ANOITECER

É como o sono que se aproxima, recolhendo
as suas asas,
ofuscante matéria do horizonte, algo assim,
pesado,
batendo na cara, na sua ardente solidão.

Em certas noites o vento canta.
No oásis cresce uma vegetação de pranto
e num porto sem luzes
aproximam-se as sombras da melancolia.
Um sino toca algures onde se enlouquece.
Procuro-te ainda, no interior da névoa,
no assombro das ilhas.


José Agostinho Baptista

imagem de Maggie Taylor

O BARCO ÉBRIO



Dita Parlo, fotograma de L'Atalante


" Pelo seu misto de esteticismo e realismo, pelo seu lirismo ancorado no quatidiano, pelo seu poder de subversão, Jean Vigo afirmou-se, ainda muito jovem, como um dos grandes poetas da sétima arte: o Rimbaud do ecrã. "


" Este equilíbrio de todos os elementos do drama visual no acolhimento terno de uma aceitação total (...) este quadro tão límpido, tão desprovido de emplastros e de pompa, clássico em suma, [constitui] o próprio espirito da obra de Jean Vigo, atormentado, febril, fervilhado de ideias e de fantasia conturbada, de um romantismo virulento ou mesmo demoníaco, ainda que constantemente humano. "

Élie Faure (texto editado em 1934)


Um realizador teimoso e doente: Jean Vigo. Um produtor inexperiente e opinativo: Jacques-Louis Nounez. Um inverno difícil: Dezembro de 1933. Dois actores célebres: Michel Simon, que tinha acabado de se impor com "Jean de la Lune"de Jean Choux (1931) e "Boudu Sauvé des Eaux" de Jean Renoir (1932), e Dita Parlo, vedeta berlinense. Um terceiro protagonista (Jean Dasté), amigo de Vigo e também herói da sua média-metragem proibida, (proibido até 1945 devido à sua mensagem anarquista), "Zéro de Conduite" 1933. Um argumento minimalista, pudico e violento ao mesmo tempo: a esposa de um marinheiro que o troca por um vendedor ambulante. Um director de fotografia inspirado: Boris Kaufman (operador de câmera de Dziga Vertov). Um músico de talento: Maurice Jaubert (entre muitos outros trabalhou com François Truffaut). E uma obra-prima mítica: L'Atalante. Começa então a maldição deste filme. 5 de Outubro de 1934: Jean Vigo, extremamente esgotado pela rodagem e sofrendo septicemia, morre. Tinha apenas vinte e nove anos e deste filme não viu senão uma primeira montagem...


Uma manhã o pacato e sedentário Isidro Vidal, reformado que leva uma vida tranquila, descobre que o processo comum de substituição de gerações foi alterado e acelerado. Hordas de jovens atléticos percorrem Buenos Aires à caça de idosos lentos e débeis.
Vidal e os seus amigos são obrigados a improvisar uma defesa desesperada. Têem de aprender a mover-se pela cidade a horas fantasmagóricas numa cidade apenas iluminada pelas tochas de uma guerra invisível, tão real como simbólica. Uma guerra contra grupos rivais mas também contra um inimigo comum: a inevitável passagem do tempo.
Um romance irónico que toca as situações mais comoventes da vida humana e um dos nossos maiores medos: o do tempo e da proximidade da morte.

Adolfo Bioy Casares "Diário da Guerra aos Porcos" cavalo de ferro

ADOLFO BIOY CASARES



Adolfo Bioy Casares (Buenos Aires, 1914/1999) é um dos escritores argentinos mais importantes do Século XX. Escreveu algumas obras em conjunto com Jorge Luis Borges sob o pseudónimo de H. Bustos Domecq, e com o qual fundou em 1935 a revista [ Destiempo ], foi galardoado com inúmeros prémios nacionais e internacionais, dos quais se podem destacar o Premio Municipal de Literatura de la Ciudad de Buenos Aires (1940), Premio Mondello (Itália, 1984), Premio Cervantes (1990), Premio Consagración Nacional (pelo conjunto da sua obra, 1992), para além dos inúmeros Doutoramentos honoris causa que foi recebendo um pouco por todo o mundo.

Camille Rose Garcia


[ cavern swan escape ] 2006


[ blue sailor ] 2005


[ shine your teeth meaningless ] 2004


O CÃO

Exacto oboé de pelo
por quatro patas contido
humanos de não querer sê-lo
pontualmente enternecido

geométrica dose de amor
aos pés do dono rio
cão por fora absoluto
de cão não ser escondido

idioma de nascituro
povo no ovo, o seu latido
por nos seguir é cão.
Mas se seguido ?


Natália Correia

imagem de Greg Mably
Mark Rothko [ white over red ]


quero roubar
do branco
toda a unidade da sua
cor
e dá-la à minha
alma
insistentemente
dividida

Hélder Reis in. " branco "

23 de Julho 1920 - 06 de Outubro 1999


ESTRANHA FORMA DE VIDA

Foi por vontade de Deus
Que eu vivo nesta ansiedade
Que todos os ais são meus
Que é toda minha a saudade
Foi por vontade de Deus

Que estranha forma de vida
Tem este meu coração
Vive de vida perdida
Quem lhe daria o condão
Que estranha forma de vida

Coração independente
Coração que não comando
Vives perdido entre a gente
Teimosamente sangrando
Coração independente

Eu não te acompanho mais
Pára deixa de bater
Se não sabes onde vais
Porque teimas em correr
Eu não te acompanho mais


Amália Rodrigues in. “Versos” cotovia


ANTES QUE CHEGUE A NOITE

Antes que chegue a noite sobre o mar
e atire o vento da nortada
as minhas húmidas cinzas para o nada.
Antes que os gastos gestos se dissolvam,
tal como o sorriso que os transforma em esgar
ou os cansados espasmos de um amor extinto.
Antes, ainda, como este sol sobre as ilhas,
tenaz ponto de luz, cor intensa,
que as minhas palavras desenhem meu fantasma,
salvo e perdido, na pura intensidade da vida.


Juan Luis Panero

imagem de Nicoletta Ceccoli

Nouvelle Vague...


Christophe Honoré [ Dan Paris ] 2006

Aguardo ansiosamente a estreia do novo filme de Cristophe Honoré ( Ma Mère, 2004 ). O filme conta a história de dois irmãos, Guillaume ( Romain Duris ) e Jonathan ( Louis Garrel ), numa paris actual. Dans Paris é um filme sobre amores perdidos, e, ao mesmo tempo, sobre família e a capacidade de se encontrar novos amores. Uma produção barata e cheia de emoção que vai buscar em François Truffaut inspiração para um cinema francês moderno. Uma verdadeira homenagem à Nouvelle Vague.



PERFILADOS DE MEDO

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...


Alexandre O'Neill

imagem de Gérard Dubois

Conversas com Pedro Almodóvar



Com os filmes de Pedro Almodóvar, a ironia e os paradoxos da vida atingiram o paraíso. Surgiu um mundo cuja profundidade muitas vezes reside na aparência; um mundo em que já nada tem sentido, a não ser o que parece ser contra-senso, e em que as perturbações vêm restituir a ordem. Nenhum amor paternal é mais belo do que o da mulher que foi homem; nenhum elogio da feminilidade autentica é mais belo do que o do homem que se tornou mulher. Todas as verdades que Pedro Almodóvar sabe revelar por detrás dos paradoxos do amor e do sexo, da comédia e do drama, foram coroados em TUDO SOBRE A MINHA MÃE. Soube tornar tais verdades muito populares, ainda que, paradoxalmente, fossem muito pouco esperadas e escutadas. É por isso necessário acreditar nele quando, colocado perante a casualidade de ter ao longo da carreira centenas ou milhares de entrevistas, declara não gostar de entrevistas. Também este paradoxo é eloquente: conversar sobre os seus filmes implica correr o risco de privilegiar a premeditação para evocar um gesto de criação passional, instintivo e, como ele próprio afirma aqui, visceral.

Frédéric Strauss

Frédéric Strauss "Conversas com Pedro Almodóvar" 90°

PERDIDOS # 1



PATTY DIPHUSA, estrela internacional da porno, nunca dorme. Por isso tem muitas histórias para contar, razão que a leva a aceitar o convite do director de uma revista pós-moderna para escrever as suas memórias.
Patty é uma rapariga cheia de vontade de viver, ingénua, terna e grotesca, invejosa e narcisista, amiga de toda a gente e sempre disposta a ver o lado melhor das coisas.
Descarrilada, amoral e engenhosa, Patty fala-nos das suas desvairadas incursões
pelas noites madrilenas, repletas de personagens de estranhos hábitos e vícios, e expressa, a seu modo, uma visão do mundo extremamente crítica, cruel, comovente.

OUTROS TEXTOS, reúne uma selecção de trabalhos escritos por Pedro Almodóvar entre 1979 e 1990. O conjunto compõe um retrato espantoso de um dos mais polémicos cineastas de hoje: as suas reflexões sobre a vida, o mundo do cinema, o percurso que acabou por convertê-lo num "estranho para si mesmo"

"patty diphusa e outros textos" difusão cultural 1992
tradução de Pedro Tamen

No prelo # 6



Reinaldo Arenas - O engenho - antígona

Miguel Esteves Cardoso - A minha andorinha - assírio & alvim

Gonçalo M. Tavares - O senhor Walser - caminho

Rui Nunes - Ouve-se sempre a distância numa voz - relógio d'água

Ana Teresa Pereira - A neve - relógio d'água

Margaret Atwood - A Odisseia de Penélope - teorema


NEM SEMPRE AOS POETAS APETECEM AS ESTRELAS


Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
De formigas assexuadas negras nítidas e rápidas
Com olhos fantásticos colhendo miríades de imagens
E inúteis os olhos das formigas
Desenhadas como um oito ou como um sinal de infinito
Muitas corteses atarefadas prejudiciais
Clericais sociais subtílissimas pequenas
Formigando no chão
No chão onde florescem os cardos e as cores
No chão onde assenta a carne ansiosa das mulheres
E os joelhos dos homens
No chão onde ecoa a voz repugnante dos pregadores
E a voz das juras e dos negócios
No chão onde cai o suor dos aflitos
E o suor dos amorosos
E o suor dos operários
E o suor dos gordos
No chão onde andam os pés e estalam os escarros
No chão das guerras e das famílias correctas
E dos vasadouros e dos jardins
E do pus verde dos mendigos
E das chagas rendosas e das rendas custosas
E das doidas furiosas
E das rosas
E das airosas e das feias e dos bispos e dos triunfadores
E dos cretinos e das virgens
E dos remédios e dos males
E das vertigens e dos abismos
E das cismas
E dos sismos
E dos vermes do ventre e das sonecas
E dos ludíbrios e dos hábeis
E da força dos garantidos
E das sementes

Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
A grande invasão das formigas multiplicando-se
Cobrindo a face da terra e a dos homens e das mulheres
Entrando-lhes pelos narizes para roerem os olhos por dentro
E fazendo bulir as coisas mortas e as vivas
Com o espantoso treme-luz irisado e magnífico
Dos seus reflexos negros e a substituírem todas as cores

Na grande montanha uma mulher enorme
Nua e infame
Tem as pernas escachadas sob as pregas do ventre
E sob as pregas do ventre seu sexo negro
É o grande formigueiro do mundo

Vive?

As formigas esvaziaram-na da enxúndia e substituíram-na
Só lhe deixaram a pele por fora para ainda haver branco visível
E como pêlos ampliados excitados e crescentes
Cobriram e desceram o vale
Enroscaram-se nas árvores
Desinquietaram a placidez das pedras
Forraram as aldeias e as cidades os animais e os homens

Que é do ciúme e das angústias?
Que é do amor e das palavras?
Que é das carícias e dos dentes?
Que é das renúncias e dos crimes?
Que é das tentações
Das promessas
Dos desejos
Dos apetites
Das fúrias?
Que é de todas as músicas?

O sol inútil cobre um mar negrejante onde os reflexos são como os olhos das moscas
E um silêncio tremendo finge de paz no mundo
Uma paz de silêncio com formigas

Formigas
Formigas
Formigas
Formigas


texto e imagem de António Pedro

ISABEL RUTH


ISABEL RUTH, bailarina, actriz, nasceu em Tomar, a 6 de Abril de 1940. Formada na Royal Ballet School de Londres, foi bailarina do Ballet de Lisboa e do Grupo Experimental de Ballet.
Estreou-se no cinema com um dos mais míticos filmes do cinema Português, "Os Verdes Anos", de Paulo Rocha (1963). Filmaria depois com os realizadores, António Macedo ( "Domingo à tarde" 1966 ), João Botelho ( "Conversa acabada" 1982 ), Manoel de Oliveira ( "O principio da incerteza" 2002 ), Fernando Lopes ( "O Delfim" 2002 ), José Álvaro Morais ("Peixe Lua" 2000), Teresa Villaverde ( "A Idade Maior" 1991, "Três Irmãos" 1994, "Os Mutantes" 1998 ) entre outros. Pier Paolo Pasolini convidou-a para participar no "Édipo Rei", em 1967.
No teatro, estreou-se na Casa da Comédia com "O Marinheiro", de Fernado Pessoa, encenado por Fernando Amado. Em 1994 compôs a musica para o filme, "A Caixa" de Manoel de Oliveira e em 1997 recebeu o Globo de ouro pelo filme "Ossos" de Pedro Costa.
Em 2006 chega a sua "Fotopoesia", um livro que reúne os seus poemas e algumas das suas fotografias. A invocação nostálgica de um tempo perfeito.

VERBO SER

Sou a 1ª pessoa
do meu verbo
a que vê
a que sente e reconhece
a que necessita do todo
para se ver
e nos outros
se vê a si somente
dou parte de fraca
tenho medo e recuo
o medo de existir
é tão feroz às vezes
que apelo a todo o meu sentir
o medo de ser
é tão atroz às vezes
que é preciso toda a voz
para se ouvir

tudo é tão veloz
breve passeio a sós
nesta centelha de existir.


Isabel Ruth in " Fotopoesia " Guerra & Paz


CANÇÃO DA MANHÃ

como os estranhos pássaros nascidos em tua boca
como os rios que te correm entre os olhos
como as esmeraldas que formam as asas dos teus ombros
como os longos ramos da árvore do sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitada na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra com o mar

assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projectam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através o aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste

assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre duma catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão triunfantes


Mário Henrique Leiria

imagem de Colette Calascione



O AMOR

Somos casados, dormimos com raparigas sem qualquer escrúpulo. Imaginar, porém, a nossa mulher nos braços de outro e mataríamos a terra inteira. Não há nada a fazer, uma coisa não tem nada a ver com a outra coisa. Um homem nunca engana a sua mulher.

A MULHER E O AMOR

Detesto acima de tudo as mulheres que julgam que podem ser feias porque são inteligentes. Felizmente, nunca encontrei uma mulher inteligente.

AS MULHERES

Talvez as mulheres gostem dos impostores. Um homem, um verdadeiro, mete-lhes sempre um pouco de medo. Receiam ser magoadas. Um impotente é como uma boa amiga.

NO DIA-A-DIA

Por que é que temos vontade de mijar de cada vez que encontramos uma posição confortável para dormir ?

DEUS E OS SEUS SERVOS

Tornar-se Deus é no fundo tornar-se pouca coisa - é ficar nós próprios.

A CIÊNCIA

A fé eleva montanhas mas deixa-as alegremente recair sobre a cabeça daqueles que não a têm. De que serve erguer montanhas quando é tão simples passar por cima ?

QUESTÕES E PROBLEMAS

É inútil aprofundarmos um assunto tão pouco interessante; menos ainda do que qualquer outro; estava a pensar, em particular, na criação da caganita da mosca tirolesca e no tráfico da pulga da lã.

O TRABALHO

A guerra é a forma mais refinada e a mais degradante do trabalho uma vez que se trabalha para tornar necessárias novas obras.

AS PALAVRAS

Há momentos em que me pergunto se não estarei a brincar com as palavras. E se as palavras servissem para isso ?

SOBRE ELE PRÓPRIO

Julgo ter custado menos à França do que Napoleão; e no entanto, ele é muito mais conhecido do que eu.


" BORIS VIAN por BORIS VIAN " fenda

Richard Avedon [ Marilyn Monroe ] 1957
Helene Knoop [ furious ]


AINDA NÃO

Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar

ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem

ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça

ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração


António José Forte

Dia Mundial da Arquitectura


Como é já sabido, dia 3 de Outubro comemora-se o dia mundial da Arquitectura, para tal efeito a Ordem dos Arquitectos (OA) preparou um vasto programa de celebrações que irão decorrer de Norte a Sul do continente e nas ilhas, até final de Outubro. Assim sendo, no dia 2 de Outubro na primeira segunda-feira do mês, irá decorrer na Biblioteca Municipal de Faro, a projecção do filme [ Metropolis ] realizado por Fritz Lang em 1927. A projecção será acompanhada pela leitura de textos por Sandro William Junqueira e musicado ao piano por Luís Conceição. A leitura dos textos será feita a partir de excertos de, Mário Cesariny, Gonçalo M. Tavares, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Allen Ginsberg, Albert Sánchez Piñol, entre outros, ao som de composiçoes de Béla Bartók, Frédéric Chopin e Ludwig van Beethoven.

Salazar, agora na hora da sua morte



Miguel Rocha nasceu em 7 de Março de 1968. Tem o curso secundário de Artes e Técnicas do Fogo da Escola António Arroio e o Curso de Desenho do SNBA. Dedica-se à publicidade durante nove anos e, após uma passagem pela revista Pais & Filhos, onde publica Pequenos Sarilhos, estreia-se para o público da BD em 1998, na colecção Quadradinho, com o jacobsiano O Enigma Diabólico (em colaboração com José Abrantes). Em 1999 publica Borda d' Água (LX Comics), Dédalo (Polvo) e As Pombinhas do Senhor Leitão (Baleiazul). Este último vale-lhe um prémio especial no Festival da Amadora. Em 2000 publica dois álbuns, Março (Baleiazul) e Eduarda (Polvo). Março vale a Miguel Rocha o Troféu Zé Pacóvio e Grilinho para o Melhor Desenhador Português. Eduarda, adaptação à banda desenhada de Madame Edwarda de George Bataille a partir da tradução de Francisco Oliveira, foi distinguido com o Troféu Zé Pacóvio e Grilinho para o Melhor Álbum Português. Em 2001, ano em que é o autor responsável pela linha gráfica do Festival da Amadora, publica [MALITSKA:] (Polvo), num regresso à colaboração com Francisco Oliveira, em 2003 A vida numa colher [Beterraba] (Polvo), em 2005 Borda d'água, o tempo das papoilas (polvo).
Agora chega-nos o seu mais recente trabalho, e talvez o mais complexo de todos, trata-se de uma inédita história da vida de António de Oliveira Salazar da infância à morte em banda desenhada, elaborada por dois nomes de prestígio do mundo cultural português: João Paulo Cotrim, jornalista ,colaborador de O Expresso, autor de vasta bibliografia e que dirigiu desde a sua abertura, em 1996 até 2002, a bebeteca de Lisboa e foi director do Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada e o já referido Miguel Rocha.
A Parceria A. M. Pereira retoma, assim, algo do seu passado , pois em 1974, nas suas instalações de então, situadas na R. Augusta 44 a 54, realizou uma exposição de banda desenhada, uma das primeiras efectuadas entre nós.



O retrato que Miguel Rocha faz da banda desenhada portuguesa revela a mesma maturidade a que nos habituou como autor, constituindo uma interessante pista de reflexão. Entre os factores que informam a situação actual da BD portuguesa, Miguel Rocha começa por destacar a ausência de um verdadeiro público e de meios próprios de divulgação. Depois, existe uma crítica a que falta profissionalismo. Tudo somado, falta sobretudo uma verdadeira cultura de banda desenhada em Portugal.

João Paulo Cotrim - Miguel Rocha
"Salazar, agora na hora da sua morte" Parceria A.M. Pereira


" tenho um essencial desejo dessa natureza
viva e morta que ubiquamente é eu
fumo-me para me encontrar entre essa neblina
entre a circunstância dos dedos e das rugas
consumo-me burlescamente ultralíricamente
o que me sai do genital celeste
a minha vida a existir é um vicio textual
uma vontade de partículas incendiadas
pelo cego sentido que comanda tudo "


Pedro Sena-Lino

imagem de Craig LaRotonda

O Homem que desenhava na cabeça dos Outros


O Homem que desenhava na cabeça dos Outros de Pedro Zamith, nasce de um projecto cujo objectivo seria, primeiro surgirem as ilustrações e destas a história, invertendo desta forma o processo criativo normalmente utilizado na ilustração. O convite foi feito a vários nomes da literatura portuguesa, entre os quais constam, Adília Lopes, David Soares, Hugo Gonçalves, Jacinto Lucas Pires, João Tordo, Rui Zink entre outros.
Com grande agilidade narrativa, os autores constroem um universo perfeito de histórias, contos e poemas que combinam na perfeição com o universo do ilustrador. Um livro obrigatório...

"Odete e Franciete
um dia deram sumiço
Franciete foi de parto
Odete também foi disso.

Odete e Franciete
são eternas como a luz
por isso o namorado d'ambas
hoje se chama Jesus. "

Rui Zink


Pedro Zamith
" O homem que desenhava na cabeça dos outros " oficina do livro


CERTEZA

Se te falo é para melhor te ouvir
Se te ouço estou certo de ter compreendido

Se sorris é para melhor me invadir
Alcanço o mundo inteiro se me sorris

Se me uno a ti é para me continuar
Se vivermos tudo será como gostamos

Se eu te deixo recordar-nos-emos
E ao deixar-nos voltaremos a reencontrar-nos.


Paul Éluard in. " últimos poemas de amor "

imagem de Lorenzo Mattotti





Jean-Luc Godard [ DESPREZO ] 1963

escutar...



Magda [she's a dancing machine] minus 2006



"em sua boca dardeja um narciso de cuspo
não encontrará na fala sossego algum
depois do susto das palavras murmuradas
o corpo incha e poro a poro uma abelha
refulge sobre a máscara de mel

poderíamos falar dele noite adiante
mas não
o começo da escrita seria a sua voz quebrada
no silêncio obssessivo das horas
mas não
porque são horas de profundo e anónimo
não o lembraremos mais

por trás da máscara recolhe-se por fim o olhar
uma vertigem o seu verdadeiro rosto
este coração em forma de quilha singrando o mar
de resto
já não há sinais visíveis da sua passagem
excepto a impressão digital esquecida
nos labirínticos arquivos de identificação

(...)"

Al Berto - A Noite

Uma Vida Imaginária


Através do diário ficcionado dos últimos dias do poeta Ovídio, degradado para as fronteiras do mundo conhecido pelo poder imperial, da sua descoberta de uma criança selvagem e da tentativa de a integrar na comunidade humana, David Malouf conduz o leitor, em Uma Vida Imaginária, por uma fascinante reflexão sobre a fragilidade do lugar do Homem entre a Natureza de onde vem e a civilização que constrói.
Uma Vida Imaginária, pela serenidade e clareza com que pondera a condição humana, tem sido encarado, por um número crescente de leitores, como um verdadeiro «livro de sabedoria» e é hoje reconhecido como uma obra clássica da literatura contemporânea.

David Malouf é um escritor australiano que nasceu em 1934, em Brisbane, Queensland. Poeta e romancista consagrado, autor de uma vasta obra, onde se destacam os romances The Great World, Remembering Babylon e The Conversations At Curlow Creek, obteve, com a sua obra, alguns dos mais importantes prémios literários internacionais, como o Commonwealth Writers Prize, o Prix Fémina para Obra Estrangeira, em França, e o International IMPAC Dublin Literary Award.

David Malouf "Uma Vida Imaginária" assírio & alvim
Tradução: José Agostinho Baptista


We are experiencing technical difficulties with the server, please do not be alarmed as a trained and highly skilled technician is on the case. I’m sorry if the downtime and general server madness has caused any undue trauma; whether it be blunt, psychological or otherwise. We assure you that you won’t be on hold for an hour, listening to the same music over and over…



SE TE NOMEASSE CINTILARIAS

se te nomeasse cintilarias
no beco de uma cidade desfeita
e o chumbo dos labirintos derreter-se-ia
na veia branca da noite uma estátua
de areia talvez um barco sulcasse
a cabeleira aquática da fala e
nenhuma porta se abriria sob teus passos

onde estamos? onde vivemos?
no desaguar tenebroso deste rio de penumbra
não beberemos ao futuro do homem
nem festejaremos o rugido triste da fera
moribunda

mas se te nomeasse
que desejo de sexo e da mente a medrosa alegria
em mim permaneceria?


Al Berto in. "Transumâncias"

imagem de Colette Calascione

Hans Bellmer [ La Nina ] 1938

Jacob Peter Gowy [ A queda de Ícaro ] 1636/37



ÍCARO

A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.


José Régio in. " Poemas de Deus e do Diabo "

ARTE POLACA [ CIRCO ]


Jan Mlodozeniec [ clown with slignshot ] 1979


Wiktor Gorka [ 3 beagles ] 1969


Eryk Lipinski [ bear on motorcycle ] 1964


Mesmo se algum dia acontecer
nalgum vulgar encontro, ver-me morto,
decerto saberei como nascer
de novo, ser planta e animal
e breve sopro, às vezes, no teu rosto.
Pelo caminho cego da floresta
virei ao pátio, à fonte debruçada,
ao modesto esplendor da jovem faia;
e terei, para dar-te, o riso claro
da vida que não cessa de perder-se.
Pousado o coração dentro do peito,
feito artista da cor, puro fantasma,
na ardósia a giz desenharei um nome
como quem traça um circulo perfeito.

António Franco Alexandre in. "duende"


Jogos para adiar a morte

Descobrir em outro
a palavra precisa,
a desolada matéria do sonho,
imóvel, fixa sobre o papel.
Palavra que nomeia fantasmas
mas também labaredas da vida
e -ao fundo- o eco do mar,
a sua perdurável presença momentânea,
ondas e horas, sílabas e símbolos-
Tudo o que nos resta, tudo e nada:
jogos para adiar a morte.


Juan Luis Panero

imagem de Maggie Taylor


AUTORIDADE E LIBERDADE SÃO UMA E A MESMA COISA

Autoridade é do que é autor.
Só a autoridade confere autoridade.
A autoridade não é quantidade.
Todo o homem é teatro de uma inexpugnável autoridade.
Aquele que julga ser possível autorizar ou desautorizar a autoridade de outrem não sabe no que se mete.
Liberdade.
A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que um só. Mas são mais reverbero no mesmo fulgor.
Trocar a liberdade em liberdades é a moda corrente do libertino.
Pode prender-se um homem e pô-lo a pão e água. Pode tirar-se-lhe o pão e não se lhe dar a água. Pode-se pô-lo a morrer, pendurado no ar, ou à dentada, com cães. Mas é impossível tirar-lhe seja que parte for da liberdade que ele é.
Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime. Quanto mais perseguido mais perigoso. Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver dum homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro - nunca será um escravo.
Autoridade e Liberdade são uma e a mesma coisa.

Mário Cesariny

imagem de Christian Northeast


O SONHADOR ESPECIALIZADO

Este perfume, hálito benigno, incêndio espectacular de crateras extintas, este perfume é a estrada dos teus cabelos, das tuas superstições, das tuas violências absurdas, mulher-noite, mulher de espinhos com a tua floresta de água salpicada de estrelas, estranha, opaca, a todos os túmulos única, a todos os títulos notável !
A tua voz desliza nos confins da geleira que é o teu corpo entre nuvens e ondas furiosas, recordação vingativa, bússola doida condenado o tempo. Este tempo, o nosso ! Eu acredito no inacreditável. Haverá um tempo para os comboios de espuma e para os aviões de lama. E um outro tempo para as tuas mãos desenrolando os caminhos, para o reflexo da tua cabeleira imitando as marés, para a máquina giratória do teu sexo livre, para a fotografia do teu rosto em chamas.
Não há razão para queimar a esperança. O teu leito ainda está húmido de orvalho e os teus olhos ainda se negam aos Deuses. A realidade da tua nuca Evereste de gelos eternos, a carreira sem fim dos teus braços arco-íris circundando o meu corpo, a cordilheira da tua pele macia onde as minhas mãos se apoiam, são ainda o único motor para o "looping" no espaço, a única clareira onde o sonho floresce, a única estrada que só conduz a si mesma.
Eu digo-te que não há razão para queimar a esperança, esta esperança que tinge os teus lábios e vai contigo até ao fim dos abismos, êxtase delirante onde não existe o Presente e onde o Futuro é um espasmo violento, uma chama súbita em que eu e tu nos fundimos.
Não há razão para queimar a esperança, esta rubra mistura de sonho e lava, perfeitamente conjugada como um círculo em repouso. Tenho-te sempre nos meus braços, no meu ser, e por isso quando me debruço nos debruçamos no precipício olvidamos a nossa condição de indivíduos para sermos o fluxo e o refluxo da História.
Já não somos o que se classificaria de um homem e de uma mulher, mas sim uma multidão de sombras povoada de nuvens, a fusão de dois ácidos, a resolução de um problema.
A minha carne é o teu nevoeiro perpétuo.


Pedro Oom in. " A intervenção surrealista "

fotografia de Francisca Moreira



Lilases

Quando por fim a cifra infinita
que dois mundos combinam
esplender inteiramente seus motivos

a cada um caberá olhar
na lâmina de ouro
um nome inefável

o que buscámos sem um gesto
o que dissemos sem uma palavra


José Tolentino Mendonça in. " Estrada Branca " assírio & alvim

imagem de Gérard Dubois


A Simplicidade

O que sobretudo tem faltado à minha vida até agora é a simplicidade. Começo a mudar a pouco e a pouco.
Por exemplo, actualmente saio sempre de casa a minha cama e, quando uma mulher me apetece, agarro nela e deito-me com ela imediatamente.
Se tem as orelhas ou o nariz grande e feios, tiro-lhes juntamente com as roupas e meto-os debaixo da cama, para ela os poder recuperar à saída; só conservo o que me apetece.
Se a roupa interior está a precisar de ser mudada, mudo-a imediatamente. Será a minha prenda. No entanto, se vejo uma outra mulher mais apetecível a passar, peço desculpas à primeira e suprimo-a imediatamente.
As pessoas que me conhecem garantem que eu não sou capaz de fazer o que estou a dizer, que não tenho temperamento para isso. Eu também achava que não, mas isso era porque eu não fazia tudo como me apetecia.
Agora, tenho sempre belas tardes. ( De manhã trabalho. )


Henri Michaux in. "antologia" relógio d'água

imagem de Henri MIchaux