RESTAURAÇÃO
Risquei o último fósforo
e estou agora vazia,
não esperando sequer
o deserto. Posso de novo
sublinhar os livros
sem pensar noutros olhos,
numa vontade que não coincida;
como quem se despe
de portas abertas, luzes acesas,
buracos na roupa,
indiferente ao desejo
de vizinhos e espelhos.
Sou finalmente o único fantasma
da minha vida inteira.
Inês Dias, in "Um raio ardende e paredes frias" averno, 2013
SONHANDO DANÇAS, VÍGIL MARCAS PASSO.
Vivendo dormes, vives se adormeces
Na caixinha de música em que esqueces
Como um velho, sobre o éter do bagaço.
Oh, em ti rodopias, pobre piasca,
Que sonhas teu compasso visionário,
A falsa valsa, o baile imaginário
Nos clássicos salões da tosca tasca.
E abraços tantos são em que te abraças
Que em sonho lasso o abraço lhe prolongas;
Em aguardente imerso o capitão
Assim aceita os braços de outras braças.
A vida... Porque nela te delongas?
A vida cabe toda num caixão.
Daniel Jonas, in "Nó" assírio & alvim, 2014
brevemente
Paul Celan "Não Sabemos mesmo O Que Importa – Cem Poemas" relógio d'água, 2014
trad. Gilda Lopes Encarnação
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