O Cântico Negro" edições Quasi

Fotografia de Ralph Gibson


SEM TI

E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.


Eugénio de Andrade

imagem de Greg Spalenka

A BOCA DA VERDADE


O poeta LAWRENCE FERLINGHETTI, não cessa de pôr a poesia ao serviço da vivência andarilha, como numa permanente viagem pela vida sem fim, e suas paisagens mentais em multicolor. Tomando as palavras ao vivo e submetendo-as à mutação do instante, à autenticidade da emoção. Como um visionário percorrendo todos os cantos do teatro quotidiano, surpreendendo com lanterna mágica as várias faces do enigma poético, e usando para isso "a bela língua" ritmada de sons coloridos. Aventura onde as palavras são o veículo de situações específicas. Tocando o essencial de cada coisa de cada ser.
Atento a tudo, Lawrence Ferlinghetti, deixou de ser um poeta inspirado e passou a ser um inspirador.
O seu mundo é um longo percurso inconformista feito na estrada, no Jazz e na rua , Poeta da irreverência de São Francisco, implicado contra a guerra do Vietnam e todas as guerras (de Super Tiranus) censuras e polícias do espírito.
Poeta pacífico, exuberante e activo, permanece um percursor da nova poesia revolucionária, assim como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, entre outros.
Ferlinghetti resiste à engrenagem da América decadente, mantém-se o Homem da estrada.
A poesia Beat é um meio de libertação total do espirito, voltada para o futuro, voltada para os que se procuram em oposição a tudo o que está acabado, fixo, estático, estabelecido.
Neste horizonte onde Lawrence Ferlinghetti continua vigilante, mostra-nos a cor da liberdade, o odor da revolta, a multiplicação de outros possíveis, onde o homem, a vida, a poesia, não são outra coisa senão uma invenção colectiva em perpétua mutação, em perpétua busca do sentido convulsivo.
Lawrence Ferlinghetti é a prolongação de Rimbaud, Artaud e todos os que souberam arriscar-se para arrancar a máscara à REALIDADE.

" SOU UMA LÁGRIMA DO SOL, SOU O HOMEM DOS POEMAS DESPENTEADOS, SOU UMA COLINA DE POESIA "

Lawrence Ferlinghetti


SAUDAÇÃO

A todo o animal que devora seus semelhantes
ou os mata a tiro
A cada caçador armado numa camioneta
de atrelado
E cada recruta atirador d'elite ou milícia
com mira telescópica
E cada campesino com botas cães e espingarda
de cano cortado
E cada guarda com cães ensinados a perseguir
a matar
E cada chui à paisana ou agente secreto
com cinturão carregado
de morte
E cada servo do povo disparando sobre a
multidão
ou metralhando criminais em fuga
E cada guarda civil em qualquer país
guardando civis com algemas & carabinas
E cada carabineiro de qualquer Check Point Charley
de qualquer lado de qual
muro de Berlin cortina de Bambu
ou de Tortilha
E cada tropa polícia de trânsito com farda
de cavaleiro por medida
& capacete de plástico & gravata de laço
& pistola de seis tiros num estojo
com cravos de prata
E cada nívea com revolver anti-tumulto
& alarmes e cada tanque
anti-tumulto
gás tóxico & gás lacrimogéneo
E cada piloto d'elite com bombas e napalm
debaixo das asas
E cada piloto de céu abençoando os bombardeiros
na descolagem
E cada Departamento do Estado de qualquer
super estado
vendendo armas aos dois campos
E cada nacionalista de qualquer nação
de qualquer mundo Negro Mestiço
ou branco que mata pela nação
E cada profeta ou poeta com arma de fogo
ou navalha impondo pela força
a iluminação espiritual
ou impondo pela força o poder
de qualquer estado poderoso
E a todos que matam e matam e matam
& matam pela Paz
ergo o dedo do meio
no única saudação que merecem.

Lawrence Ferlinghetti in. " A Boca da Verdade "

Vespeira [ VOTO POVO ] 1975


A IDENTIDADE DOS CONTRÁRIOS

Sonho que sou louco, e na minha loucura
Sou mais sensato que num sonho
Ou acordado, com medo que me tenham por louco
Meus companheiros de sonho.

Meu bom senso é diária loucura,
Para um mundo em vigília que atribui
Mais vigília e atenção mais funda
À razão do que a razão possui.

Sonho é minha vida diária, cada dia
Simula e dissimula até loucura
E razão serem ambas semelhantes,
E eu ajo enquanto sonho.

No sonho, o bom senso e a loucura,
Na loucura, o sonho e o dia a dia
Ligados, entre si todos semelhantes:
Sonhando ou acordado, sou louco e sou sensato.


Edouard Roditi

in. "As Magias" versões de Herberto Helder, Hiena editora, 1987

RECEITA SURREALISTA



Mande vir com que escrever, depois de se ter instalado num lugar tão próprio quanto possível à concentração do seu espírito sobre si-mesmo. Coloque-se no estado mais passivo, ou receptivo, que poder. Abstraia do seu génio, do seu talento e de todos os outros. Repita a si-próprio que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo. Escreva depressa sem assunto prévio, suficientemente depressa para não parar e não ser tentado a rever. A primeira frase virá sozinha, de tal modo é verdade que em cada segundo existe uma frase estranha no nosso pensamento que só deseja exteriorizar-se. É bastante difícil pronunciarmo-nos sobre o caso da frase seguinte; ela participa simultaneamente da nossa actividade inconsciente e da outra, se admitirmos que o facto de termos escrito a primeira arrasta um mínimo de percepção. Aliás, isso pouco lhe deve importar; é nisso que reside, na maior parte dos casos o interesse do jogo surrealista.
A verdade é que a pontuação se opõe, sem dúvida à continuidade absoluta da corrente de que estamos a falar, embora pareça tão necessária como a distribuição dos nós numa corda vibrante. Continue enquanto lhe apetecer. Fie-se no carácter inesgotável do murmúrio (...).

André Breton

fotografia de Man Ray

RECEITA DADAISTA



Pegue num jornal.
Pegue numa tesoura.
Escolha no jornal um artigo que tenha tamanho que pensa dar ao seu poema
Recorte o artigo.
Recorte seguidamente com cuidado as palavras que formam o artigo e meta-as num saco.
Agite com cuidado.
Seguidamente, retire os recortes um por um .
Copie conscienciosamente segundo a ordem pela qual foram saindo do saco
o poema parecer-se-á consigo.
E voçê tornou-se um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade encantadora, ainda que incompreendida pelo vulgo.

Tristan Tzara

fotografia de Man Ray

ROBERT & SHANA PARKEHARRISON


Tethered Sky 2005


Reclamation 2003


Turnig to Spring 2002


De quantas facas se faz o amor
de quantas pedras se faz o vício
de quantos homens se faz o medo
de quantas noites se faz a morte
de quantas vidas se faz uma criança
de quantas ternuras se faz o tédio
de quantas horas
será feita a esperança que guardo
com sons de corpo arrastado
de quantas grutas será feita
esta humilde nas veias
que me acordam
de quantos poros será feito o mistério
de quantos gritos será feita uma religião
de quantos ossos será feita
a maldade
de quantos crimes será feita
esta lua que mal começou
e já me deixou no hábito de apurar
os sentidos

Fernando Lemos

DO VINHO E DO HAXIXE


CHARLES-Pierre BAUDELAIRE (1821/1867) é considerado um dos maiores poetas do século XIX. Herdeiro do romantismo e extremamente influenciado pela obra do escritor norte-americano Edgar Allan Poe, Baudelaire foi percursor do simbolismo e lançou as bases da poesia moderna (Rimbaud, Mallarmé, Verlaine, entre outros), revelando uma nova sensibilidade poética, baseada na experiência da vida urbana, e explorando temas como a melancolia, o tédio, a volúpia, a luxúria, o satanismo. Da sua bibliografia poética, destaca-se "As flores do Mal" (1857), obra que causou enorme escândalo, o livro despertou hostilidades na imprensa e foi julgado por muitos como um subproduto degenerado do romantismo, sobretudo pelo erotismo de alguns poemas. Além de condená-lo a uma multa por ultraje à moral e aos bons costumes, a justiça obrigou-o a retirar do volume seis poemas. Só a partir de 1911 apareceram edições completas da obra.
Tornou-se ainda conhecido como crítico de arte e literatura, e como tradutor dos contos de Edgar Allan Poe.
Baudelaire foi um dos primeiros escritores do século XIX a dissertar sobre sobre as drogas - a que desde muito cedo recorreu para estimular a inspiração- e os seus efeitos, tendo escrito diversos ensaios sobre o tema. Dos quais se destaca "Os Paraísos Artificiais" (1860), obra que reúne vários ensaios, e da qual faz parte este pequeno ensaio recentemente reeditado pelas edições Quasi.

"Do Vinho e Do Haxixe comparados como multiplicação da individualidade" tradução e notas de Helder Moura Pereira.

O VINHO

O DAIMON DO VINHO

Ó Homem querido deserdado
Cantava pela tarde o daimon do vinho nas garrafas
Da minha prisão de vidro e de lacre
Te envio uma cançao de luz e de fraternidade;
Não penses que ignoro quanto trabalho suor e sol a pique
Foi preciso reunir nas colinas em chama
Para fazer de mim um daimon actuante_
Estou-te grato. Não te farei mal.
É imensa a alegria que sinto
Quando deslizo pelas goelas do trabalhador cansado,
O seu peito quente é uma jazida muito mais do meu agrado
Do que as caves frias onde me conservo.

Não ouves as canções de domingo passado de boca em boca
E a esperança que chilreia no meu peito palpitante?
De cotovelos na mesa e de mangas arregaçadas
Teu júbilo crescente à minha glória canta.
Darei luz aos olhos da tua mulher rediviva
A teu filho, força e cores vitais _ serei para esse frágil atleta da vida
O óleo que endurece seus músculos de lutador.

Sou uma ambrósia vegetal, eu sei.
Uma semente preciosa lançada pelo Semeador
Em ti cairei para que do nosso enlace nasça a flor rara do poema_
Falarás, de igual para igual, com esse Criador.


Charles Baudelaire in. "As Flores do Mal"
Jacques Tati [ O meu Tio ] 1958




ANGÚSTIA

Não venho , não, vencer esta noite o teu corpo
animal, pecador por todo um povo, nem
em tuas tranças cavar, impuras, tristes ondas
sob o tédio mortal derramado num beijo:

no teu leito o que busco é um sono sem sonhos
perpassando por sob cortinas de remorsos,
e que podes gozar em mentiras medonhas,
tu que sabes do nada ainda mais que os mortos:

porque o Vício, a roer minha nobreza inata,
marcou-me como tu com a esterilidade,
mas enquanto em pedra o teu seio é talhado

cheio de um coração que nenhum crime mancha,
eu fujo, angustiado, da mortalha que é minha,
com medo de morrer quando durmo sozinho.


Stéphane Mallarmé

Jan Saudek [ hungry for your touch ] 1971



ANOITECER

É como o sono que se aproxima, recolhendo
as suas asas,
ofuscante matéria do horizonte, algo assim,
pesado,
batendo na cara, na sua ardente solidão.

Em certas noites o vento canta.
No oásis cresce uma vegetação de pranto
e num porto sem luzes
aproximam-se as sombras da melancolia.
Um sino toca algures onde se enlouquece.
Procuro-te ainda, no interior da névoa,
no assombro das ilhas.


José Agostinho Baptista

imagem de Maggie Taylor

O BARCO ÉBRIO



Dita Parlo, fotograma de L'Atalante


" Pelo seu misto de esteticismo e realismo, pelo seu lirismo ancorado no quatidiano, pelo seu poder de subversão, Jean Vigo afirmou-se, ainda muito jovem, como um dos grandes poetas da sétima arte: o Rimbaud do ecrã. "


" Este equilíbrio de todos os elementos do drama visual no acolhimento terno de uma aceitação total (...) este quadro tão límpido, tão desprovido de emplastros e de pompa, clássico em suma, [constitui] o próprio espirito da obra de Jean Vigo, atormentado, febril, fervilhado de ideias e de fantasia conturbada, de um romantismo virulento ou mesmo demoníaco, ainda que constantemente humano. "

Élie Faure (texto editado em 1934)


Um realizador teimoso e doente: Jean Vigo. Um produtor inexperiente e opinativo: Jacques-Louis Nounez. Um inverno difícil: Dezembro de 1933. Dois actores célebres: Michel Simon, que tinha acabado de se impor com "Jean de la Lune"de Jean Choux (1931) e "Boudu Sauvé des Eaux" de Jean Renoir (1932), e Dita Parlo, vedeta berlinense. Um terceiro protagonista (Jean Dasté), amigo de Vigo e também herói da sua média-metragem proibida, (proibido até 1945 devido à sua mensagem anarquista), "Zéro de Conduite" 1933. Um argumento minimalista, pudico e violento ao mesmo tempo: a esposa de um marinheiro que o troca por um vendedor ambulante. Um director de fotografia inspirado: Boris Kaufman (operador de câmera de Dziga Vertov). Um músico de talento: Maurice Jaubert (entre muitos outros trabalhou com François Truffaut). E uma obra-prima mítica: L'Atalante. Começa então a maldição deste filme. 5 de Outubro de 1934: Jean Vigo, extremamente esgotado pela rodagem e sofrendo septicemia, morre. Tinha apenas vinte e nove anos e deste filme não viu senão uma primeira montagem...


Uma manhã o pacato e sedentário Isidro Vidal, reformado que leva uma vida tranquila, descobre que o processo comum de substituição de gerações foi alterado e acelerado. Hordas de jovens atléticos percorrem Buenos Aires à caça de idosos lentos e débeis.
Vidal e os seus amigos são obrigados a improvisar uma defesa desesperada. Têem de aprender a mover-se pela cidade a horas fantasmagóricas numa cidade apenas iluminada pelas tochas de uma guerra invisível, tão real como simbólica. Uma guerra contra grupos rivais mas também contra um inimigo comum: a inevitável passagem do tempo.
Um romance irónico que toca as situações mais comoventes da vida humana e um dos nossos maiores medos: o do tempo e da proximidade da morte.

Adolfo Bioy Casares "Diário da Guerra aos Porcos" cavalo de ferro

ADOLFO BIOY CASARES



Adolfo Bioy Casares (Buenos Aires, 1914/1999) é um dos escritores argentinos mais importantes do Século XX. Escreveu algumas obras em conjunto com Jorge Luis Borges sob o pseudónimo de H. Bustos Domecq, e com o qual fundou em 1935 a revista [ Destiempo ], foi galardoado com inúmeros prémios nacionais e internacionais, dos quais se podem destacar o Premio Municipal de Literatura de la Ciudad de Buenos Aires (1940), Premio Mondello (Itália, 1984), Premio Cervantes (1990), Premio Consagración Nacional (pelo conjunto da sua obra, 1992), para além dos inúmeros Doutoramentos honoris causa que foi recebendo um pouco por todo o mundo.

Camille Rose Garcia


[ cavern swan escape ] 2006


[ blue sailor ] 2005


[ shine your teeth meaningless ] 2004


O CÃO

Exacto oboé de pelo
por quatro patas contido
humanos de não querer sê-lo
pontualmente enternecido

geométrica dose de amor
aos pés do dono rio
cão por fora absoluto
de cão não ser escondido

idioma de nascituro
povo no ovo, o seu latido
por nos seguir é cão.
Mas se seguido ?


Natália Correia

imagem de Greg Mably
Mark Rothko [ white over red ]


quero roubar
do branco
toda a unidade da sua
cor
e dá-la à minha
alma
insistentemente
dividida

Hélder Reis in. " branco "