A minha encarnação actual degrada-se; não creio que possa prolongar-se por muito tempo. Sei que na minha próxima encarnação voltarei a encontrar o meu companheiro, o cachorro Fox.
A vantagem da companhia de um cão deve-se à possibilidade de o tornar feliz; exige coisas tão simples, o seu ego é tão limitado. É possível que em tempos idos a mulher se tenha encontrado numa situação comparável - próxima da do animal doméstico. Havia sem dúvida uma forma de felicidade domótica relacionada com o funcionamento colectivo, que já não somos capazes de poder compreender; existia sem dúvida o prazer de constituir um organismo funcional, adequado, criado para realizar uma sucessão discreta de tarefas - e estas tarefas, repetindo-se, constituíam a sucessão discreta dos dias. Tudo isso desapareceu, e a sucessão de tarefas também; já não temos verdadeiramente um objectivo determinado; as alegrias do ser humano permanecem-nos desconhecidas,as desventuras, por outro lado, não nos abandonam. As nossas noites já não vibram de terror nem de êxtase; mas vamos vivendo, atravessamos a vida, sem alegrias nem mistérios, o tempo parece-nos breve.

Michel Houellebecq in. " A possibilidade de uma ilha "

nighthawks

edward hopper

banksy
Marlene Dumas [ passion ]



poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Mário Cesariny
Vanessa Beecroft
Balthus [alice no espelho] 1933
Feminina

Eu queria ser mulher pra me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas «banquettes» dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó-de-arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.

Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro-
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer «potins»-muito entretida.

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar-
Eu queria ser mulher para que me me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.

Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto-
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...

Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me poder recusar...


Mário de Sá-Carneiro

19 janeiro 1923 / 13 junho 2005


Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.


Eugénio de Andrade
imagem de Greg Spalenka


Subiu até que, fora de si mesmo,
e com a inteligência a analisar abstracta,
recolhia a censura do silêncio
e, depois disso, a estrídula algazarra.
Seu rodopio de atordoamento
foi-se frustrando. Deu alta
para nenhuma condição de tempo
ir alterar a natureza drástica
da inteligência. De ficarmos vendo
como o estrondo sucumbe ao dar entrada
na análise do fora de si mesmo
e no silêncio da censura em alta.

Fernando Echevarría in. " epifanias " afrontamento
Henry Fuseli [ nightmare ] 1790
imagem de Jay Ferranti


A poesia é uma força destruidora

Eis o que é a desgraça
Nada ter no coração.
Há que isso ter ou nada.

Há que ter essa coisa,
um leão, um toiro no peito,
senti-lo a respirar.

Corazon, cão encorpado,
jovem touro, urso de pata arqueada,
sente o próprio sangue, não o cuspo.

Ele é como um homem
no corpo de um animal violento.
Os seus musculos são seus...

O leão dorme ao sol.
Com o nariz entre as patas.
Pode matar um homem.

Wallace Stevens in. "Antologia" relógio d'água
Elia Kazan - 1951

A versão do realizador traz-nos finalmente, pela primeira vez, a versão integral da provocadora obra de Elia Kazan e Tennessee Williams, tal como teria sido exibida se não tivesse sido censurada nos EUA. O filme conta com mais três minutos de película inédita, na qual fica bem clara a química sexual entre Blanche Dubois (Vivien Leigh) e Stanley Kowalski (Marlon Brando), e a profunda paixão de Stella Kowalski (Kim Hunter) pelo marido Stanley. A edição é composta por dois discos onde se podem ver alguns documentários, imagens retiradas do filme, o comentário audio de alguns historiadores de cinema e um teste de filmagem com Marlon Brando entre outras coisas.
imagem de Lorenzo Mattotti


Nostalgia

Na caixa da ferramenta do poeta
a nostalgia é o instrumento
duma lassidão crepuscular
assassina do dia.

A memória
é um conservatório de combates
mais ou menos arrumados
mais ou menos diferidos
para a caixa dos conceitos.

Obscuro simulacro do real
sombra desmaiada
emergindo cada vez mais lenta
a nostalgia é o adeus da paixão.

Ana Hatherly in. "O pavão negro" assírio & alvim
August Sander [young girl in a circus caravan] 1929

Será possível traduzir por palavras
a música que imaginamos interiormente?
Eu gosto de pensar que talvez seja
a vontade de olhar para dentro e,
do silêncio interior,
dar sequência a algumas (possíveis) imagens
da nossa memória e, ao mesmo tempo,
do preciso momento em que o som
e a ideia são lançados;
mas o maior desafio de todos é, para mim
a procura de outros lugares - indefinidos
e muito longe daquele onde vivemos.
Talvez seja o reflexo da nossa vida;
talvez seja a realidade juntamente
com o reflexo dos sentidos.
Porém, mais do que a própria realidade,
é o espelho das coisas que dela imaginámos.
Do silêncio e de regresso a ele,
essas imagens em forma de música
terão sempre um carácter abstracto,
suspenso, inacabado...

Bernardo Sassetti, 2005
imagem de Randal Gordy Lee


o medo

Ando à volta de tudo isto e,
como quem se despede para sempre,
de costas para o vento e para o amor,
desço em direcção a um cais onde são
inúteis as palavras.
Bebo, fumo, sonho, e conheço bem essa dor
que vem do fundo,
dos vales assombrados onde a armagura
prepara as suas armas.

Não há estrelas, astros, castiçais, nada a
não ser o medo,
nestes climas da alma.

José Agostinho Baptista in. "Quatro Luas" assírio & alvim

A possibilidade de uma ilha


MICHEL HOUELLEBECQ é o enfant terrible da literatura francesa actual. Odiado por uns e amado por outros, os seus livros abordam sempre temas na "moda" e são altamente polémicos, porque ele tem sempre um ponto de vista iconoclasta sobre os problemas. Tem outros livros traduzidos em Portugal, ("As particulas elementares" Temas e Debates, "Plataforma" Bertrand), e é um dos romancistas franceses contemporâneos mais traduzidos no mundo.
A possibilidade de uma ilha é a história de Daniel, um cómico famoso, conhecido pelos seus monólogos cáusticos em que a provocação se mistura com uma visão fria e cruel da existência. O protagonista narra os últimos anos da sua vida, as suas relações sexuais e amorosas com Isabelle e com Esther, e o seu contacto com uma seita cujos membros asseguram que o ser humano alcançará a imortalidade. Temas filosóficos, sociais, politicos e cientifícos, clonagem e sexo, juventude e velhice, vilolência e desejo, são aqui abordados. Toda a força do pensamento de Houellebecq se revela nos relatos de Daniel1, Daniel24 e Daniel25 que, separadas por dois mil anos, se cruzam numa trama onde as ideias põem o dedo na ferida.

O romance A possibilidade de uma ilha foi um dos finalistas do prémio Goncourt 2005 e o vencedor do Prix Interallié 2005.

Michel Houellebecq "A possibilidade de uma ilha" Dom Quixote
imagem de Craig Larotonda



Inocência

Eu que procuro a paz e a detesto,
que sonho as Babilónias, já sabendo
o cansaço que delas hei-de ter,
eu que tudo amo... e nada quero,
embora sempre em busca doutra coisa,
donde tiro ainda a força dos meus braços?

Adolfo Casais Monteiro (1908-1972)

O 4.º reino

André Kertész [Meudon,France]1928
Uma bala entra na pedra. Faz buraco. Animal impaciente e rápido (a bala). Nos tijolos de pedra contamos uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete. Sete balas. Umas por cima das outras. E há pelo menos mais uma que acertou no menino. E uma outra que acertou no pai. O pai tentava protegê-lo dos tiros, mas não protegeu o filho todo. Não lhe tapou por completo o corpo com o seu corpo. Também se encolhia, ele próprio, o pai. Porque o pai não é a mãe. Ao todo, no mínimo, nove balas. Duas que mataram dois seres vivos, e sete balas na pedra.
(...).
Gonçalo M. Tavares in. "água, cão, cavalo, cabeça" caminho
imagem de Kurt Halsey


Amor como em casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina

A imagem-tempo, cinema 2


Gilles Deleuze, numa obra dedicada ao «fenómeno» cinematográfico, no início dos anos 1980, provocou um encontro extremamente original entre a filosofia e o cinema. Desde então, a maneira de pensar, de teorizar ou de fazer a sua história sofreram uma transformação radical. O cinema, segundo Gilles Deleuze, serve-nos de directriz num percurso que apresenta instâncias extremamente problemáticas que o autor aprecia como uma arte do devir, classificando, por vezes, intempestivamente as suas imagens.

Gilles Deleuze, proeminente filósofo francês, nasceu em 1925. Frequentou o Liceu Carnot, em Paris, e estudou filosofia na Universidade de Sorbonne entre 1944 e 1948. Foi na faculdade que conheceu, entre outras figuras, Michel Tournier e François Châtelet.
Leccionou Filosofia no ensino secundário até 1957, ano em que começou a ensinar história da Filosofia na Sorbonne. A partir de 1960, e durante quatro anos, foi investigador no Centre National de Recherche Scientifique (CNRS), tendo sido depois professor na Universidade de Lyon. Só em 1987 abandonou o ensino, depois de uma longa carreira como historiador de filosofia.
O seu primeiro livro, publicado quando Deleuze contava apenas 23 anos, intitulava-se “Empirismo e Filosofia”. Em 1968, foi publicada a sua tese de doutoramento, “Expressionismo na Filosofia: Spinoza”. Em 1987, Deleuze conheceu Féliz Guattari, com quem escreveu um conjunto de livros influentes, nomeadamente “Anti-Édipo — Capitalismo e Esquizofrenia” (1972). Durante os anos 80, Deleuze escreveu uma série de livros sobre cinema e pintura. O seu último livro, uma colecção de ensaios sobre literatura e algumas questões filosóficas, foi publicado em 1993.
Em 1995, Deleuze pôs termo à sua vida, atirando-se de uma janela do seu apartamento em Paris.


Gilles Deleuze "A imagem-tempo, cinema 2" assírio & alvim
imagem de Kurt Halsey


Campo dos infelizes

Farto da minha busca de ilhas,
rebanhos mudos, verde morto,
quero ser margem, ser baía,
de belos barcos ser um porto.

A minha praia quer sentir-se
pisada a vivo com pés quentes;
queixa-se a fonte a oferecer-se,
quer refrescar sedes ardentes.

E tudo quer a sangue estranho
subir, ir afogar-se a esmo,
até um outro ardor de vida,
nada ficar quer em si mesmo.

Gottfried Benn (1886/1956) in. "50 poemas" relógio d'água

Escutar...

Stuart A Staples [Leaving Songs] Beggar's Banquet 2006

Sou barbeiro. É uma coisa que pode acontecer a qualquer pessoa. Quero dizer que até esse dia fui bom barbeiro. Cada qual tem as suas manias, eu não gosto de borbulhas.
Aconteceu assim: comecei a barbeá-lo calmamente, ensaboei-o com habilidade, afiei a navalha no braço da cadeira e suavizei-a na palma da mão. Sou um bom barbeiro! Nunca cortei ninguém e ainda por cima esse tipo não tinha uma barba muito espessa. Mas tinha borbulhas. Devo reconhecer que nas suas borbulhas não havia nada de especial, no entanto, incomodavam-me, enervavam-me, revolviam-me as tripas.
A primeira, contornei-a bem, sem grande dificuldade, mas a segunda começou a sangrar. Então, não sei o que me deu, acho que é uma coisa muito natural, aprofundei a ferida e depois, sem poder deixar de o fazer, com um só golpe, cortei-lhe a cabeça.

Max Aub (1903/1972) in. " crimes exemplares " antígona

No prelo # 4



Frédéric Strauss - Conversas com Pedro Almodovar - 90º

José A. Baptista - Quatro Luas - assírio & alvim

Bob Dylan - As líricas (volume 1) - relógio d'água

Iris Murdoch - Um homem acidental - relógio d'água

Michel Houellebecq - A posibilidade de uma ilha - Dom Quixote

No Gira...

Oscar Peterson & Milt Jackson [ Reunion Blues ] 1971
imagem de Gustav Klimt [the poetry]

A NOITE PROGRIDE PUXADA À SIRGA


" cogito em coisas que me recordam conversas distantes com amigos. não sei bem o quê, chegam à memória rostos e sons. vozes. não compreendo o que dizem, estou cansado. é-me difícil saber se sou eu ou o meu corpo que está cansado. talvez estejamos os dois, raramente nos separamos. aturamo-nos os maus humores e os momentos de insuspeita felicidade. dormimos e amamos juntos.por vezes apetece-me deixa-lo, voar e estender-me por cima dele, esfregar-lhe o sexo na boca, nos cabelos, beija-lo, fazer-lhe inesquecíveis cenas de ciúme, para depois ter o prazer da reconciliação comigo mesmo.mas há momentos muito tristes, aqueles em que as plantas crescem subitamente para dentro da sombra, e tu não estás aqui. é obsessão minha amar quem passa. se abrisse os olhos ter-te-ia, só para mim, até à linha inexistente do horizonte do mar.anoitece devagar. anoitece sobre os ombros. anoitece onde não estou e em redor do meu corpo, anoitece por dentro dos objectos que evocam a tua presença. a penumbra invade a casa, corrói tudo o que é sólido.dantes, a solidão vergava-me, mas com o passar dos anos povoei-a com sorrisos, corpos, pequenos gestos que aderem à memória e me dizem que existo, que continuo vivo onde pressinto o coração a arder. é o ouro que se ganha quando se aprendeu a estar sozinho, tem-se tudo e não se possui nada. o que restava da memória foi partilhado ou foi abandonado para sempre. tudo está constantemente presente e vibra sob a luminosidade imperceptível de ser eterno na fracção de segundo.se morresse agora mesmo não deixava nada, porque bebi toda a minha sede, esvaziei-me, devorei noites a fio esse amargo que têm as coisas antes de nos pertencerem. teu corpo, por exemplo, custou-me tanto inventar-lhe formas consistentes, um reflexo, uma sombra que se lhe adaptasse e o acompanhasse. teu corpo vive hoje dentro do espelho onde se perdeu o meu.a paixão talvez seja a ausência dum corpo que desperta a intensidade da vida no interior doutro corpo; lugar onde a luz mal emergiu ainda, e as palavras se formam a partir de vestígios de silêncio. ardem brandamente no sangue, as palavras, mas ainda são confusas, dispersas, apenas sons indefinidos. depois, a mão executa-as, mata-as um pouco ao alinhá-las sobre desertos brancos, e a vida estremece, modifica-se. as palavras, quando mortas, já não valem a pena porque substituíram tudo. criaram outras realidades. é com medo que me vejo por trás de cada uma delas. as palavras são perigosas máscaras fúnebres que se colam à cara e não precisam de boca, de voz. as palavras mudas escondem o medo de um dia deixar de saber quem sou por trás de tanta máscara sobreposta.não escrever, não falar, não gesticular. imobilizar-me como a pedra que freme à passagem do vento. uma lágrima irrigará o cristal, um veio de água sobre as palpebras, sobre os lábios que adivinham a transumância das constelações. a respiração rouca da árvore sob o peso da geada. a flor que sinaliza o caminho dos insectos. a terra, a pouco e pouco, perceptível ao tacto. grito, finjo o grito.sentado à varanda do mundo morro como todas as coisas que morrem, sobrevivo com todas as coisas que vivem.permaneço sentado, não faço absolutamente nada, nem mesmo pensar. descobri o lugar onde o corpo e a mente pernoitam fora do tempo. "

Al Berto in. " O Medo " assírio & alvim


Federico Fellini [8 1/2] 1963
imagem de Greg Spalenka


Ó tu, celeste arte,
que vezes tantas,
nas horas sombrias
em que me sentia sufocar
pelo feroz abraço da vida,
me fizeste nascer, no coração,
um caloroso conforto,
e para um mundo melhor
me transportaste.
imagem de James Jean


Esta aventura de meu pai com os pássaros foi a mais brilhante contra-ofensiva que o incorrigível improvisador, o estratega da imaginação, lançou contra as muralhas de um estéril e vazio Inverno. Só hoje lhe entendo o heróismo: solitário, fez guerra ao tédio infinito que deixava a cidade entorpecida. Sem nenhum apoio nem compreensão da nossa parte, este homem extroardinário levava a cabo uma defesa sem esperança da causa da poesia. Nas rodas deste moinho mágico afundavam-se as horas vazias para de lá saírem cheias de perfume e cor.
(...)

Bruno Schulz in. "As lojas de canela" assírio & alvim

Bruno Schulz


Bruno Schulz nasceu a 12 de Junho de 1892 em Drohobycz (na altura uma província do Império Austro-húngaro, na Galicia, mais tarde, em 1918, integrada na Polónia e que, actualmente, pertence à Russia). Estudou arquitectura em Lwow e Belas Artes em Viena. Deu aulas de Desenho em Drohobych. Era um judeu Polaco que falava yidish, polaco e alemão, mas pouco tinha de cosmopolita pois raramente saiu da sua cidade natal e viveu praticamente como um eremita. Era um homem solitário que vivia dos seus sonhos, com uma vida interior extraordinária e com uma sensibilidade artística especial. Publicou o primeiro livro, Sklepy Cynamonowe, em 1934 e três anos depois, Sanatório sob o signo da clepsidra. Escrevia em polaco. Traduziu Kafka. Em 1938 foi galardoado pela Academia Polaca de Literatura. Quando eclodiu a II Guerra Mundial, Drohobycz estava ocupada pela União Sovética. Viveu num gueto. Foi fusilado na rua por um oficial nazi, no dia 19 de Novembro de 1942. Diz-se que na altura escrevia um romance chamado O Messias, mas não há rasto desse manuscrito. Em 1957 foi publicada uma nova edição da sua obra, posteriormente traduzida para francês, Alemão e Inglês. Dois dos seus livros foram adaptados para o cinema, Street of Crocodiles em 1986, e, Sanatorium pod Klepsydra em 1973.
Grande parte do interesse actual em Bruno Schulz, deve-se ao trabalho de escritores contemporâneos como David Grossman (See under: Love), Cynthia Ozick (The Messiah of Stockholm) e Philip Roth (The Prague Orgy). Estes escritores criaram verdadeiras lendas em torno de Schulz, incorporando a sua figura nos personagem ficcionados dos seus romances.

descubra as diferenças...

Serge Gainsbourg [nº2] polygram int'l 1959

Lovage [music to make love to your old lady by] tommy boy 2000

Balla [le jeu] music mob 2003

bom fim-de-semana

pre-order...


ESG [ Keep On Moving ] soul Jazz records 2006
imagem de Lorenzo Mattotti


O TEU OLHAR

O teu olhar fixou-se
numa nuvem,
um ponto que aumentou imensamente
e te retém ao começo da noite
como se fosse a ameaça
de que talvez conheças a origem num passado
ácido de faces, posso
recomeçar quase tudo levantando
a pedra
final que nos esmaga;
há coisas
que não têm recomeço

Gastão Cruz in. "Repercussão" assírio & alvim
Otto Dix 1891/1969
[portrait of the journalist sylvia von harden] 1926

o remorso...


numa idade média brutal e miserável, baltazar serapião casa com a mulher dos seus sonhos e - tal como o pai fizera antes com a mãe e com a vaca, fêmeas irmanadas em condição e estatuto familiar - leva muito a sério a administração da sua educação. mas o senhor feudal, pondo os olhos na jovem esposa, não desiste de exercer sobre ela os seus direitos... entregue aos desmandos do poder e do destino, baltazar será então forçado a seguir por caminhos que o levarão ao encontro da bruxaria, da possessão e, finalmente, do remorso.
com um notável trabalho de linguagem que recria poeticamente a língua arcaica e rude do povo, o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe, é uma tenebrosa metáfora da violência doméstica e do poder sinistro do amor.

valter hugo mãe «o remorso de baltazar serapião» QUIDNOVI

o livro será apresentado pelo autor na feira do livro de lisboa no sábado dia 3, às 15h (pequeno auditório) e na feira do livro do porto no sábado dia 10, às 16.30h (café literário).
desenho de Ilda David'


Sou apenas um homem

Sou apenas um homem entre as lápides.
E, quando os mortos murmuram o meu nome,
digo simplesmente que estou aqui,
acendendo as velas,
rezando outra vez, com palavras humildes,
nos altares destruídos.

Desejaria dissipar o sono,
abrir ternamente as blusas de linho,
beijar,
com os lábios comovidos,
cada rosa cálida que nasce dos teus seios.

E aí,
como se procurasse o mel e o vinho do amor,
encontraria a paz que ao longo dos anos
persegui com os olhos muito abertos.

Mas esta névoa, este som de ossos quebrados no cimo dos montes,
renova sempre os sinais da inquietude.


José Agostinho Baptista in. "Esta voz é quase o vento" assírio & alvim

José Agostinho Baptista


"Se às vezes, se em certos casos, a poesia imita a vida e a vida imita a poesia, então talvez cada verso seja uma linha da cabeça, uma linha do coração, uma linha da vida. E então, sonâmbula e feroz, a mão que escreve talvez não faça mais do que construir, palavra sobre palavra, a casa de um homem, a sua história. E a sua voz obscura passará sobre a terra, sobre os anos, completando a obra."

José Agostinho Baptista

O poeta José Agostinho Baptista*, que publicou o primeiro livro há 20 anos, foi recentemente distinguido com o Grande Prémio de Poesia APE/CTT pela obra «Esta voz é quase o vento». O galardão, no valor de cinco mil euros, foi atribuído por maioria do júri constituído por António Osório, José Viale Moutinho, Maria Andresen de Sousa, Nuno Júdice e Paula Cristina Costa.
José Agostinho Baptista, nascido no Funchal a 15 de Agosto de 1948, colaborou em vários órgãos da imprensa escrita, nomeadamente no Comércio do Funchal, República e Diário de Lisboa, cujo suplemento «O Juvenil» o tornou conhecido como poeta. De 1976 até aos dias de hoje publicou 14 títulos, sendo o mais recente, o vencedor do prémio agora anunciado. Considerado pelos críticos como uma das mais originais vozes da contemporânea poesia portuguesa, poetas como António Ramos Rosa, e Fernando Pinto do Amaral dedicaram-lhe vários ensaios. José Agostinho Baptista tem também assinado diversas traduções, designadamente de autores como Walt Whitman, W.B.Yeats, Tennessee Williams ou Paul Bowles,Enrique Vila-Matas, Rabindranath Tagore, Robert Louis Stevenson, Oliverio Macías Álvarez, Malcolm Lowry, entre outros.

Do Autor:

Deste Lado Onde
Assírio & Alvim, 1976
Jeremias o Louco
Centelha, 1978
O Último Romântico
Assírio & Alvim, 1981
Morrer no Sul
Assírio & Alvim, 1983
Autoretrato
Assírio & Alvim, Março, 1986
O Centro do Universo
Assírio & Alvim, 1989
Paixão e Cinzas
Assírio & Alvim, 1992
Canções da Terra Distante
Assírio & Alvim, 1994
Debaixo do Azul Sobre o Vulcão
Edição do autor, 1995
Agora e na Hora da Nossa Morte
Assírio & Alvim, 1998
Biografia
Assírio & Alvim, 2000
Ahora y en la Hora de Nuestra Muerte
Olifante, Ediciones de Poesia, 2001
Anjos Caídos
Assírio & Alvim, 2003
Esta Voz é Quase o Vento
Assírio & Alvim, 2004

*Condecorado pelo Presidente da República com as insígnias de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, Funchal, 1 de Julho de 2001.

The Duchamp code


Marcel Duchamp [Mona Lisa with a moustache] 1919

Há limões


G

A morta estava agora de costas voltada. Com as nádegas perfeitas e brancas junto das mão do coveiro. Nesta posição ele podia ver, os dois cortes transversais, enormes, um de cada lado, atrás dos pulmões: a causa da sua morte.

Delicadamente, percorreu cada mílimetro do comprimento total daquelas feridas, com a ternura possível dos seus dedos encardidos. Para de seguida, enlaçá-la com os braços e preencher o espaço que as suas mãos disponibilizavam para agarrar os seios da morta.

Sentou-se no bordo da cama. Levou a mão ao bolso e retirou de dentro deste um pequeno um pequeno objecto metálico. Aproximou-se de seguida daquele rosto de anjo desmilitarizado, perguntando-lhe ao ouvido:

- Posso? Estás tão fria!

Agarrou-lhe a mão direita - a mais pesada - e descansou-a na palma da mão esquerda. Abriu cuidadosamente um pequeno corta unhas e estendeu-lhe os dedos azuis como um profissional.
- Sabes? Crescem depressa. Crescem mais depressa agora.
Começou então por ouvir-se o tic tic das aparas a semearem o chão. Dedo a dedo. Farpa a farpa.
-Sabes... É preciso cortá-las. Cortá-las rente. Para que parem de crescer. Unha a unha. Agora esta. Agora a outra. E depois os pés. Os pés também... E os meus... As minhas também crescem. Por mais mais que as limpe estão sempre sujas. Tal como os olhos. Não há nada a fazer. É por causa da terra. Tenho de cortá-las rente... Para ver se um dia se cansam. Tenho comichão mas não posso coçá-los. Se os coçar posso perdê-los, foi o que o Médico disse.


Terminada a tarefa de manicuro e pedicuro, o coveiro levantou-se da cama e sacudiu para o chão as últimas lascas que se tinham agarrado à fazenda ruça das calças. Guardou religiosamente no bolso o corta unhas, retirando do mesmo outro objecto: um pequeno frasco azul contendo uma solução desinfectante para doenças de olhos. Levantou o queixo, virou a cabeça para o tecto e, alternadamente, deixou cair sobre cada vista duas gotas do líquido incolor. Pestanejou. Aconchegou a morta aos lençóis. Beijou-lhe a testa de mármore. Pegou na enxada e na candeia e voltou lá para fora, pisando à passagem as sobras das unhas, espalhadas pelo chão, que ao estalar mais se assemelhavam a um cemitério de dedos.
O coveiro transpôs a soleira. Desceu três degraus. Deu trinta e nove passos em direcção aos ciprestes. Parou junto do caixão que, aberto, violado e oco, mimetizava a profundidade da noite.


H

O coveiro subiu três degraus e pisou a soleira.
Os cabelos longos e negros da morta cresciam ainda, alimentados pelos ossos, varrendo o chão de todas as impurezas que lhe insultavam o andar.
Com a morta nos braços, o coveiro abriu o mais que pode os seus grandes olhos infectados. E quando finalmente a deitou sobre o lado virgem da cama, cobrindo metade da morte com um lençol velho e amarrotado, disse para si mesmo:
- Não posso coçá-los. Tenho comichão, mas não posso coçá-los. Se os coçar posso perdê-los.
Ainda vestido e calçado, deitou-se ao seu lado. Afogou-lhe os cabelos com a ponta dos dedos. Aproximou o nariz mal treinado para odores mais intímos a uma das axilas recém-barbeadas da morta. Os seios destapados, gelados e duros, relampejavam no escuro como duas laranjas cobertas de geada. E foi nesse preciso instante - enquanto cheirava o doce e fixava as laranjas - que uma sensação já esquecida e apressada começou a possuir-lhe todo o corpo: ela estava nua, dura, e indefesa ao seu lado; ao contrário, o sangue do coveiro, fervente, revolto e espesso, mostrava-se vivo e confluía todo num trânsito desordenado, a uma só voz, em direcção à mesma artéria, para inflamar o mesmo músculo.
Com uma enorme erecção dentro das calças o coveiro constatou:
-É isto afinal o mundo.
Sandro William Junqueira


Sandro William Junqueira (1974)


Fundador do Grupo de Teatro “A Gaveta”.
Em 2002 publicou o seu primeiro livro “É preciso este silêncio” pela editora Amores Perfeitos.
Tem publicados, nas revistas “Emcena” e “Storm-Magazine”, poemas e contos.
Faz parte do projecto “Ode- Nunca as palavras tiveram tanta música nem a música tantas palavras ”.


Nos próximos dias serão aqui publicados alguns dos seus poemas ainda inéditos, e algumas passagens do seu mais recente romance, " Há limões ", a aguardar publicação.
Almada Negreiros [Mário de Sá-Carneiro]


Álcool

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante
Manhã tão forte que me anoiteceu.

Mário de Sá-Carneiro
Naomi Appleton [lace lady]

Escaravilhoso

Bruno Vasconcelos [ encaixe ] 2005


Los amantes

Harux y Harix han decidido no levantarse más de la cama: se aman locamente, y no pueden alejarse el uno del otro más de sesenta, setenta centímetros. Así que lo mejor es quedarse en la cama, lejos de los llamados del mundo. Está todavía el teléfono, en la mesa de luz, que a veces suena interrumpiendo sus abrazos: son los parientes que llaman para saber si todo anda bien. Pero también estas llamadas telefónicas familiares se hacen cada vez más raras y lacónicas. Los amantes se levantan solamente para ir al baño, y no siempre; la cama está toda desarreglada, las sábanas gastadas, pero ellos no se dan cuenta, cada uno inmerso en la ola azul de los ojos del otro, sus miembros místicamente entrelazados.
La primera semana se alimentaron de galletitas, de las que se habían provisto abundantemente. Como se terminaron las galletitas, ahora se comen entre ellos. Anestesiados por el deseo, se arrancan grandes pedazos de carne con los dientes, entre dos besos se devoran la nariz o el dedo meñique, se beben el uno al otro la sangre; después, saciados, hacen de nuevo el amor, como pueden, y se duermen para volver a comenzar cuando despiertan. Han perdido la cuenta de los días y de las horas. No son lindos de ver, eso es cierto, ensangrentados, descuartizados, pegajosos; pero su amor está más allá de las convenciones.

Juan Rodolfo Wilcock [1919/1978] Argentina

Como compreendo agora as estranhas imagens, dentro das quais coisas de usos limitados e regulares se distendem e se experimentam umas às outras, lascivas e curiosas, estremecendo na imprecisa luxúria da distracção. Estas caldeiras a ferver que se movimentam, estas retortas que têm ideias, e os ociosos funis que se metem num buraco para seu prazer.
E também já lá estão, erguidos pelo nada ciumento, extremidades de corpos e membros entre eles e rostos que para dentro deles expelem o seu vómito quente, e traseiros a soprar, que lhes fazem a vontade.
E o santo verga-se e contrai-se; mas nos seus olhos ainda estava um olhar que isto achava possível; ele olhou nessa direcção. E já os seus sentidos formam um precipitado a partir do claro soluto da sua alma. Já se desfolha a sua oração e sai-lhe da boca como arbusto seco. O seu coração caiu e verteu-se no elemento turvo. As suas disciplinas tocam-lhe ao de leve como uma cauda que enxota moscas. Os seus orgãos genitais estão de novo apenas num só lugar, e quando uma mulher avança, direita, por entre esta aglomeração repugnante, com o peito nu, todo seios, apontam para ela como um dedo.
Houve tempos em que eu achava estas imagens antiquadas. Não por duvidar delas. Podia pensar que isto acontecia aos santos, outrora, a esses zelosos apressados que queriam imediatamente começar pelo próprio Deus a todo o custo. Nós já não temos essa pretenção. Pressentimos que Ele é demasiado difícil para nós, que temos que adiá-Lo, para lentamente cumprir o longo labor que nos separa d'Ele. Agora sei que esse labor é exactamente tão árduo como a busca da santidade; que isto acontece em torno de todo aquele que é solitário por amor a esse labor, tal como se formou outrora em torno dos solitários de Deus nas suas cavernas e nos seus abrigos vazios.

Rainer Maria Rilke