Luminoso afogado

E se a morte te esquecesse?
Ficarias aí deitado, o olhar fixo noutros olhares. Silencioso, ou a contar histórias de barcos, de oceanos e de mares, de peixes e de turbulentos rios - até que a luz poeirenta do mundo se extinguisse, para sempre.
Asfixiado pelas areias da praia onde a vaga fosforosa te abandonou.
Por que é que eu caminho no fundo deste tempo escuro e já não existo?
Mas nada acontece, porque a tua morte me tolheu. Não se ouve um fio de voz.
Resta o teu corpo deitado sob a respiração febril de quem se deu ao trabalho piedoso da vigília.
É através da memória dos outros que recordas o rosto que tiveste.
O que quero dizer é que já não sinto nada quando te olho. O rosto está morto e amortalhou o meu.
Outrora, quando navegavas, escrevia-te para contar o que não tinha sentido na viagem. Hoje, penso em ti como se fosses uma música da alma.
O teu olhar de morto e o meu são cúmplices, e ainda não deu hora nenhuma. Temos tempo de sobra.
Vou ressuscitar-te, assim poderás contar-me em sussurro o que fomos.
Eu poderei contar-te o que esqueci. Esta canção quase perdida na casa do nosso passado.
O sonho tem manchas de frutos sorvados no coração. Tem palpitações de sangue e de ilhas, de mares que se espreguiçam para dentro das cidades. E estas sobrevivem envoltas num véu de neblinas. Vemo-las tremeluzir no turvo crepúsculo das praias.
Que ponte levadiça trará de novo o desejo esquecido nos postos longínquos?

al berto

imagem de Alex Gozblau

O teu rosto

É o teu rosto ainda que eu procuro
Através do terror e da distância
Para a reconstrução de um mundo puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen

imagem de Gérard Dubois

A história da minha máquina de escrever


A História da minha máquina de escrever é um tributo à relação - intensa e muitas vezes determinante - entre um escritor e a sua máquina de escrever.
ao longo de 30 anos, a velha máquina Olympia de Paul Auster foi a corrente de transmissão dos romances, contos e textos de um dos mais emblemáticos escritores norte-americanos. Paralelamente, os vigorosos e obsessivos desenhos e pinturas que Sam Messer dedica ao autor e à sua máquina de escrever conseguiram, como escreve Paul Auster, "converter um objecto inanimado num ser com personalidade, com uma presença no mundo".

"A história da minha máquina de escrever" edições asa


O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos in. " Poesia " assírio & alvim

imagem de Zwir Bogdan
Gustave Moreau [Salome] 1876
Laura Lipton [ last dance ] 2005

Morre lentamente
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Morre lentamente...

Pablo Neruda

[Porque nunca as palavras tiveram tanta música, nem a música tantas palavras...]

Ode apresenta-se como um projecto inovador de composição poética. Que resulta de uma nova abordagem à forma de dizer, sentir e interpretar poesia.
Feito por quem gosta do que faz, seleccionam em conformidade com o critério estético deles, as palavras dos nossos maiores poetas e escritores - consagrados e novos. Palavras que avançam e se misturam com as harmonias e acordes das guitarras do F. Aires.
Ou harmonias e acordes que abrem lastro ao fogo verbal. E também ao silêncio. O deles. O nosso. O vosso.
Ode propõe vidas e um diálogo entre todos. Convida. Escarafuncha. Ri. Chora. Invade e fecha.
A fórmula síntese: simplicidade e honestidade.
 
Objectivos:
Levar aqueles que consideram a poesia “uma coisa tremendamente chata” a disporem de uma segunda oportunidade.
Levar aqueles que se consideram incapazes de ler poesia, a comprá-la.
Levar aqueles que gostam de poesia a gostar dela ainda mais.
Oferecer magia. E sim, liberdade. Sempre a liberdade.

Guitarras e sons: Aires F.
Voz e palavras: Sandro William Junqueira
imagem de Aria Nadii

EM SILÊNCIO DESCOBRI ESSA CIDADE NO MAPA

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa —
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol —
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue — peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas — ela —
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.

Herberto Helder in. " A Máquina Lírica "

As minhas ocupações


É raro encontrar alguém sem que eu lhes bata. Há quem prefira o monólogo interior. Eu não. Gosto mais de bater.
Há pessoas que se sentam à minha frente num restaurante e não dizem nada, deixam-se ficar durante algum tempo porque decidiram comer.
Cá está um.
Eu arrepanho-to, truz.
Eu rearrepanho-to , truz.
Penduro-o no bengaleiro.
Desprego-o.
Rependuro-o.
Redesprego-o.
Ponho-o em cima da mesa, comprimo-o e sufoco-o.
Sujo-o, imundo-o.
Ele reanima-se.
Enxaguo-o, estico-o (começo-me a enervar, tenho de acabar), amasso-o, aperto-o,
comprimo-o e introduzo-o no meu copo, e entorno ostensivamente o conteúdo para o chão, e digo ao empregado da mesa: "Dê-me então um copo mais limpo."
Mas sinto-me mal, pago a conta de imediato e vou-me embora.

Henri Michaux in. "Antologia" relógio d'água
imagem de Maggie Tayler


Esta espécie de loucura

Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,

Não me traz felicidade;
Porque enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há.

Fernando Pessoa

Dorothea Tanning [ petita serenata nocturna ] 1943

o regresso...

Michel Gondry [ La Science des Rêves ] 2006

Escrito e realizado pelo Francês Michel Gondry ( " Human Nature " 2001, " Eternal Sunshine of the Spotless Mind " 2004), " La Science des Rêves " é o regresso do realizador ao grande ecrã, com Gael García Bernal, Charlotte Gainsbourg e Alain Chabat, promete ser uma verdadeira viagem ao mundo da imaginação.

Darren Aronofsky [ The Fountain ] 2006

Depois da grande estreia no Sundance Film Festival com o filme," pi " (1998) e da fabulosa adaptação da obra de Hubert Selby Jr. , " Requiem for a Dream " (2000), que valeu a Ellen Burstyn várias nomeações incluindo o Oscar para melhor actriz, " The Fountain ", marca o regresso de Darren Aronofsky às salas de cinema. Escrito e realizado por Aronovsky , " the Fountain ", cruza três historias onde o amor, o ódio, o espiritualismo e a fragilidade da existencia neste mundo são a base da história. Hugh Jackman, Rachel Weisz e Ellen Burstyn dão a cara às personagens, a musica, essa fica mais uma vez nas mãos de Clint Mansel.
imagem de Margo Selski


MÃE

Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue verdadeiro, encarnado!
Eu ainda não fiz viagens
E a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar.
Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exatamente para a nossa casa, como a mesa. Como a mesa.
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros(1893-1970)
fotograma de "un chien andalou" Luis Buñuel 1929

" felizmente, algures entre o acaso e o mistério repousa a imaginação, a única coisa que protege a nossa liberdade, apesar do facto de as pessoas continuarem a tentar reduzi-la ou eliminá-la no seu todo "

Luis Buñuel

Não deixeis um grande amor

Aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa

assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava

assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor
chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro

não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha

não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria e uma a uma
as evidências negava

por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendidos
do mundo.

José Tolentino Mendonça in. "longe não sabia"
imagem de lorenzo mattotti

A noite abre meus olhos

José Tolentino Mendonça nasceu no Machico, ilha da Madeira, em 1965, formou-se em Teologia na Universidade Católica de Lisboa com uma dissertação sobre a poesia de Ruy Belo. Terminou o seu mestrado em Estudos Bíblicos no Pontifício Instituto Bíblico, em Roma. Foi ordenado Padre em 1990, tendo sido capelão e professor na Universidade Católica de Lisboa. Além de poeta, José Tolentino Mendonça é também ensaísta e tradutor. Estreou-se na poesia com o livro Os Dias Contados, publicado em 1990, ao qual se seguiram outros, Longe Não Sabia (Presença, 1997), Baldios (assírio & alvim, 1999), De Igual para Igual (assírio & alvim, 2001), e o mais recente A Estrada Branca (assírio & alvim, 2005). Para além de livros de poemas e dos ensaios As Estratégias do Desejo: Um Discurso Bíblico sobre a Sexualidade (cotovia, 1994) e A construção de Jesus (assírio & alvim, 2004) é igualmente autor de uma tradução do Cântico dos Cânticos (cotovia,1997) e de peças teatrais, das quais é exemplo Perdoar Helena (assírio & alvim, 2005), levada à cena pelos Artistas Unidos. Em 2006 a editora assírio & alvim edita a sua poesia reunida, "A noite abre meus olhos", uma obra obrigatória para aqueles que não conhecem ou pouco conhecem da obra do autor.

André Breton


Há uma tendência de cozinheiros entre aqueles que pensam.
Nenhuma mistura é vedada. Se colocarmos sal e açúcar sobre o mesmo pão, o pão poderá hesitar de gosto, e poderá hesitar de conceito sobre si mesmo, e poderá hesitar ainda em frente ao espelho, mas hesitar não é morrer, e ser duplo não é ser zero, e ser estranho não é só o cadáver que o é. Nenhuma grandeza se inicia com a soma de duas coisas iguais. Eis.

Gonçalo M. Tavares in. " biblioteca " campo das letras
fotografia de Ralph Gibson

A Bicicleta

O meu marido
saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.

Alexandre O'Neill in. "As horas já de números vestidas"

ZAROFF o jogo mais perigoso

Irving Pichel/Ernest B. Schoedsack - 1932

A ilha começa por definir-se como espaço de um poder absoluto que leva o leitor a a memórias do romantismo negro, aos dráculas e às suas variantes dispersas por toda a imaginação gótica. Rainsford terá de fugir ao "minotauro" num labirinto sufocante de vegetação tropical; como Teseu, usará a astúcia, a coragem, debater-se-á numa treva de impossibilidades até reencontrar a luz.
No centro de tudo isto levanta-se o corpo de pedra do castelo, espaço priviligiado da subversão. Nesta ventura de castelo e selva, Zaroff acede ao prazer construindo uma expectativa de crime, com avanços e recuos prolonga o momento crucial do êxtase da posse. E com esta prática ilustra em ficção o que George Bataille teoriza sobre o erotismo: " o erotismo é o crime solitário que apenas nos salva pela euforia de uma ilusão, já que em definitivo, também chegamos ao seu grau máximo pelo anátema da solidão."
Uma história de Richard Connell várias vezes adaptada ao cinema ( The most dangerous game - 1932 , a mais assumida de todas), e que uma outra vez viveu na rádio com as vozes de Orson Welles e Joseph Cotten; que construiu um reconhecido símbolo do erotismo sádico citado por Rolland Villeneuve, Léo Malet , Albert Manguel, Ado Kirou, entre outros, e amado - como prolongamento das imaginações do marquês de Sade - pelos surrealistas franceses.

Richard Connell "Zaroff (o jogo mais perigoso)" assírio & alvim

" As gentes comuns têm um profundo respeito pelos especialistas de todo o género. Ignoram que a razão pela qual se faz profissão de uma coisa não é o amor dessa coisa mas do que se lucra com ela - e quem ensina alguma coisa raramente a conhece a fundo; pois se a estudasse como deveria, em geral não lhe restaria tempo para ensiná-la. "

Arthur Schopenhauer in. "a arte de ter sempre razão" frenesi

fui ali mas volto já...

imagem de Greg Mably

muito brevemente...

Philippe Garrel [ Os Amantes Regulares ] 2005

Chega finalmente às nossas salas o mais recente filme de Philippe Garrel, com Louis Garrel no papel de François um jovem que completa os seus 20 anos num Maio de 1968, tempo de revoltas estudantis em França. Os dias, as noites de Maio em Paris. Há cargas policiais sobre as barricadas construídas pelos jovens. É aí que pela primeira vez vislumbra Lilie (Clotilde Hesme), muito bela: perseguição nos telhados, é encurralado mas consegue escapar às malhas da polícia de choque. De manhã, sente que viveu uma guerra civil. François e os seus amigos estão no apartamento de Antoine, rapaz burguês muito rico, depois de ter herdado de um pai que morreu muito novo. François escreve, é um poeta não publicado, com os seus amigos, artistas e estudantes. São uma dezena, têm entre 20 e 25 anos: fumar haxixe, a descoberta do ópio, mudar a vida, as discotecas, as miúdas... Lilie reaparece uma noite. O desejo de revolução é forte. Mais forte ainda o amor que vai nascer entre François e Lilie. Maio de 68 - o ano de 69 - Paris, a Europa, a juventude, tentações e perigos, tudo se mexe muito, ou demasiado rápido. A vida de um grupo -o seu fim- a revolução que se apaga... E o primeiro grande amor a morrer...

e porque hoje é dia 20...

Um documentário em 17 movimentos, em que os testemunhos e a guitarra definem o génio, a bravura e a modéstia de Carlos Paredes.
Em “Movimentos Perpétuos – Tributo a Carlos Paredes” estabelece-se um diálogo entre uma guitarra e uma câmara de Super8, numa estética que evoca a memória dos velhos filmes de família, plena de intimidade, revelada na partilha de pequenas histórias da vida.

premiado em três categorias no festival indie lisboa:

prémio melhor longa metragem-portuguesa
prémio melhor fotografia para filme português
prémio do público para longa-metragem

movimentos perpétuos - cine tributo a carlos paredes, um filme de edgar pêra

Aparece

Aparece pura gema feminina
Como uma jovem solitária
No meio dos seus vestidos nus
Como uma jovem nua
No meio das mãos que a imploram
Eu te saúdo

Anseio por uma chama nua
Anseio p'lo que ela esclarece
Surge meu jovem espectro
Nos teus braços uma ilha desconhecida
Tomará a forma do teu corpo
Minha bem aparecida

Uma ilha e o mar decresce
O espaço teria um leve arrepio apenas
Para nós dois um único horizonte
Acredita em mim revela-te assedia o meu olhar
Dá vida a todos os meus sonhos
Abre os olhos.

Paul Éluard in. "últimos poemas de amor" relógio d'água

cidade de vidro

cidade de vidro, o primeiro conto daquele que é considerado o melhor livro de Paul Auster, a trilogia de Nova Iorque, foi recentemente adaptado para o formato de novela gráfica, ou seja banda desenhada, e chega agora ao nosso mercado pelas mãos da asa editores. O trabalho gráfico e a adaptação ficaram ao cuidado de Paul Karasik e de David Mazzucchelli com a orientação de Art Spiegelman (MAUS) e Paul Auster. Esta obra viria a ser traduzida para diversas línguas e foi nomeada pelo Comics Journal como um dos 100 melhores “comics” do século. Um livro a não perder.

queria morrer contigo

imagem de Alex Gozblau


queria morrer contigo
não queria morrer de ti

prendi o amor nos meus braços
mas uma chuva de areia negra
cospe o meu sangue onde o coração

queria morrer contigo
contra o corpo limite do dia
arder praias onde o tempo acabava
começar Deus onde era o fim
não queria morrer de ti

a noite toda tem a espessura da perda
a boca beija o batimento da terra
o medo abraça-me

e ainda é tão tarde para que morramos os dois

Pedro Sena-Lino in. "zona de perda livro de albas"



O OLHAR

o teu problema não é o problema.
o teu problema é a parte do problema para onde
tu olhas.

O OLHAR OUTRA VEZ

o mesmo para a solução.
a tua solução é a parte da solução para onde
tu olhas.

OS OLHOS

só olhando para todos os lados ao mesmo tempo
poderás ver o problema, isto é : a solução.
assim não vês nada.
ou melhor: vês o que os teus olhos querem ver.
isto é: vês os teus olhos.

Gonçalo M. Tavares in. "breves notas sobre ciência" relógio d'água
imagem de Gérard Dubois


Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Fernando Pessoa

Yuko Shimizu


wind-up woman in the wind


gelato with gender


fluffy fascination

escutar...


Herbert [ scale ] k7 2006


Hoje deitei-me ao lado da minha solidão

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do meu próprio coração.

Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou o medo de perder quem me perdia.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até sentir
o meu sangue jorrar nas próprias fontes.

Eugénio de Andrade in. "As mãos e os frutos"

piratarias...


Leitura de histórias, vilanias e piratarias,
por Sandro william Junqueira

Fnac Guia
5ªfeira, 3 de Agosto às 21h30

bom fim-de-semana...

imagem de Alex Gozblau


CASA BRANCA

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.

A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.


Sophia de Mello Breyner Andresen
imagem de Christian Northeast


Reconhecimento à Loucura

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.


José de Almada Negreiros "Poemas" assírio & alvim
imagem de Craig LaRotonda


Terror de te amar num sítio
tão frágil como o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

Sophia de Mello Breyner Andresen

e já que a Francisca falou nisso...
O novo filme de Terry Zwigoff chama-se Art School Confidential, e é mais uma vez baseado no universo de Daniel Clowes, tal como já tinha sido Ghost World (2001). A estreia ainda não tem data marcada para as nossas salas, resta-nos pois esperar. E por falar em esperar, para quando uma edição Portuguesa de "Crumb" 1994, o fabuloso documentário sobre Robert Crumb ??

no Gira...

Desmond Dekker [black and dekker] stiff records 1993


O silêncio só aos surdos não inquieta.
Tenho nas mãos marcas de silêncios antigos.
Olho para o chão, e os meus pés, sobre o silêncio,
resvalam para os passos das crianças : as crianças,
quando preenchem o silêncio, conseguem matá-lo.
(...)

Manuel Cintra "não sei nunca por onde" edições quasi


N

O amputado penetra a noite seguido pelo cão. O ar que se respira é húmido . A humidade entra-lhes directa nos pulmões. A lua projecta do alto das sombras. As sombras crescem. Eles não caminham sozinhos.
De cabelo cortado à escovinha, o amputado avança firme. É um homem robusto e atlético. Leva um embrulho preso entre a força do antebraço e o amparo das costelas. O cão é magro, escanzelado. Um rafeiro de pêlo curto, muito brilhante, mas, como teima permanentemente em mostrar os dentes num jeito do focinho, parece sorrir.
O homem caminha obstinado. Enverga, para além de qualquer intuito ainda desconhecido, um esgar macilento de dor. Enquanto o cão acompanha-o como cão, respirando arquejante, de língua estendida, deixando atrás de si, pelos ladrilhos, paralelepípedos e alcatrão, um lastro translúcido de baba que a lua e as estrelas testemunham.
Seguem em silêncio pela avenida principal, contornando primeiro o jardim da praça, os edifícios velhos da baixa, ladeando o campo das macieiras, seguindo depois em frente, passando pelo caminho-de-ferro, a estação e só depois alcançando o cemitério.

A noite é baça.
As ruas vazias.

Chegados lá, o homem e o cão encontram o portão fechado, dado o adiantado da hora. Ou saltam o muro, ou então esperam pela manhã. O amputado não pensou. pegou no embrulho com a mão inocente e atirou-o. Do outro lado do muro ouviu-se o som mole de algo morto que cai. De seguida, com o auxilio do coto, pegou ao colo o cão leve e balançou-o o suficiente para o lançar desgovernado para dentro do vazio. Depois deste silêncio, o som foi mais adulto, equilibrado, não se fazendo ouvir qualquer latido pesaroso. Ou o cão era mudo ou tinha aterrado sólido sobre as patas, e sobrevivido.
O amputado olhou o céu. contou um conjunto de estrelas, sobre o cimo do muro caiado e repetiu para si os seus nomes: Rubídia, Pálida, Mimosa, Intrometida e Acrux...
Deu quatro passos atrás, medindo a distância. respirou fundo e arrancou em direcção ao obstáculo com a máxima velocidade que as suas pernas detinham. Os seus pés, impulsionados pela força dos músculos, levantaram-no do chão. E por momentos suspenso no ar invisível, sentiu que voava. Depois do impacto, agarrou-se ofegante ao cimo do muro e, quando a gravidade começava a fazer peso, com a ajuda de todo o corpo impulsionado, acabou por sentar-se.
Doa alto do muro a vista era ambivalente: de um lado, esperava-o um campo aceso de lajes - Aqui jaz. Ali jaz. - Um campo de ossos, fotografias e epitáfios semeados por mensagens de despedida ou saudade e ardentes chamas trémulas. Enquanto do outro se apresentava a cidade: fantasmagoricamente iluminada pelas luzes indecisas dos candeeiros; guardada pelos cães vadios e as gruas de aço. Onde, dentro das casas e edifícios, supostamente deitados sobre colchões e lençóis pestilentos, os peitos dos homens e das mulheres horizontais, cravados de ódios e maledicências, levantavam-se e baixavam-se ao ritmo de inspirações e expirações mais ou menos inconscientes.

Eles respiram, pensou o amputado.
-É isto afinal o mundo - acabou por murmurar.

Num salto, os seus pés encontraram a terra amolecida, enterrando-se. O cão e o embrulho esperavam-no subservientes lá em baixo. O cão sorriu ao vê-lo. O amputado retribui-o. Vivo. no meio de tanto cadáver, é quase nada - disse-lhe , enquanto sacudia a terra das calças. Apanhou o embrulho e avançou. Por diante havia uma casa. O cão segui-o por entre os jazigos e as chams das velas que, trémulas, o intrigavam.

Sandro William Junqueira in. " Não há limões "

escutar...


four tet [ Dj-kicks ] k7 2006
fotograma de "as asas do desejo" Wim Wenders


A primeira elegia

Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua 
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o anjo é terrível.
por isso me contenho e engulo o apelo
deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e os argutos animais sabem já
que nós no mundo interpretado não estamos
confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta que possamos rever
diariamente; resta-nos a rua de ontem
e a fidelidade continuada de um hábito,
que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.
(...)

Rainer Maria Rilke in. " As elegias de duíno" assírio & alvim

trabalho infantil


fotografia de G. M. B. Akash - Bangladesh
imagem de The stuntKid


Não encontro o AMOR nos corpos que suportam a IMOBILIDADE
O movimento é possivél, o amor é a conclusão.
Dançar para chegar à Conclusão.
Há movimentos melhores que outros. O amor é uma esfera geométrica,
o lado melhor é o lado pior,
o lado mais baixo é o lado mais alto.
Há movimentos melhores que outros.
Há perguntas melhores que outras.

Gonçalo M. Tavares in. "Livro da Dança" assírio & alvim