No prelo # 3


C. Baudelaire - A Invensão da Modernidade - relógio d'água

Clarice Linspector - Contos Reunidos - relógio d'água

Ana Teresa Pereira - Histórias Policiais - relógio d'água

Wallace Stevens - Harmónio - relógio d'água

Gonçalo M. Tavares - água, cão, cavalo, cabeça - caminho

F. Dostoiévski - Coração Fraco e outras Histórias - presença

Samuel Beckett - Mal Visto, Mal Dito - Quasi

Boris Vian por Boris Vian - Fenda

Manuel de Freitas - Cretcheu/Futebol Clube - assírio & alvim

Pier Paolo Pasolini - Escritos Corsários, Cartas Luteranas - assírio & alvim

Tão Longe
Desta memória eu quereria dizer...
Tão apagada agora... quase nada resta
porque ficou tão longe, nos meus anos primeiros de ser homem.
Uma pele como de jasmim... Na noite
de Agosto... Era de Agosto?... Mal relembro
os seus olhos... Eram, suponho, azuis...
Ah sim, azuis. Azuis como safira.

Kontandinos Kavafis
Mel Ramos [ VELVEETA ] 1965

Retrato da Centopeia / W. S. Burroughs

Poeira de vidro cobre-lhe a cabeça. Puto-Centopeia larga um rasto de palavras sorvadas nas pálpebras do ano 70.
O tinteiro das alucinações abre-se, entorna-se, e um abutre esvoaça por cima do papel. A noite refaz-se a partir da palavra noite. E a cidade afunda-se numa canção repetida em surdina.
O Puto-Centopeia escancara a boca, o ar estilhaça. A mão põe-se a esgravatar no pulmão da escrita.
O Puto, o Puto-Aranha, desce do tecto. Respira na teia dos dedos. Espalha-se pelo quarto o fumo enjoativo do ópio.
A parede oscila. Brilham os néons das cidades contaminadas.

Seis da manhã. Luz suja, morta. Chuva ácida. Restos de jornais molhados. Descobriram uma criança morta num caixote de lixo.
Bill toca-lhe o ventre. A criança ressuscita.
Madrugada peganhenta flutuando no vento das lixeiras.
O tempo afunda-se numa ilha de cinza. Caminhamos.
Em cima da mesa de cabeçeira o ar vibra, torna-se sólido. Estendo a mão, agarro a cabeça transparente de Bill. Guardo-a na ferida sanguinolenta do peito.
O Puto-Centopeia sorri em forma de coração.

Cabine telefónica estanque. Um corpo oscila no clorofórmio. A dor esvai-se, os dedos marcam números.
Onde viverá o último desejo?
Contra o vidro da cabeça ecoa um grito.
Bill-Língua-Morta rasteja com o sexo nas fissuras do asfalto.

Revólver. Dedo. Olho. Bala. Crânio luminoso que ascende.
Exterminar torna-se cansativo, dizes.
De pé, junto ao lavatório dum filme de série B, esmagas a beata no sabonete.
Sono: sémen escorrendo de um para o outro. Mão aberta.
A centopeia do ombro move-se em direcção à veia. Garrote improvisado, cem patas de veneno letal.
O Puto-Seringa ri convulsivamente.

Silhuetas atravessam o deserto. Multiplicam-se à roda das fogueiras. Na fricção dos sexos reproduzem-se.
Da penumbra dos corpos emaranhados ergue-se o Puto-Chacal: demolir as ruas numeradas, as avenidas que terminam nos cemitérios de lata. Violar os chuis que arreganham o dente. Devastar.

Estrela morta nas têmporas.
Destruídas as engrenagens de abastecimento à cidade os putos selvagens regressam à mente. Mortos- mortos sem dúvida por não existirem ainda.
Ilumina-se a cabeça do fantasma de Bill. Ouve-se a voz gravada dos poucos sobreviventes.
Corri para fora do ano 70. Nenhum amanhã, nem mesmo o suicídio.

O Puto-Centopeia envelheceu. Vive hoje retirado na Grande Casa do Cogumelo. À beira da lucidez eterna.
É tempo de recomeçarmos a jogar nos mil e um flippers deste fim de século.

Al Berto in. " O Anjo Mudo " assírio & alvim

Quero acreditar...

Henri Cartier-Bresson [ Boulevard Diderot ] 1969
chegaste donde o medo tecia os meus cabelos
donde os pássaros ardiam a voz
donde só o silêncio se desconhecia

era tão larga a morte
que não se podia ver dos meus olhos

chegaste quando o fim sangrava dos meus braços
a casa soterrou-me dos teus passos
terra de mim todo
chegaste pelo coração de água da noite
quando o mistério escorre em gritos pelos telhados
e Deus se desabita

chegaste tão de dentro de mim mesmo
que agora que a morte me nasce na garganta
a noite e o meu rosto são alguém
que eu próprio desconheço

Pedro Sena-Lino

Na noite, no silêncio...
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura.
...

Herberto Helder
I know that I shall meet may fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan's Cross,
My countrymen Kiltartan's poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.
W. B. Yeats

evolução, n. Em política, uma alteração abrupta da forma de desgoverno. As revoluções são normalmente acompanhadas por uma efusão de sangue assinalável, mas considera-se que isso vale a pena - sendo esta a opinião dos beneficiários que não tiveram o azar de derramar sangue.
Se um dia o meu coração
tornasse a amar outra vez
queria dizer-lhe que não
por todo o mal que que já fez

Se um dia esta alma vencida
voltasse a nascer em mim
preferia acabar com a vida
do que viver sempre assim

Se nesse dia fatal
pudesse encontrar alguém
cujo o olhar fosse um sinal
só meu e de mais ninguém

diria que estava louco
ou que perdi a razão
e tudo seria pouco
pra matar essa ilusão

Mas se entretanto a saudade
for mais forte do que eu
talvez me falte a vontade
de esquecer quem me esqueceu

e ficarei outra vez
nas mãos de quem não merece
como se o mal que me fez
fosse um bem que Deus me desse

Fernando Pinto do Amaral
Amo o mar
porque não tem fim

e os vagabundos que não têm pilim

Mas pelo meio das formas
e das aparências sem fundo
parecendo que amo o mundo
amo-me sobretudo a mim

Talvez venha a querer ao mar
ou vagamente a um vagabundo

talvez os ame no fundo

Mas no rodar infindo
daquilo que não tem fim
quero-me principalmente a mim

Ao resto das formas
e das aparências do mundo
amo só assim-assim

João Habitualmente
Pedro Almodóvar [ Volver ] 2006

FUGA

Fugir-te .
Mas não hoje - hoje não.
Tenho de preparar-me
para o galope branco da fuga

Não posso dizer-me: parto agora
e partir, pronto.
Pensando que ia, teria ficado todo para trás

Pouco posso contra o teu universo.
Não sou Bogart, não sou Brando
não lutaria por uma ideia política.
Pouco posso - talvez um verso.
Ontem ainda teria ido a tempo.
Oferecia-te a flor que me pedes desde o início
fingiria gostar de animais
e, claro, iríamos ao cinema.
Devia ter convivido mais com o teu Bogart, com o teu Brando.
Devias ter tido o cuidado de investigar a atitude dos príncipes
as certezas dos guerreiros
mas quando cheguei
já o teu universo estava repleto

E agora posso pouco - nem mesmo um verso
Hoje não. Mas quando puder
partirei no primeiro barco.
Procuro o sítio ínfimo
onde os melros se matam sozinhos.

FOGO

De que valem o certo e o regular?
E o chão liso, um tapete pra andar?
Não vou a passo - antes quero correr

És o fósforo e a chama
se quisesse fugia - prefiro arder

João Habitualmente in. "Os Animais Antigos"
Laurie Lipton [ Love Bite ]
da minha janela vê-se uma espécie muito rara de angústia
tem o corpo que não ousei que me fosse
usa o amor como origem da sede
e sossega-me contra o peito da alvorada

da minha janela vê-se uma espécie única de medo
chama-se eu mas diz-se tu
e por vezes nós quando prende a vida
a algo tão falível como a vida

da minha janela não se vê mais nada
ouve-se o silêncio contra mim
e chove a morte contra os vidros
por dentro como soa o fim

David's Cow

David Lynch - Eat my fear

Novelas e textos para nada

São bisbilhotices interiores estas maravilhosas concentrações, cheias dos rabos e dos cabelos de muitas outras histórias e pessoas de Beckett; dos pés de pensamento ímpios e criminosamente curiosos; dos cheiros de folhas entretanto secas e doutras que não viriam sequer a ser escritas ou mencionadas. Obtém-se do leitor perplexo uma portentosa embriaguez de tantas possibilidades ora líricas, ora cómicas, logo tornadas "todas" ao mesmo tempo, só para chatear. Procurando mal e depressa, toda a obra dele está aqui; esteve aqui; nunca mais daqui saiu. Mas seria pena procurar assim.

Samuel Beckett " Novelas e Textos para Nada " assírio & alvim

O amor é o amor

O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos - somos um? somos dois?-
espírito e calor!

O amor é o amor - e depois?!

Alexandre O'Neill in. "Poesias Completas" assírio & alvim

Peter Handke

Numa noite escura saí da minha casa silenciosa é uma história misteriosa, onde o real e o imaginário se cruzam. Num dia de chuva e sem motivo aparente, o farmacêutico de Taxham, nos arredores de Salzburgo, empreende uma longa viagem em direcção ao imprevisto e à aventura, desde a Áustria até à Andaluzia.Parte com dois companheiros ocasionais e mudo, mas regressa sozinho e sereno, depois de um percurso aparentemente arbitrário.
Peter Handke aproveita os versos do poeta espanhol San Juan de la Cruz, que dão origem ao título deste romance, para nos levar numa viagem ao desconhecido. Um périplo aos medos, fantasmas e solidões que assombram os homens, numa narrativa entre o mágico e o real.
Uma viagem, afinal, ao interior de nós próprios, característica da obra de Peter Handke.
A angústia do guarda-redes no momento do penalty, Uma breve carta para um longo adeus, A mulher canhota, A hora da sensação verdadeira e A tarde de um escritor são algumas das suas obras mais conhecidas, já traduzidas para português. Escreveu ainda o argumento do filme, As asas do desejo realizado por Wim Wenders.

Peter Handke "Numa noite escura saí da minha casa silenciosa" casa das letras

No Gira...

Chet Baker [ the touch of your lips ] 1979
Eu não sabia que sabia esta coisa já sabida :
contigo a vida, até o sexo, pode ser coisa divertida.
Sabia, afinal, ou não sabia, como aquela personagem

do livro das Façanhas, que mal abrisses
um pouco os teus braços, eu iria, qual Ulisses,
atirar-me para dentro da tua imagem?

Agora esperei por ti décadas , séculos, todo um milénio
mas amanhã, se o dia se fragmentar como em mim,
tu já não serás o corpo que me deu oxigénio
e eu não voltarei a escrever um poema assim.

Helder Moura Pereira in. "A tua cara não me é estranha"

Idade Adulta

No reverso dos anos já não sei
de que matéria é feito um coração:
desejo e medo, orgulho e agonia
ardendo em labaredas cada vez
mais frias. As metáforas
servem-me já de pouco, são brinquedos
sepultados bem fundo entre estilhaços
de uma estrela que eu vi cair do céu.

Como era bom sofrer quando alguém me fazia sofrer,
como era clara a escuridão do mundo
reflectida no espelho deste corpo,
no cristal ainda puro dessas lágrimas
tão absolutamente necessárias
à minha vida insone,
ao naufrágio dos sonhos que alguém destruía
e que pareciam sempre disfarçados
de sinais do destino.

No avesso dos anos fui crescendo,
fui conseguindo decifrar as máscaras,
o seu extenso alfabeto de paixões,
todo esse repertório de anjos e demónios.

Por isso, finalmente,
passei de vítima a verdugo,
tornei-me um aprendiz bem sucedido
na arte da tortura
e o coração que sofre já não é o meu.

Sei agora que o crime não compensa
que o preço será sempre demasiado
e que a estranha moeda em que o tento pagar
vai perdendo o valor todos os dias.

À passagem dos anos é difícil
colher ainda as "flores do mal" ,
respirar o seu cheiro,
alimentar de sangue outra vez meu
essa hidra infiel a que chamamos
alma,
esse vírus mutante viciado
em fascínios e mágoas e remorsos
- imitações das máscaras de Deus.

Fernado Pinto do Amaral in. "Pena Suspensa" Dom Quixote
imagem: Lorenzo Mattoti [confesion]
Invisível não é só o que ainda não está visível, é também o que nunca será visível mas cuja posição pode ser contornada perfeitamente pelos limites do visível, como o cheio e o vazio num todo, isto é: o invisível é a descoberta feita pelo visível.
No olhado primeiro, anterior a visto, no ingénuo, o visível e o invisível estão confundidos um com o outro, e se a sabedoria reflectida do visto os distingue, isto não é ainda tudo, falta ainda o que o ingénuo, tal qual, seja levado a fim, que não fique vencido e convencido pelo exacto do visível que o ultrapasse e entre nas contas onde o visível e o invisível são um e o mesmo, como quando chegámos pela primeira vez à Natureza, ingénuos: com a sabedoria sagrada que não prevê a sabedoria reflectida por não a necessitar.
Sabedoria reflectida porque nela a Luz é a Sabedoria mesma, a sagrada, esta que cada pessoa recebe inteira e unicamente pela sua legítima ingenuidade, precisamente a que tem olhos e não vê, a que tem ouvidos e não ouve.

Almada Negreiros

Truffaut X 4

1983
1981
1964
1960
ambos editados pela costa do castelo

Narciso



Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
cujo silêncio esfíngico eu bem ouço!...
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
numa fronte a suar melancolia!...

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
noite de amor em que me goze e tenha,
... Lá no fundo do poço em que me espelho!

José Régio

pintura : narcissus de Caravaggio

ZERKALO

Andrei Tarkovsky - 1975

Com o Espelho, o lendário cineasta russo Andrei Tarkovsky realiza talvez o seu filme mais envolvente e mais profundo. O que começou por ser para Tarkovsky um plano para uma série de entrevistas com a sua mãe, transformou-se numa meditação lírica e complexa sobre o amor, a lealdade, as memórias e a história. Trata-se de uma surpreendente confisão da sua própria vida, como um espelho quebrado, intercalando memórias de uma infância sofrida com realidades adultas e resultando numa autobiografia abstracta e numa evocação à inocência da infância. As memórias de Tarkovsky e da sua mãe entrelaçam-se e desenrolam-se no periodo que antecede à segunda Guerra Mundial e uma Rússia sumptuosa e de sonho é evocado pela voz do pai de Tarkovsky ( Arseny Tarkovsky), recitando a sua própria poesia elegíaca. A natureza sempre em mudança é captada pela câmara de Tarkovsky como que por magia. Um filme radioso e sublime que pode ser encarado como o trabalho de um homem que encontrou a sua voz e que aprendeu a expressar-se na sua própria forma mais poderosa.

"Cada momento passado juntos
era uma celebração, uma Epifania,
nós os dois sozinhos no mundo.
Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
descias numa vertigem a escada
a dois e dois, arrastando-me
através de húmidos liláses, aos teu domínios
do outro lado, passando o espelho."

Arseny Tarkovsky in. " 8 ícones " assírio & alvim

O Senhor Borges

Epifanía Uveda de Robledo, Fanny, trabalhou na casa da família Borges desde os começos da década de 1950 até Maio de 1986. Poucos meses antes, Borges tinha partido com Maria Kodoma para a Europa, estabelecendo-se na cidade de Genebra, onde morreu.
Durante mais de trinta anos, esta mulher sóbria e abnegada foi, nas palavras do próprio Borges, "a sua fiel servidora". Exeptuando a sua mãe, Leonor de Acevedo, Fanny foi a pessoa que durante mais tempo conviveu com ele, e conheceu as suas rotinas, as suas manias, as suas alegrias e os seus pesares. Estas páginas revivem as facetas mais diversas da existência do escritor: o seu malogrado casamento com Elsa Asteta, a dolorosa perda da sua mãe, as visitas de amigos entre os se contava nomes-chave da cultura da época, a tensa espera de cada ano, quando se anunciava o ganhador do Prémio Nobel( que nunca lhe foi concedido) e o amor por uma mulher que alegrou os seus dias no princípio dos anos oitenta, entre muitos outros factos e anedotas, alguns insuspeitos outros conhecidos.

Alejandro Vaccaro, profundo investigador da vida e obra de Borges, outorga ao revelador relato de Fanny o contexto e a referência necessários que fazem de O Senhor Borges um livro imprescindível para conhecer a intimidade do escritor mais notório e polémico da literatura argentina e, sem dúvida, um dos grandes autores universais de século XX.

Jorge Luís Borges morreu e 14 de junho de 1986, cumprindo-se pois este ano vinte anos do seu desaparecimento.

Epifanía Uveda de Robledo, Alejandro Vaccaro "O senhor Borges" , Teorema
Victor Vasarely [ Lang ] 1979

As impensáveis portas da ilusão

O que é que leva o meu barco
para esta praia
onde um poder esquivo
se contenta
com a ambígua oferta de palavras?

Estamos aqui
no exíguo barco de desejos
exibidos
na frágil singularidade do verbo

Insatisfeitos sempre
aguardamos
que se abram
as inpensáveis portas da ilusão.

Ana Hatherly in. " O Pavão Negro " assírio & alvim
Salvador Dali [ ant face ]

Quero...

Quero
nos teus quartos forrados de luar
onde nehum dos meus gestos faz barulho
voltar.
E sentar-me um instante
na beira da janela contar os astros
e olhando para dentro contemplar-te,
tu dormindo antes de jamais teres acordado
tu como um rio adormecido e doce
seguido a voz do vento e a voz do mar
subindo as escadas que sobem pelo ar.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919/2004)

Poema do gato

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.

Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quado abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.

Repito a festa,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,
rosna, deliquescente,
abraça-me
e adoremece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

António Gedeão
Fotografia de Francisca Moreira
Billy Wilder - 1950

Arte Poética


Olhar o rio que é de tempo e água
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
e que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sono
que sonha não sonhar e que a morte
que teme a nossa carne é essa morte
de cada noite, que se chama sono.

Ver no dia ou até no ano um símbolo
quer dos dias do homem quer dos anos,
converter a perseguição dos anos
numa música, um rumor e um símbolo,

Ver só na morte o sono, no ocaso
um triste ouro, assim é a poesia
que é imortal e pobre. A poesia
volta como a aurora e o ocaso

Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
chorou de amor ao divisar Ítaca
verde e humilde. A arte é essa Ítaca
de verde eternidade e não prodígios

Também é como o rio interminável
que passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.

Jorge Luis Borges (1899/1986)

A Esfinge

Ah, que não penso eu como quem pensa
que viver muito é atordoar-se bem!
Pus-me a um cantinho, e achei a vida imensa.
Pode um só passo andar bem mais que cem...

Fitei o Sol de cara e a noite densa,
mas só a mim fixei - que a mais ninguém.
Já não concebo angústia que me vença,
que até vencido vencerei também.

Cruzei os braços sobre o peito. E quedo,
passeio sobre a areia a arder parada
nem sei que olhar subtil, vazio, mudo.

Abrem-me... em vão! Sou oco e sem segredo.
Falar?!... Porque falar, se não sei nada?
Comtemplo, calo, fico... e entendo tudo.

José Régio(1901/1969) in. "Cântico Negro" edições Quasi

Da cidade nervosa

Da dinâmica cidade nervosa de Barcelona chegam-nos as crónicas jornalísticas de Enrique Vila-Matas, mestre de um género que combina o paradoxo com a ironia, sempre imbuído de um sentido da cultura muito pessoal.
O capítulo que compõe a primeira das quatro partes deste volume pode ser lido como um livro de relatos, pois cada uma das crónicas possui entidade de história. Na segunda parte encontramos um extenso texto inédito, "Mastroianni-sur-Mer", onde o autor, além de analisar as relações entre cinema e literatura, revela a surpreendente origem da sua vocação literária, estreitamente ligada à figura do actor italiano Marcelo Mastroianni. Na terceira, "Um tapete que se espalha em muitas direcções", Vila-Matas reflecte em torno das vicissitudes anteriores e posteriores à publicação de Bartleby e Companhia e da construção da original estrutura deste livro. Finalmente a quarta e última parte, "Escritos Shandys", recolhe alguns dos mais importantes artigos e ensaios literários publicados na imprensa nacional e estrangeira.

" escrever é corrigir a vida, é a única coisa que nos protege das feridas e dos golpes da vida "

Enrique Vila-Matas " Da cidade nervosa " Campo das letras

A.



Sempre que penso em ti estás a dançar levemente num clima de canela despenteada, ó aroma vagaroso, desórdem aérea, mas a memória tem pressa, o sangue tem pressa interna, e antes de pensar tremo, e depois tremo, pelo meio desenvolve-es o pavor de uma beleza maiúscula, o coração corre entre iluminuras rápidas, é uma criança sucessiva nas pautas da musica, assim escrevo uma nação simultânia, desapareces na respiração do teu vestido, entretanto a revelação anuncia-se pelo medo, curvas-te como as aldeias devoradas pela lua, mais tarde sempre que penso em ti estás com um lenço escrito nas duas mãos, e a tua velocidade abranda junto aos espelhos, expandes-te assim lentamente gravada, és uma floresta de silêncios visíveis, sempre que penso penso sempre ao contrário do fim, estás cada vez mais no princípio de ti mesma, então vejo que nesse lugar é o meu começo eterno, quando danças é um corpo rodeando a brancura rodeada ou de novo qualquer coisa criminal entre o cuidado e o espaço, nas linhas puras da solidão arde a cabeça, arde o vento, atrás de ti as imagens assassinas da noite- estrelas: subversão da noite, sempre que penso em ti danço até à ressurreição do tempo.

Herberto Helder in. " Os animais carníveros "
" As cabras e o modo como se aproximam de um fio de erva podem preencher todo o cérebro de uma pessoa inteligente, mesmo que tal facto se passe às sete da tarde. A Natureza não abana com os nossos sustos, a não ser a parte da natureza que o nosso corpo representa. Uma cabra a pastar, uma vaca a pastar, uma ovelha a pastar. E ainda as ervas, e o leve vento que passa por elas. Muitas coisas acontecem na natureza. Com tanta erva e animal a pastar, para quê procurar diversão nas cidades? "

Gonçalo M. Tavares