[Pravda 1, direcção e organização de Júlio Henriques & Vasco Santos para Fenda edições, no outono de 1982]


QUERIDA, VAMOS LAMBER FERIDA?
NÃO, AMOR, PREFIRO CHUPAR TUMOR.

MAS TUMOR NÃO ME SEDUZ,
PREFIRO UM COPO DE PUS.

PUS SÓ EM TAÇA DE ESTANHO,
E NESSA TAÇA TEM RANHO.

AH, RANHO É PARA O JANTAR,
ABRA A BOCA QUE VOU VOMITAR.

Jamais je ne t'ai dit que je t'aimerai toujour



A UMA CEREJEIRA EM FLOR

Acordar, ser na manhã de Abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.


Eugénio de Andrade, in "As mãos e os frutos"

imagem de Yuko Shimizu

o assalto a notre-dame...

[ Michel Mourre ao centro ladeado pelos poetas letristas, Ghislain de Marbain, ao fundo e Serge Berna, sob a alçada da policia após os incidentes de Notre-Dame. ]


Às onze horas e dez minutos do dia 9 de abril de 1950, quatro jovens do sexo masculino — um deles vestido da cabeça aos pés de frade dominicano —, entraram na Notre-Dame de Paris. Estava então a ter lugar a missa pascal; na catedral encontravam-se cerca de dez mil pessoas, vindas de todas as partes do mundo. "O falso dominicano", como lhe chamaram os jornais — Michel Mourre, de vinte e dois anos —, aproveitou-se de uma pausa após o credo e ocupou o altar. Começou então a ler uma homilia escrita por um dos seus co-conspiradores, Serge Berna, de vinte e cinco anos.


Hoje dia de Páscoa deste Sagrado Ano
aqui
na insigne Basílica de Notre-Dame de Paris
Acuso
a Igreja Católica Universal do desvio fatal das nossas forças vivas na direcção do vazio celestial
Acuso
a Igreja Católica de fraude
Acuso
a Igreja Católica de infectar o mundo com a sua moral fúnebre e de ser o cancro da decomposição do Ocidente

Em boa verdade vos digo: Deus está morto
Vomitamos em cima da agonizante insipidez das vossas orações
porque as vossas orações não têm sido senão fumo oleoso pairando sobre os campos de batalha da nossa Europa

Prossegui, pois, o vosso caminho através do trágico e imenso deserto de um mundo em que Deus morreu
e voltai a lavrar esta terra com as vossas próprias mãos
com o ORGULHO das vossas mãos
com as vossas mãos que só têm servido para rezar

Hoje, dia de Páscoa deste Sagrado Ano
Aqui, sob os auspícios da Notre-Dame de França
proclamamos a morte do Cristo-Deus, para que o Homem possa finalmente viver.


O cataclismo que se seguiu foi muito para lá do que Mourre e os seus companheiros pudessem esperar, eles que, a princípio, apenas pretendiam lançar uns quantos impropérios de provocação. O organista, avisado de que podia haver desordem, impediu Mourre de continuar, mal pronunciou as palavras mágicas "Deus está morto". O resto do discurso nunca chegou a ser dito: os guardas suíços da catedral desembainharam as espadas e perseguiram os conspiradores, tentando matá-los. Os companheiros de Mourre, para protegê-lo, ocuparam então o altar — um deles, Jean Rullier, de vinte e cinco anos, foi mesmo ferido no rosto. Os blasfemos conseguiram escapar — Mourre, com o hábito manchado do sangue de Rullier, foi-se escapando para a saída enquanto abençoava jocosamente os crentes — mas foram depois capturados, ou melhor, salvos, pela polícia: tendo perseguido os quatro até às margens do Sena, a multidão estava prestes a linchá-los. Um cúmplice, que os esperava com um carro pronto para a fuga, ao ver aquela turba de gente, desapareceu. Marc, O e Gabriel Pomerand, que também estavam presentes na catedral, esquivaram-se rapidamente e dirigiram-se a Saint-Germain-des-Prés para espalhar a noticia.


Greil Marcus, in "Marcas de Baton", frenesi (1999)
Dante Gabriel Rossetti [ Lady Lilith ] 1872/73



UM OUTRO TANTO

Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia

é amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia

perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de um jeito tal que desconhecia

poder amar-te ainda
um outro tanto


Maria Teresa Horta, in "Inquietude" quasi (06)

O CAFÉ DOS LOUCOS, ANO 1...


No principio era o Herman Melville e o seu fabuloso Bartleby, depois veio o Enrique Vila-Matas com os seus Bartleby's & Companhia, de todos houve um que me despertou mais a atenção, Felipe Alfau... que apenas tinha escrito e publicado um romance em toda a sua vida, "O café dos loucos", dai começou a minha procura por um livro editado em Portugal numa editora já extinta no mercado livreiro... até que BINGO encontro um exemplar e leio num abrir e fechar de olhos, depois começa a aventura no mundo dos blogues, até que decidi abrir o meu café dos loucos, faz hoje 1 ano que aqui estou, e como tal agradeço a todos os que por aqui passaram e passam diariamente para beber a sua bica....

obrigado

M.
Felipe Alfau [ o café dos loucos ] puma editora, 1992

O titulo refere um Café dos Loucos em Toledo do qual, no primeiro capítulo, praticamente todas as personagens principais são apresentadas como habitués, bons para os maus escritores de ficção que, tal como o autor, ali entram para observá-los. Lá está o Dr. de los Rios, o Médico ao serviço da maioria dos farrapos humanos que se agarram àquelas mesas; Gaston Bejarano, um chulo conhecido pelo nome de El Cogote; Dom Laureano Baez, mendigo profissional, rico; a criada/filha dele, Lunarito, a Irmã Carmela que é a mesma coisa que Carmen, uma freira fugitiva; Garcia, poeta que se torna perito em impressões digitais; o Padre Inocencio, monge salesiano; Dom Benito, o prefeito da Policia; Felipe Alfau; Dom Gil Bejarano, comerciante de sucata e tio de de El Cogote; Dona Micaela Valverde, três vezes viúva e necrófila; o senhor Olónzaga, em tempos conhecido por Mandarin Negro, um gigante, antigo escravo de galeras, baptizado e educado por monges espanhóis na China, antigo domador de borboletas num circo, antigo ponteado nas Filipinas espanholas, gerindo actualmente uma estranha agência de dívidas difíceis e outra de compra e venda de roupa de mortos... O cruzamento entre estas personagens é magnifico e o final surpreendente.
O café dos Loucos é um livro obrigatório, obra percursora do realismo mágico dos Latino-Americanos, bem como a invenção de escritores mais tardios como Jorge Luis Borges ou Adolfo Bioy Casares, enfim, um livro injustamente esquecido no nosso mercado.

FELIPE ALFAU

FELIPE ALFAU nasceu em 1902 em Guernica, Espanha. Emigrou para os Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial, e ai estudou musica e escreveu critica musical durante um breve período para La Prensa, o jornal espanhol de Nova Iorque.
Tendo decidido escrever em inglês por pensar que não podia atingir o público espanhol, terminou O CAFÉ DOS LOUCOS em 1928, obra que veio a ser editada apenas oito anos depois.
Em 1929 a Doubleday publicou um livro para crianças, Old tales from Spain. Após a publicação de O CAFÉ DOS LOUCOS, Alfau abandonou a escrita e trabalhou num banco em Nova Iorque como tradutor.
Morreu em 1999.
Este conto de Natal foi composto por Mário Henrique Leiria em Dezembro de 1972 e oferecido a Álvaro Belo Marques.























edição 28 001

fotolitos de lente europa
impresso na beira do douro lda
para forja editora sarl
em fevereiro de 1975
NOTA.

Para que não seja acusado de ser um copista, uma vez que a mesma escolha foi feita num blog que respeito e considero um dos espaços mais agradáveis da blogoesfera, passo a mencionar quais os motivos que me levaram a fazer esta escolha:
motivo 1, este livrito foi impresso no mesmo ano que nasci, 1975, e 31 anos depois foi-me oferecido pelo portador do meu gene.
motivo 2, ter orgulho em ser portador de um exemplar autografado pelo próprio autor.
motivo 3, não conseguir passar um Natal sem pensar naquilo que nos rodeia...

contudo,

Feliz Natal !!
esgar acelerado [ fire, walk with me ] 2006


saberemos nós como esconder
o fogo no esguio trajecto das
árvores, trazer de cada gesto uma
timidez lúcida que se quer superar
em vantagem do amor mais louco,
mais violento, pudesse eu ser
violento contigo agora, esquecer
o coração avistado a partir do
peito tão óbvio e amar-te só pelo
lado mais prático, o corpo ao
pé do meu corpo e o sexo sem
outro feito, sem outro fim


valter hugo mãe
[ Exercício do Bom Amor ] traficantes ilimitados, Dezembro 2006

9 poemas sem título de valter hugo mãe para outras tantas ilustrações de esgar acelerado

—tiragem de 100 exemplares, numerados e assinados pelos autores—


A beleza está nos olhos do espectador. Se o espectador tiver falta de vista, pode perguntar à pessoa que estiver mais perto quais as raparigas mais giras. (Na verdade, as mais giras são na maior parte das vezes as mais chatas, e é por isso que algumas pessoas acham que Deus não existe.)

Woody Allen, in "sem penas" bertrand (1981)


A INVISIBILIDADE DE DEUS

dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
a sua invisilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão da sua bondosa mão

o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge estéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou alguma vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser meu.


Al Berto, in "o medo"

imagem de Greg Spalenka
POTLATCH [ o boletim da Internacional Letrista ] fenda

Para quem se interessa pelos pequenos gestos brilhantes e ainda mais por aqueles que deliberadamente ignorados pela historiografia oficial, mas que mudaram o curso dos acontecimentos culturais e políticos do século XX, aqui fica uma breve sequência de eventos que estão na génese da publicação de POTLACH:

—Em 1946, Isidore Isou cria o movimento Letrista, em ruptura, bastante pacífica diga-se de passagem, com André Breton e o surrealismo. A poesia onomatopaica baseada na letra como unidade lexical mínima é o estandarte do movimento.
—Em 1950, como crime fundador do letrismo, quatro jovens interrompem a missa pascal de Notre-Dame de Paris, e um deles, disfarçado de frade dominicano, salta para o altar e lê uma homilia em que proclama aos fiéis a morte de deus, escapando (por milagre?) à subsequente perseguição da policia convocada pelos verdadeiros padres logo que se aperceberam do embuste.
—Em 1951, Guy Debord entra em contacto com os letristas em Cannes, vindos expressamente de Paris para contestar o conhecido Festival e exigir a projecção do filme de Isou "Traité de bave et d'eternité" feito de quatro horas de cinema discrepante.
—Em 1952, um pequeno grupo de jovens radicais, entre os quais Debord, constitui a Internacional Letrista (I.L.) uma tendência clandestina à margem do movimento.
—No mesmo ano, consuma-se a cisão da I.L. com Isou após este se ter demarcado de uma acção pública de sabotagem a uma cerimónia de entronização de Charles Chaplin por parte de establishment cultural da época.
—Em 1954, inicia-se a publicação do boletim POTLATCH.
—Por fim, em 1957, a I.L. desaparece para dar lugar a uma outra Internacional mais consistente, a Situacionista.

Em concreto, POTLATCH consiste numa série de pequenos opúsculos, na verdade simples textos policopiados publicados entre 1954 e 1957, enviados gratuitamente (em coerência com a designação) para algumas pessoas escolhidas de forma a produzir maior efeito. Isto é, tanto como informação como provocação. Teve vários responsáveis, várias designações editoriais, várias periodicidades, mas ao certo nunca ocupou mais do que uma duzia de pessoas (e na sua redacção de forma consistente ainda menos do que isso).
Apesar desta aparente precariedade orgânica, a influencia foi e continua a ser enorme. Nunca é preciso muita gente para perturbar as sociedades. As boa ideias chegam. E elas abundam nas folhas que se seguem.

do prefácio

COISAS PARA VER ANTES DE MORRER...

Martin Scorsese [uma viagem pelo cinema americano] 1995

Martin Scorsese [a minha viagem a Itália] 1999


AUSÊNCIA

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


Sophia de Mello Breyner Andresen

imagem de Dan Page
A mercadoria como espectáculo

O espectáculo é a outra face do dinheiro: o equivalente geral abstracto de todas as mercadorias. Mas se o dinheiro dominou a sociedade enquanto representação da equivalência central, isto é, do carácter permutável dos bens múltiplos cujo uso permanecia incomparável, o espectáculo é o seu complemento moderno desenvolvido, onde a totalidade do mundo mercantil aparece em bloco como uma equivalência geral ao que o conjunto da sociedade pode ser e fazer. O espectáculo é o dinheiro que se olha somente, pois nele é já a totalidade do uso que se trocou com a totalidade da representação abstracta. O espectáculo não é somente o servidor do pseudo-uso, é já em si próprio, o pseudo-uso da vida.


Guy Debord, in "A sociedade do espectáculo" edições antipáticas

ilustração situacionista...





PODE-SE ESCREVER

Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar numa caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever


Pedro Oom, in "actuação escrita" &etc (1980)
...panfleto escrito por membros da Internacional Situacionista e estudantes da Universidade de Estrasburgo em 1966

"Vasto rebanho julgando nunca o ser, a estudantaria que aposta, positiva, na carreira, acoita-se nesse seu redil que a protege: o duma mediocridade superior, ou doutoral.
Tudo se desfaz, na decadência e no nojo de um «modo de vida» que tem a patologia, e o desastre, no seu âmago, e o estudante julga poder continuar a sê-lo, pacifico, nesta paz onde tudo apodrece.
Supondo-se manhosamente escol, ou parte obrigatória dele, o estudante, porém, apenas se revela, dest'arte, como vanguarda — patética — da patetice social qu o produz assim."


Alice Corinde, in "Da Miséria do Meio Estudantil, Considerada Nos Seus Aspectos Económico, Político, Sexual & Especialmente Intelectual & de alguns meios para a prevenir" fenda (1983)

a montanha mágica


NUVEM DE PÓ

No vale das crateras, uma ou duas vezes em cada cem anos, um vento, uma espécie de nuvem de pó, sopra do fundo da terra, e pelos funis enxutos das crateras sobe, lambendo como a língua dos gatos, por três dias, as casas e as faces dos habitantes daquele lugar. Então, todos perdem a memória: os filhos deixam de reconhecer os pais,as mulheres os maridos, as raparigas os namorados, as crianças os pais e tudo se torna um caos de sentimentos novos.
Depois cessa o redemoinho dentro das crateras e, lentamente cada coisa volta ao seu lugar, não recordando ninguém o que, dentro da nuvem de pó, aconteceu nesses três dias.


Tonino Guerra, in "Histórias para uma noite de calmaria"
cartão de natal da editora antígona encontrado aqui
À MINHA MUSA

Senhora da manhã vitoriosa
E também do crepúsculo vencido.
Ó senhora da noite misteriosa,
Por quem ando, nas trevas, confundido.

Perfil de luz! Imagem religiosa!
Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido!
Corpo, que é alma escrava e dolorosa,
Alma, que é corpo livre redimido.

Mulher perfeita em sonho e realidade.
Aparição Divina da Saudade...
Ó Eva, toda em flor deslumbrada!

Casamento da lágrima e do riso;
O céu e a terra, o inferno e o paraíso,
Beijo rezado e oração beijada.


Teixeira de Pascoais

imagem de Greg Spalenka


Nunca desde os tempos bíblicos tinha caído sobre nós flagelo mais hipócrita, mais obsceno, mais degradante afinal do que a viscosa garra burguesa! Classe mais hipocritamente tirânica, cobiçosa, voraz, tartufa em bloco! Moralizante e aldrabona! Impassível e chorona! Fria diante da desgraça! Mais insaciável? Mais gulosa de privilégios? Mais anemificante? Mais faminta das riquezas mais vazias? Enfim podridão perfeita!

Louis-Ferdinand Céline in "Mea Culpa" antígona (1989)