AUTORIDADE E LIBERDADE SÃO UMA E A MESMA COISA

Autoridade é do que é autor.
Só a autoridade confere autoridade.
A autoridade não é quantidade.
Todo o homem é teatro de uma inexpugnável autoridade.
Aquele que julga ser possível autorizar ou desautorizar a autoridade de outrem não sabe no que se mete.
Liberdade.
A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que um só. Mas são mais reverbero no mesmo fulgor.
Trocar a liberdade em liberdades é a moda corrente do libertino.
Pode prender-se um homem e pô-lo a pão e água. Pode tirar-se-lhe o pão e não se lhe dar a água. Pode-se pô-lo a morrer, pendurado no ar, ou à dentada, com cães. Mas é impossível tirar-lhe seja que parte for da liberdade que ele é.
Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime. Quanto mais perseguido mais perigoso. Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver dum homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro - nunca será um escravo.
Autoridade e Liberdade são uma e a mesma coisa.

Mário Cesariny

imagem de Christian Northeast


O SONHADOR ESPECIALIZADO

Este perfume, hálito benigno, incêndio espectacular de crateras extintas, este perfume é a estrada dos teus cabelos, das tuas superstições, das tuas violências absurdas, mulher-noite, mulher de espinhos com a tua floresta de água salpicada de estrelas, estranha, opaca, a todos os túmulos única, a todos os títulos notável !
A tua voz desliza nos confins da geleira que é o teu corpo entre nuvens e ondas furiosas, recordação vingativa, bússola doida condenado o tempo. Este tempo, o nosso ! Eu acredito no inacreditável. Haverá um tempo para os comboios de espuma e para os aviões de lama. E um outro tempo para as tuas mãos desenrolando os caminhos, para o reflexo da tua cabeleira imitando as marés, para a máquina giratória do teu sexo livre, para a fotografia do teu rosto em chamas.
Não há razão para queimar a esperança. O teu leito ainda está húmido de orvalho e os teus olhos ainda se negam aos Deuses. A realidade da tua nuca Evereste de gelos eternos, a carreira sem fim dos teus braços arco-íris circundando o meu corpo, a cordilheira da tua pele macia onde as minhas mãos se apoiam, são ainda o único motor para o "looping" no espaço, a única clareira onde o sonho floresce, a única estrada que só conduz a si mesma.
Eu digo-te que não há razão para queimar a esperança, esta esperança que tinge os teus lábios e vai contigo até ao fim dos abismos, êxtase delirante onde não existe o Presente e onde o Futuro é um espasmo violento, uma chama súbita em que eu e tu nos fundimos.
Não há razão para queimar a esperança, esta rubra mistura de sonho e lava, perfeitamente conjugada como um círculo em repouso. Tenho-te sempre nos meus braços, no meu ser, e por isso quando me debruço nos debruçamos no precipício olvidamos a nossa condição de indivíduos para sermos o fluxo e o refluxo da História.
Já não somos o que se classificaria de um homem e de uma mulher, mas sim uma multidão de sombras povoada de nuvens, a fusão de dois ácidos, a resolução de um problema.
A minha carne é o teu nevoeiro perpétuo.


Pedro Oom in. " A intervenção surrealista "

fotografia de Francisca Moreira



Lilases

Quando por fim a cifra infinita
que dois mundos combinam
esplender inteiramente seus motivos

a cada um caberá olhar
na lâmina de ouro
um nome inefável

o que buscámos sem um gesto
o que dissemos sem uma palavra


José Tolentino Mendonça in. " Estrada Branca " assírio & alvim

imagem de Gérard Dubois


A Simplicidade

O que sobretudo tem faltado à minha vida até agora é a simplicidade. Começo a mudar a pouco e a pouco.
Por exemplo, actualmente saio sempre de casa a minha cama e, quando uma mulher me apetece, agarro nela e deito-me com ela imediatamente.
Se tem as orelhas ou o nariz grande e feios, tiro-lhes juntamente com as roupas e meto-os debaixo da cama, para ela os poder recuperar à saída; só conservo o que me apetece.
Se a roupa interior está a precisar de ser mudada, mudo-a imediatamente. Será a minha prenda. No entanto, se vejo uma outra mulher mais apetecível a passar, peço desculpas à primeira e suprimo-a imediatamente.
As pessoas que me conhecem garantem que eu não sou capaz de fazer o que estou a dizer, que não tenho temperamento para isso. Eu também achava que não, mas isso era porque eu não fazia tudo como me apetecia.
Agora, tenho sempre belas tardes. ( De manhã trabalho. )


Henri Michaux in. "antologia" relógio d'água

imagem de Henri MIchaux

HENRI MICHAUX

Henri Michaux nasceu em Namur em 1899. Ainda muito pequeno, foi-lhe diagnosticada uma doença cardíaca. Estudou Medicina em Bruxelas, curso que logo abandonou partindo para a primeira de inúmeras viagens realizadas ao longo da sua vida. América, África, Índia, China, nenhum território parece ter escapado ao viandante Michaux. Em 1922, a leitura dos Cantos de Maldoror desencadearam em si uma forte vontade de escrever. Começou a fazê-lo para a revista Le Disque Vert. Incompatibilizado com a família, mudou-se para Paris. Trabalhou como professor, secretário, começou a pintar, publicou em revistas vanguardistas como a Commerce e a Bifur. Contactou com os surrealistas, mas logo em 1925 separou-se de Breton e do [seu] movimento. Em 1926 começaram a aparecer os poemas de Michaux na revista Nouvelle Revue Françoise. Entre 1927 e 1928, viajou pelo Equador, na companhia do malogrado poeta Alfredo Gangotena. Começou a consumir com maior frequência vários tipos de drogas e dedicou-se ao estudo da mitologia hindu. Em 1929 morreram o seu pai e a sua mãe, deixando-lhe uma herança que lhe permitiria continuar a viajar durante vários anos. Criou a personagem Pluma e publicou a sua obra mais famosa: Un Certain Plume (1930). Expôs, publicou, pronunciou várias conferências. Em 1943 casou-se com Marie-Louise Ferdière, que conhecera em 1934. Após a sua morte, em 1948, Michaux sofrerá uma forte depressão. Em 1955 adoptou a nacionalidade francesa. O consumo continuado de mescalina e haxixe, levá-lo-ão a colaborar, já na década de 60, num filme sobre essas experiências. Em 1972 iniciou colaboração com as edições Fata Morgana, expôs as suas pinturas, publicou um livro de desenhos. Morreu no dia 19 de Outubro de 1984 num hospital de Paris, em consequência de um enfarte.


Hoje

O dia não foi meu
e tantos outros que o não são
erro no calendário
ou voluntária distracção

E os dias que foram meus
gestos de outros são
que se dão a quem os quer
nos dias que o não são

E da pressa de os perder
do cansaço de os contar
ganho vícios da noite
que me sabem perdurar


Marcelino Vespeira

imagem de Christian Northeast

Irving Penn [ Max Ernst & Dorothea Tanning ]

No Gira...


Tom Waits [swordfishtrombones] island 1990


A metodologia útil é um martelo.
A ciência utiliza o martelo.
A arte utiliza a ciência.
(E o amor pode inutilizar tudo.)

Gonçalo M. Tavares

Heidi Taillefer


Algolagnia 2003


Oenophile 2004


O COELHINHO QUE NASCEU NUMA COUVE

Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve.
Como os pais do coelhinho nunca mais apareceram a couve passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando o coelhinho dentro do seu seio até que este passou a procurar a sua própria alimentação.O coelhinho, que tinha um coração muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava considerava-a como sua verdadeira mãe.A mãe couve e o seu filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras.O coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco dano lhe fizessem.Quando aqueles insectos daninhos levantaram voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de areias e pedra.O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas proximidades da sua mãe couve, teve de deslocar-se para muitos quilómetros de distância a fim de procurar comida.Mas já nada havia que se pudesse mastigar naquelas terras.Passaram muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro mais magro e faminto.Então a mãe couve disse-lhe assim: “Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução: assim como tu viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu quero dizer?”O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande tristeza na alma não teve outro remédio, comeu a mãe.

Pedro Oom in. "Actuação Escrita" & etc

Reéntre Literária das Quasi Edições

Sebastião Alba - Novas albas
( depois de albas, o segundo volume dos ultimos escritos de Sebastião Alba )

Michel Houellebecq - A extensão do domínio da luta
( primeiro romance do autor )

Golgona Anghel - Eis-me acordado muito tempo depois de mim
( biografia de Al Berto )

Al Berto - O último coração do sonho
( reedição da primeira antologia breve do autor editada em 2000 )

A Ti

Já do amor eu, triste, desesperava,
Quando, doce visão, tu consentiste
Em desvelar p´ra mim a tua cara.

E então fiquei mais triste, ' inda mais triste,
Pois medi nos teus olhos a distância,
Ó divina, que entre nós existe !

Quem acalmar pudera tanta ânsia
E dizer-me, oxalá, onde demora
Esse amor entrevisto, essa ganância

Que a alma toma , devassa e explora.
Quem pudera revelar-me esse segredo
Por que a minh'alma, noite adentro, chora !

Ó serrana gentil, eu tenho medo
De um bruto impulso, de um ressalto louco
Dos sentidos, de um desvario tredo,

Ao passares o teu muito pelo meu tão pouco.
E assim te imploro, se terrena fores,
Mata-me já, em vez de pouco a pouco,

Que ele há insuportáveis dores !


Alexandre O 'Neill in. "anos 70 poemas dispersos"
imagem de Milo Manara


Girassol

A viajante que atravessou os Halles ao cair do Verão
Caminhava em bicos de pés
O desespero rolava pelos céus seus grandes arãos tão belos
E na mala de mão escondia-se meu sonho esse frasco de sais
Que só a madrinha de deus inalou
Os torpetos pairavam como vapor de água
No chien qui fume
Onde o por e o contra acabavam de entrar
Difícil lhes era ver a moça só de soslaio a viam
Estaria eu diante da embaixatriz do salitre
Ou da curva branca sobre fundo negro a que se chama pensamento
(...).

André Breton in. " o amor louco "
imagem de Masaru Shichinohe

POEMA

alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva de uma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para te ouvir sonhar


António José Forte in. " uma faca nos dentes "

fotografia de Ralph Gibson

No céu, uma ave distraída. A frágil semente que encobriu a ignorância, outorgou-lhe a soberba da arvore, onde foi engravidada a primeira mulher que abraçou a tua delicada origem, e dela nasceste velho, com o monólogo que discute interminavelmente sobre o teu árido olhar.
Vem escutar o rumor do rio antes de começar a tua oração. Alguma vez o fizeste, e foi na noite em que te divorciaste da luz e da escuridão, e o sol era a pupila indestrutível dos que habitavam em círculos perfeitos o aroma da penumbra. Então, eras a tua própria esperança, repleto de uma dor doce sobre as tuas palavras como a passagem da névoa perante a intranquilidade das naves. A tua serenidade avançava como um cordão frágil ao qual atavas o teu destino e a incerteza que te provocava o som da água ao tocar as margens da terra.
Todos morreram, pensaste, e o pranto surgiu de costas para a vida no tempo em que ainda não se inventavam as cidades. Sobre o rio onde se criou a espiga, viste aquela barca que nunca chegou ao porto e da qual se ouvia a queda da terra. Não eras tu aquele que desejava descobrir o nome do peixe, a sinceridade da Rocha ? Ainda dentro da estridente nebulosa, o homem é a causa do homem. Aproxima-te das margens desse rio, e poderás tocar o desconhecimento do teu rosto.

Olivério Macías Álvarez in. "um mundo estranho"

imagem de Craig Larotonda

escutar...


Johnnie Valentino [ 8 shorts in search of David Lynch ]

NOX

Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece, alguns momentos...

Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o mundo, te esquecesses,

E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-Ser!

Antero de Quental

imagem de Greg Mably


NINGUÉM MEU AMOR

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.

Sebastião Alba

imagem de Lorenzo Mattotti

BRUCE CHATWIN

Robert Mapplethorpe [ Bruce Chatwin ] 1979


Atravessei a batalha com um livro de poemas na mão, aberto.
Um poema chinês onde se falava de um lírio, de dois pássaros, de uma ligeira queda e do sol. Conheci depois Jonas, três dias mais tarde, antigo advogado, que tinha a face atravessada por uma bala. Com esse lado da face parado tinha ficado também um lado da linguagem imóvel, como se cada parte do rosto correspondesse a um tipo de pensamento.
Os defeitos de linguagem ensinam muito sobre os defeitos dos dias - disse alguém; e ele, Jonas, com a parte do rosto que ainda tinha linguagem, respondeu: é verdade. Ou seja : é quase mentira.

Gonçalo M. Tavares in. "Biblioteca"


Libertação

Menino doido, olhei em roda, e vi-me
Fechado e só na grande sala escura.
(Abrir a porta, além de ser um crime,
Era impossível para a minha altura...)

Como passar o tempo?... E diverti-me
Desta maneira trágica e segura:
Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,
Desfiz trapos, arames, serradura...

Ah, meu menino histérico e precoce!
Tu, sim!, que tens mãos trágicas de posse,
E tens a inquietação da descoberta!

O menino, por fim, tombou cansado;
O seu boneco aí jaz esfarelado...
E eu acho, nem sei como, a porta aberta!

José Régio in. "cântico negro" quasi
imagem de Gérard Dubois

No prelo # 5


Frederico Lourenço - Pode um desejo imenso - cotovia

Reinaldo Arenas - O Assalto - ambar

Reinaldo Arenas - Celestino antes da madrugada - ambar

Chuck Palahniuk - Monstros Invisíveis - casa das letras

Antonin Artaud - O teatro e o seu duplo -fenda

lou-Andreas Salomé - Um olhar para trás - relógio d'água


Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O'Neill

fotografia de Francisca Moreira [ atum ]

escutar...

Rekid [ made in menorca ] soul jazz records 2006



O Homem Bisado

Alegra-me ser todas as coisas e as sombras que elas projectam
ser a sombra dos teus seios e da tua boca
o criado de smoking branco que te agita os cabelos
para um cocktail estimulante e fresco
a mesa onde passo a ferro o teu corpo
as espáduas as coxas a curva macia dos joelhos
alegra-me ser o contorno da tua nuca e o binário motor dos
teus braços
embora mais pequeno do que o corpúsculo celeste
sou os milhões de astros microorganismos estrelas
a rota de todos os navios perdidos
a angústia síntese de todos os suicidas
a forma de todos os animais conhecidos
o desenho rigoroso de toda a flora existente

Ontem em Paris hoje em Lisboa amanhã em Júpiter
caminho para a resolução de todos os problemas
sem a certeza de resolver qualquer um deles
como se fosse uma máquina de somar parcelas
quatro vezes quatro oito vezes dez oitenta
sabe-me a vida ao que É
esta progressão assustadora de crocodilos bebendo limonada
Ontem fui a prostituta a quem paguei a noite
hoje serei talvez o inocente violentador frustrado
Sutmil é a cidade para onde me evado todas as noites à aventura
e
a cabeça em Marte os pés na Terra
vindo

o comboio está na gare o comboio vai partir
apressemos o passo o momento é solene
somos o automóvel que sobe a avenida
a pulsação acelerada dos maquinismos
taxímetro de uma cidade de província
satélites dum satélite lunar.
Tu és o aeroporto eu o avião que parte
e muito mais calmos entre éter e fogo
percorremos os sonhos de planeta em planeta desfolhando o
futuro a flor sempre rara
e marcamos nos astros o nosso roteiro DEZ QUILÓMETROS

amanhã tirarei o curso de sonhador especializado.


Pedro Oom in. "Surrealismo Abjeccionismo" edições salamandra

imagem de Dan Page

COLETTE CALASCIONE


illumination


the anatomy lesson


monkey love

Marcas de Baton


Os desejos não satisfeitos passam pelos anos de insondáveis maneiras e tudo o que depois aparece à superfície não passa de discurso simbólico, algo que fica surdo em relação à fonte de onde nasceu e cego em relação aos objectos a atingir - contudo, esses fragmentos de linguagem, escondidos nas pragas e nas blasfémias de canções como "Anarchy in the UK" ou " God save the Quenn", são a ultima ligação a noções que há muito prosseguem a sua viagem subterrânea no interior do inconsciente cultural. Tudo o que fica são desejos sem linguagem: tudo o que fica é a história que não foi feita, ou seja, a possibilidade da poesia. E enquanto a poesia vais sendo feita, a linguagem recompõe-se e percebe o seu alvo: a história que foi feita.
Com apenas uma única tiragem de 1000 exemplares," Marcas de Baton : Uma História Secreta do Século XX ", é um livro obrigatório, não só para os melómaniacos, mas para todos aqueles que acham que o punk foi um movimento com pouca seriedade intelectual.

Greil Marcus
"Marcas de Baton : Uma História Secreta do Século XX" frenesi



Soneto de fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes

imagem de Shiori Matsumoto

Jean-Luc Godard [ pedro o louco ] 1965


" Não há disciplina à qual me sinta forçado a submeter-me, por mais rigoroso que seja o raciocínio apelado à minha adesão. Dois ou três princípios de morte ou de vida encontram-se para mim acima da mínima submissão precária. A lógica sempre me pareceu estranha. "

Antonin Artaud


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.


António Ramos Rosa

imagem de Colette Calascione

há coisas que nunca se arrumam...



AH, PODER SER TU, SENDO EU!

Ei-lo que avança
de costas resguardadas pela minha esperança
Não sei quem é. Leva consigo
além do sob o braço o jornal
a sedução de ser seja quem for
aquele que não sou
E vai não sei onde
visitar não sei quem
Sinto saudades de alguém
lido ou sonhado por mim
em sítios onde não estive
Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo
Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar

Ruy Belo

imagem de Dan Page


Ao rosto vulgar dos dias

Monstros e homens lado a lado,
Não à margem, mas na própria vida.
Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.
Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.

*

Ao rosto vulgar dos dias,
A vida cada vez mais corrente,
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.


*


Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.



Alexandre O´Neill

imagem de Greg Mably

Luminoso afogado

E se a morte te esquecesse?
Ficarias aí deitado, o olhar fixo noutros olhares. Silencioso, ou a contar histórias de barcos, de oceanos e de mares, de peixes e de turbulentos rios - até que a luz poeirenta do mundo se extinguisse, para sempre.
Asfixiado pelas areias da praia onde a vaga fosforosa te abandonou.
Por que é que eu caminho no fundo deste tempo escuro e já não existo?
Mas nada acontece, porque a tua morte me tolheu. Não se ouve um fio de voz.
Resta o teu corpo deitado sob a respiração febril de quem se deu ao trabalho piedoso da vigília.
É através da memória dos outros que recordas o rosto que tiveste.
O que quero dizer é que já não sinto nada quando te olho. O rosto está morto e amortalhou o meu.
Outrora, quando navegavas, escrevia-te para contar o que não tinha sentido na viagem. Hoje, penso em ti como se fosses uma música da alma.
O teu olhar de morto e o meu são cúmplices, e ainda não deu hora nenhuma. Temos tempo de sobra.
Vou ressuscitar-te, assim poderás contar-me em sussurro o que fomos.
Eu poderei contar-te o que esqueci. Esta canção quase perdida na casa do nosso passado.
O sonho tem manchas de frutos sorvados no coração. Tem palpitações de sangue e de ilhas, de mares que se espreguiçam para dentro das cidades. E estas sobrevivem envoltas num véu de neblinas. Vemo-las tremeluzir no turvo crepúsculo das praias.
Que ponte levadiça trará de novo o desejo esquecido nos postos longínquos?

al berto

imagem de Alex Gozblau

O teu rosto

É o teu rosto ainda que eu procuro
Através do terror e da distância
Para a reconstrução de um mundo puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen

imagem de Gérard Dubois

A história da minha máquina de escrever


A História da minha máquina de escrever é um tributo à relação - intensa e muitas vezes determinante - entre um escritor e a sua máquina de escrever.
ao longo de 30 anos, a velha máquina Olympia de Paul Auster foi a corrente de transmissão dos romances, contos e textos de um dos mais emblemáticos escritores norte-americanos. Paralelamente, os vigorosos e obsessivos desenhos e pinturas que Sam Messer dedica ao autor e à sua máquina de escrever conseguiram, como escreve Paul Auster, "converter um objecto inanimado num ser com personalidade, com uma presença no mundo".

"A história da minha máquina de escrever" edições asa


O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos in. " Poesia " assírio & alvim

imagem de Zwir Bogdan
Gustave Moreau [Salome] 1876
Laura Lipton [ last dance ] 2005

Morre lentamente
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Morre lentamente...

Pablo Neruda

[Porque nunca as palavras tiveram tanta música, nem a música tantas palavras...]

Ode apresenta-se como um projecto inovador de composição poética. Que resulta de uma nova abordagem à forma de dizer, sentir e interpretar poesia.
Feito por quem gosta do que faz, seleccionam em conformidade com o critério estético deles, as palavras dos nossos maiores poetas e escritores - consagrados e novos. Palavras que avançam e se misturam com as harmonias e acordes das guitarras do F. Aires.
Ou harmonias e acordes que abrem lastro ao fogo verbal. E também ao silêncio. O deles. O nosso. O vosso.
Ode propõe vidas e um diálogo entre todos. Convida. Escarafuncha. Ri. Chora. Invade e fecha.
A fórmula síntese: simplicidade e honestidade.
 
Objectivos:
Levar aqueles que consideram a poesia “uma coisa tremendamente chata” a disporem de uma segunda oportunidade.
Levar aqueles que se consideram incapazes de ler poesia, a comprá-la.
Levar aqueles que gostam de poesia a gostar dela ainda mais.
Oferecer magia. E sim, liberdade. Sempre a liberdade.

Guitarras e sons: Aires F.
Voz e palavras: Sandro William Junqueira
imagem de Aria Nadii

EM SILÊNCIO DESCOBRI ESSA CIDADE NO MAPA

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa —
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol —
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue — peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas — ela —
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.

Herberto Helder in. " A Máquina Lírica "

As minhas ocupações


É raro encontrar alguém sem que eu lhes bata. Há quem prefira o monólogo interior. Eu não. Gosto mais de bater.
Há pessoas que se sentam à minha frente num restaurante e não dizem nada, deixam-se ficar durante algum tempo porque decidiram comer.
Cá está um.
Eu arrepanho-to, truz.
Eu rearrepanho-to , truz.
Penduro-o no bengaleiro.
Desprego-o.
Rependuro-o.
Redesprego-o.
Ponho-o em cima da mesa, comprimo-o e sufoco-o.
Sujo-o, imundo-o.
Ele reanima-se.
Enxaguo-o, estico-o (começo-me a enervar, tenho de acabar), amasso-o, aperto-o,
comprimo-o e introduzo-o no meu copo, e entorno ostensivamente o conteúdo para o chão, e digo ao empregado da mesa: "Dê-me então um copo mais limpo."
Mas sinto-me mal, pago a conta de imediato e vou-me embora.

Henri Michaux in. "Antologia" relógio d'água
imagem de Maggie Tayler


Esta espécie de loucura

Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,

Não me traz felicidade;
Porque enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há.

Fernando Pessoa

Dorothea Tanning [ petita serenata nocturna ] 1943

o regresso...

Michel Gondry [ La Science des Rêves ] 2006

Escrito e realizado pelo Francês Michel Gondry ( " Human Nature " 2001, " Eternal Sunshine of the Spotless Mind " 2004), " La Science des Rêves " é o regresso do realizador ao grande ecrã, com Gael García Bernal, Charlotte Gainsbourg e Alain Chabat, promete ser uma verdadeira viagem ao mundo da imaginação.

Darren Aronofsky [ The Fountain ] 2006

Depois da grande estreia no Sundance Film Festival com o filme," pi " (1998) e da fabulosa adaptação da obra de Hubert Selby Jr. , " Requiem for a Dream " (2000), que valeu a Ellen Burstyn várias nomeações incluindo o Oscar para melhor actriz, " The Fountain ", marca o regresso de Darren Aronofsky às salas de cinema. Escrito e realizado por Aronovsky , " the Fountain ", cruza três historias onde o amor, o ódio, o espiritualismo e a fragilidade da existencia neste mundo são a base da história. Hugh Jackman, Rachel Weisz e Ellen Burstyn dão a cara às personagens, a musica, essa fica mais uma vez nas mãos de Clint Mansel.