imagem de Lorenzo MattottiO TEU OLHAR
O teu olhar fixou-se
numa nuvem,
um ponto que aumentou imensamente
e te retém ao começo da noite
como se fosse a ameaça
de que talvez conheças a origem num passado
ácido de faces, posso
recomeçar quase tudo levantando
a pedra
final que nos esmaga;
há coisas
que não têm recomeço
Gastão Cruz in. "Repercussão" assírio & alvim
o remorso...

numa idade média brutal e miserável, baltazar serapião casa com a mulher dos seus sonhos e - tal como o pai fizera antes com a mãe e com a vaca, fêmeas irmanadas em condição e estatuto familiar - leva muito a sério a administração da sua educação. mas o senhor feudal, pondo os olhos na jovem esposa, não desiste de exercer sobre ela os seus direitos... entregue aos desmandos do poder e do destino, baltazar será então forçado a seguir por caminhos que o levarão ao encontro da bruxaria, da possessão e, finalmente, do remorso.
com um notável trabalho de linguagem que recria poeticamente a língua arcaica e rude do povo, o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe, é uma tenebrosa metáfora da violência doméstica e do poder sinistro do amor.
valter hugo mãe «o remorso de baltazar serapião» QUIDNOVI
o livro será apresentado pelo autor na feira do livro de lisboa no sábado dia 3, às 15h (pequeno auditório) e na feira do livro do porto no sábado dia 10, às 16.30h (café literário).
desenho de Ilda David'Sou apenas um homem
Sou apenas um homem entre as lápides.
E, quando os mortos murmuram o meu nome,
digo simplesmente que estou aqui,
acendendo as velas,
rezando outra vez, com palavras humildes,
nos altares destruídos.
Desejaria dissipar o sono,
abrir ternamente as blusas de linho,
beijar,
com os lábios comovidos,
cada rosa cálida que nasce dos teus seios.
E aí,
como se procurasse o mel e o vinho do amor,
encontraria a paz que ao longo dos anos
persegui com os olhos muito abertos.
Mas esta névoa, este som de ossos quebrados no cimo dos montes,
renova sempre os sinais da inquietude.
José Agostinho Baptista in. "Esta voz é quase o vento" assírio & alvim
José Agostinho Baptista

"Se às vezes, se em certos casos, a poesia imita a vida e a vida imita a poesia, então talvez cada verso seja uma linha da cabeça, uma linha do coração, uma linha da vida. E então, sonâmbula e feroz, a mão que escreve talvez não faça mais do que construir, palavra sobre palavra, a casa de um homem, a sua história. E a sua voz obscura passará sobre a terra, sobre os anos, completando a obra."
José Agostinho Baptista
O poeta José Agostinho Baptista*, que publicou o primeiro livro há 20 anos, foi recentemente distinguido com o Grande Prémio de Poesia APE/CTT pela obra «Esta voz é quase o vento». O galardão, no valor de cinco mil euros, foi atribuído por maioria do júri constituído por António Osório, José Viale Moutinho, Maria Andresen de Sousa, Nuno Júdice e Paula Cristina Costa.
José Agostinho Baptista, nascido no Funchal a 15 de Agosto de 1948, colaborou em vários órgãos da imprensa escrita, nomeadamente no Comércio do Funchal, República e Diário de Lisboa, cujo suplemento «O Juvenil» o tornou conhecido como poeta. De 1976 até aos dias de hoje publicou 14 títulos, sendo o mais recente, o vencedor do prémio agora anunciado. Considerado pelos críticos como uma das mais originais vozes da contemporânea poesia portuguesa, poetas como António Ramos Rosa, e Fernando Pinto do Amaral dedicaram-lhe vários ensaios. José Agostinho Baptista tem também assinado diversas traduções, designadamente de autores como Walt Whitman, W.B.Yeats, Tennessee Williams ou Paul Bowles,Enrique Vila-Matas, Rabindranath Tagore, Robert Louis Stevenson, Oliverio Macías Álvarez, Malcolm Lowry, entre outros.
Do Autor:
Deste Lado Onde
Assírio & Alvim, 1976
Jeremias o Louco
Centelha, 1978
O Último Romântico
Assírio & Alvim, 1981
Morrer no Sul
Assírio & Alvim, 1983
Autoretrato
Assírio & Alvim, Março, 1986
O Centro do Universo
Assírio & Alvim, 1989
Paixão e Cinzas
Assírio & Alvim, 1992
Canções da Terra Distante
Assírio & Alvim, 1994
Debaixo do Azul Sobre o Vulcão
Edição do autor, 1995
Agora e na Hora da Nossa Morte
Assírio & Alvim, 1998
Biografia
Assírio & Alvim, 2000
Ahora y en la Hora de Nuestra Muerte
Olifante, Ediciones de Poesia, 2001
Anjos Caídos
Assírio & Alvim, 2003
Esta Voz é Quase o Vento
Assírio & Alvim, 2004
*Condecorado pelo Presidente da República com as insígnias de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, Funchal, 1 de Julho de 2001.
Há limões

G
A morta estava agora de costas voltada. Com as nádegas perfeitas e brancas junto das mão do coveiro. Nesta posição ele podia ver, os dois cortes transversais, enormes, um de cada lado, atrás dos pulmões: a causa da sua morte.
Delicadamente, percorreu cada mílimetro do comprimento total daquelas feridas, com a ternura possível dos seus dedos encardidos. Para de seguida, enlaçá-la com os braços e preencher o espaço que as suas mãos disponibilizavam para agarrar os seios da morta.
Sentou-se no bordo da cama. Levou a mão ao bolso e retirou de dentro deste um pequeno um pequeno objecto metálico. Aproximou-se de seguida daquele rosto de anjo desmilitarizado, perguntando-lhe ao ouvido:
- Posso? Estás tão fria!
Agarrou-lhe a mão direita - a mais pesada - e descansou-a na palma da mão esquerda. Abriu cuidadosamente um pequeno corta unhas e estendeu-lhe os dedos azuis como um profissional.
- Sabes? Crescem depressa. Crescem mais depressa agora.
Começou então por ouvir-se o tic tic das aparas a semearem o chão. Dedo a dedo. Farpa a farpa.
-Sabes... É preciso cortá-las. Cortá-las rente. Para que parem de crescer. Unha a unha. Agora esta. Agora a outra. E depois os pés. Os pés também... E os meus... As minhas também crescem. Por mais mais que as limpe estão sempre sujas. Tal como os olhos. Não há nada a fazer. É por causa da terra. Tenho de cortá-las rente... Para ver se um dia se cansam. Tenho comichão mas não posso coçá-los. Se os coçar posso perdê-los, foi o que o Médico disse.
Terminada a tarefa de manicuro e pedicuro, o coveiro levantou-se da cama e sacudiu para o chão as últimas lascas que se tinham agarrado à fazenda ruça das calças. Guardou religiosamente no bolso o corta unhas, retirando do mesmo outro objecto: um pequeno frasco azul contendo uma solução desinfectante para doenças de olhos. Levantou o queixo, virou a cabeça para o tecto e, alternadamente, deixou cair sobre cada vista duas gotas do líquido incolor. Pestanejou. Aconchegou a morta aos lençóis. Beijou-lhe a testa de mármore. Pegou na enxada e na candeia e voltou lá para fora, pisando à passagem as sobras das unhas, espalhadas pelo chão, que ao estalar mais se assemelhavam a um cemitério de dedos.
O coveiro transpôs a soleira. Desceu três degraus. Deu trinta e nove passos em direcção aos ciprestes. Parou junto do caixão que, aberto, violado e oco, mimetizava a profundidade da noite.
H
O coveiro subiu três degraus e pisou a soleira.
Os cabelos longos e negros da morta cresciam ainda, alimentados pelos ossos, varrendo o chão de todas as impurezas que lhe insultavam o andar.
Com a morta nos braços, o coveiro abriu o mais que pode os seus grandes olhos infectados. E quando finalmente a deitou sobre o lado virgem da cama, cobrindo metade da morte com um lençol velho e amarrotado, disse para si mesmo:
- Não posso coçá-los. Tenho comichão, mas não posso coçá-los. Se os coçar posso perdê-los.
Ainda vestido e calçado, deitou-se ao seu lado. Afogou-lhe os cabelos com a ponta dos dedos. Aproximou o nariz mal treinado para odores mais intímos a uma das axilas recém-barbeadas da morta. Os seios destapados, gelados e duros, relampejavam no escuro como duas laranjas cobertas de geada. E foi nesse preciso instante - enquanto cheirava o doce e fixava as laranjas - que uma sensação já esquecida e apressada começou a possuir-lhe todo o corpo: ela estava nua, dura, e indefesa ao seu lado; ao contrário, o sangue do coveiro, fervente, revolto e espesso, mostrava-se vivo e confluía todo num trânsito desordenado, a uma só voz, em direcção à mesma artéria, para inflamar o mesmo músculo.
Com uma enorme erecção dentro das calças o coveiro constatou:
-É isto afinal o mundo.
Sandro William Junqueira

Sandro William Junqueira (1974)
Fundador do Grupo de Teatro “A Gaveta”.
Em 2002 publicou o seu primeiro livro “É preciso este silêncio” pela editora Amores Perfeitos.
Tem publicados, nas revistas “Emcena” e “Storm-Magazine”, poemas e contos.
Faz parte do projecto “Ode- Nunca as palavras tiveram tanta música nem a música tantas palavras ”.
Nos próximos dias serão aqui publicados alguns dos seus poemas ainda inéditos, e algumas passagens do seu mais recente romance, " Há limões ", a aguardar publicação.
Almada Negreiros [Mário de Sá-Carneiro]Álcool
Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.
Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.
Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...
Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...
Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?
Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante
Manhã tão forte que me anoiteceu.
Mário de Sá-Carneiro

Los amantes
Harux y Harix han decidido no levantarse más de la cama: se aman locamente, y no pueden alejarse el uno del otro más de sesenta, setenta centímetros. Así que lo mejor es quedarse en la cama, lejos de los llamados del mundo. Está todavía el teléfono, en la mesa de luz, que a veces suena interrumpiendo sus abrazos: son los parientes que llaman para saber si todo anda bien. Pero también estas llamadas telefónicas familiares se hacen cada vez más raras y lacónicas. Los amantes se levantan solamente para ir al baño, y no siempre; la cama está toda desarreglada, las sábanas gastadas, pero ellos no se dan cuenta, cada uno inmerso en la ola azul de los ojos del otro, sus miembros místicamente entrelazados.
La primera semana se alimentaron de galletitas, de las que se habían provisto abundantemente. Como se terminaron las galletitas, ahora se comen entre ellos. Anestesiados por el deseo, se arrancan grandes pedazos de carne con los dientes, entre dos besos se devoran la nariz o el dedo meñique, se beben el uno al otro la sangre; después, saciados, hacen de nuevo el amor, como pueden, y se duermen para volver a comenzar cuando despiertan. Han perdido la cuenta de los días y de las horas. No son lindos de ver, eso es cierto, ensangrentados, descuartizados, pegajosos; pero su amor está más allá de las convenciones.
Juan Rodolfo Wilcock [1919/1978] Argentina

Como compreendo agora as estranhas imagens, dentro das quais coisas de usos limitados e regulares se distendem e se experimentam umas às outras, lascivas e curiosas, estremecendo na imprecisa luxúria da distracção. Estas caldeiras a ferver que se movimentam, estas retortas que têm ideias, e os ociosos funis que se metem num buraco para seu prazer.
E também já lá estão, erguidos pelo nada ciumento, extremidades de corpos e membros entre eles e rostos que para dentro deles expelem o seu vómito quente, e traseiros a soprar, que lhes fazem a vontade.
E o santo verga-se e contrai-se; mas nos seus olhos ainda estava um olhar que isto achava possível; ele olhou nessa direcção. E já os seus sentidos formam um precipitado a partir do claro soluto da sua alma. Já se desfolha a sua oração e sai-lhe da boca como arbusto seco. O seu coração caiu e verteu-se no elemento turvo. As suas disciplinas tocam-lhe ao de leve como uma cauda que enxota moscas. Os seus orgãos genitais estão de novo apenas num só lugar, e quando uma mulher avança, direita, por entre esta aglomeração repugnante, com o peito nu, todo seios, apontam para ela como um dedo.
Houve tempos em que eu achava estas imagens antiquadas. Não por duvidar delas. Podia pensar que isto acontecia aos santos, outrora, a esses zelosos apressados que queriam imediatamente começar pelo próprio Deus a todo o custo. Nós já não temos essa pretenção. Pressentimos que Ele é demasiado difícil para nós, que temos que adiá-Lo, para lentamente cumprir o longo labor que nos separa d'Ele. Agora sei que esse labor é exactamente tão árduo como a busca da santidade; que isto acontece em torno de todo aquele que é solitário por amor a esse labor, tal como se formou outrora em torno dos solitários de Deus nas suas cavernas e nos seus abrigos vazios.
Rainer Maria Rilke

Minha morta viva
Na minha dor nada se move
Estou à espera ninguém virá
Nem de noite nem de dia
Nem jamais do que fui eu próprio
Meus olhos separaram-se dos teus e perdem
a confiança perdem o briho que tinham
Minha boca separou-se da tua boca
de prazer e do sentido
do amor e do sentido da vida
estas mãos separaram-se das tuas e não seguram
nada
Os meus pés separaram-se dos teus
não andarão mais não há mais caminho
deixaram de sentir o peso e o repouso que lhes dava
É-me dado a ver a minha vida
esvair-se com a tua
a tua que por ser seu poder
me faz julgar infinita a minha
E o porvir minha única esperança é minha tumba
semelhante à tua cercada por um mundo sem calor
Estava tão proximo de ti que junto dos outros sinto frio.
Paul Éluard in. "Últimos Poemas de Amor" relógio d'água

O que faz com que amemos alguém ? O que nos move no labirinto das relações humanas? Que segredos se ocultam entre o impulso da vida e a certeza da morte? de que matéria somos feitos no ritmo absurdo de sensações ou sentimentos tão fugazes como o desejo, o medo, a paixão, o orgulho, a amizade ou a isso a que continuamos a chamar o amor? Onde haverá ainda uma saída?
Neste conjunto de 18 narrativas por vezes estranhamente intrigantes, Fernando Pinto do Amaral percorre esse espectro de emoções e interroga os seus mistérios numa escrita intensa, em que o lirismo e ironia se misturam para criar uma atmosfera cujas personagens se recortam num horizonte nem sempre realista, mas talvez apto a permitir-nos " a miragem de uma fuga ou a ilusão de um reencontro com uma verdade perdida".
Fernando Pinto do Amaral
"Área de Serviço e outras histórias de amor" Dom Quixote
escutar...

Este bastão é um piano que viaja para dentro
e para baixo,
com saltos alegres.
Depois medita em ferrado repouso,
cravado com dez horizontes.
Avança. Arrasta-se debaixo de túneis,
mais adiante, debaixo de túneis de dor,
debaixo de vértebras que fogem naturalmente.
Outras vezes as suas trompas movem-se,
lentas ânsias amarelas de viver,
movem-se como eclipse,
e em si catam pesadelos de insectos,
já mortas para o trovão, arauto dos génesis.
Piano escuro, a quem espias com a tua surdez que me ouve, com a tua mudez que me ensurdece?
Oh, pulsar misterioso.
César Vallejo (1892/1937)
imagem: Matt SewellSensação
No azul das tardes de verão, irei pelos caminhos
Tracejado pelos trigos, pisar a erva tenra:
Sonhante, sentirei a meus pés sua frescura.
Deixarei o vento banhar-me a cabeça nua.
Não falarei - pensarei em nada:
Mas um amor infinito subir-me-á na alma, e eu
Irei longe, bem longe, como um cigano, feliz
Pela Natureza -, na companhia da mulher sonhada.
Arthur Rimbaud in. "O Rapaz Raro" relógio d'água

Na caixa da ferramenta do poeta
a nostalgia é o instrumento
duma lassidão crepuscular
assasina do dia
A memória
é um conservatório de combates
mais ou menos arrumados
mais ou menos diferidos
para a caixa dos conceitos
Obscuro simulcro do real
sombra desmaiada
emergindo cada vez mais lenta
a nostalgia é o adeus da paixão
Ana Hatherly
Imagem: [the propelled heart] Graig La Rotonda
David Cronenberg...
No prelo # 3

C. Baudelaire - A Invensão da Modernidade - relógio d'água
Clarice Linspector - Contos Reunidos - relógio d'água
Ana Teresa Pereira - Histórias Policiais - relógio d'água
Wallace Stevens - Harmónio - relógio d'água
Gonçalo M. Tavares - água, cão, cavalo, cabeça - caminho
F. Dostoiévski - Coração Fraco e outras Histórias - presença
Samuel Beckett - Mal Visto, Mal Dito - Quasi
Boris Vian por Boris Vian - Fenda
Manuel de Freitas - Cretcheu/Futebol Clube - assírio & alvim
Pier Paolo Pasolini - Escritos Corsários, Cartas Luteranas - assírio & alvim

Tão Longe
Desta memória eu quereria dizer...
Tão apagada agora... quase nada resta
porque ficou tão longe, nos meus anos primeiros de ser homem.
Uma pele como de jasmim... Na noite
de Agosto... Era de Agosto?... Mal relembro
os seus olhos... Eram, suponho, azuis...
Ah sim, azuis. Azuis como safira.
Kontandinos Kavafis
Retrato da Centopeia / W. S. Burroughs
Poeira de vidro cobre-lhe a cabeça. Puto-Centopeia larga um rasto de palavras sorvadas nas pálpebras do ano 70.O tinteiro das alucinações abre-se, entorna-se, e um abutre esvoaça por cima do papel. A noite refaz-se a partir da palavra noite. E a cidade afunda-se numa canção repetida em surdina.
O Puto-Centopeia escancara a boca, o ar estilhaça. A mão põe-se a esgravatar no pulmão da escrita.
O Puto, o Puto-Aranha, desce do tecto. Respira na teia dos dedos. Espalha-se pelo quarto o fumo enjoativo do ópio.
A parede oscila. Brilham os néons das cidades contaminadas.
Seis da manhã. Luz suja, morta. Chuva ácida. Restos de jornais molhados. Descobriram uma criança morta num caixote de lixo.
Bill toca-lhe o ventre. A criança ressuscita.
Madrugada peganhenta flutuando no vento das lixeiras.
O tempo afunda-se numa ilha de cinza. Caminhamos.
Em cima da mesa de cabeçeira o ar vibra, torna-se sólido. Estendo a mão, agarro a cabeça transparente de Bill. Guardo-a na ferida sanguinolenta do peito.
O Puto-Centopeia sorri em forma de coração.
Cabine telefónica estanque. Um corpo oscila no clorofórmio. A dor esvai-se, os dedos marcam números.
Onde viverá o último desejo?
Contra o vidro da cabeça ecoa um grito.
Bill-Língua-Morta rasteja com o sexo nas fissuras do asfalto.
Revólver. Dedo. Olho. Bala. Crânio luminoso que ascende.
Exterminar torna-se cansativo, dizes.
De pé, junto ao lavatório dum filme de série B, esmagas a beata no sabonete.
Sono: sémen escorrendo de um para o outro. Mão aberta.
A centopeia do ombro move-se em direcção à veia. Garrote improvisado, cem patas de veneno letal.
O Puto-Seringa ri convulsivamente.
Silhuetas atravessam o deserto. Multiplicam-se à roda das fogueiras. Na fricção dos sexos reproduzem-se.
Da penumbra dos corpos emaranhados ergue-se o Puto-Chacal: demolir as ruas numeradas, as avenidas que terminam nos cemitérios de lata. Violar os chuis que arreganham o dente. Devastar.
Estrela morta nas têmporas.
Destruídas as engrenagens de abastecimento à cidade os putos selvagens regressam à mente. Mortos- mortos sem dúvida por não existirem ainda.
Ilumina-se a cabeça do fantasma de Bill. Ouve-se a voz gravada dos poucos sobreviventes.
Corri para fora do ano 70. Nenhum amanhã, nem mesmo o suicídio.
O Puto-Centopeia envelheceu. Vive hoje retirado na Grande Casa do Cogumelo. À beira da lucidez eterna.
É tempo de recomeçarmos a jogar nos mil e um flippers deste fim de século.
Al Berto in. " O Anjo Mudo " assírio & alvim
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Bruno Vasconcelos 

























