ISTO É O MEU CORPO
O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve
O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?
Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar.
José Tolentino Mendonça, in "Estação Central" assírio & alvim, 2012
Em «A Poesia do Pensamento», George Steiner apresenta-nos uma profunda análise da relação entre a filosofia ocidental e a sua linguagem. De forma precisa e pormenorizada, Steiner analisa mais de dois milénios de cultura ocidental, entrelaçando filosofia e literatura. O resultado evidencia que em toda a filosofia existe literatura oculta. Steiner acredita que «o génio poético do pensamento abstracto se ilumina, se torna audível. O próprio raciocínio analítico tem o seu ritmo percussivo. Torna-se ode. Haverá melhor expressão dos andamentos finais da Fenomenologia de Hegel do que o non, rien de rien de Edith Piaf, uma dupla negação que Hegel teria apreciado? Este ensaio é uma tentativa de escutar melhor», um esforço do autor para integrar tudo o que até hoje escreveu sobre cultura.
George Steiner "A Poesia do Pensamento – do Helenismo a Celan" relógio d'água, 2012
trad. Miguel Serras Pereira
brevemente na sistema solar
«Neste continente, e com gente civilizada de um século XX quase a meio, houve campos de concentração. Berlim sonhava uma Europa ariana e de supremacia germânica num espaço geográfico onde viviam nove milhões de judeus, todos a mais. Em 1903, quando Irma Irina nasceu em Kiev, a família Nemirowsky (com um nome forte na alta finança do país) falava sobretudo francês. O seu pai Leonid chamava-lhe «ma petite», dava-lhe a companhia e as lições de uma preceptora francesa, e nas histórias da sua infância a Gata Borralheira apareceu-lhe como Cendrillon, e a CapuchinhoVermelho como Petit Chaperon Rouge. No romance «David Golder» o judeu sabe que deve sempre "recomeçar" e muitas vezes terá, talvez, de fazê-lo. Leonid estava a "recomeçar", e poucos anos mais tarde voltaria a ser um abastado banqueiro; passaria a ser «monsieur» Léon, a sua mulher Anna passaria a ser «madame» Fanny, e Irma Irina, claro está, «mademoiselle» Irene; continuavam a comunicar uns com os outros em francês, como já antes faziam, mas agora no país certo; e adquiriam os costumes e os comportamentos da alta burguesia de Paris. Irene frequentava a Sorbonne num curso de letras, e uma conceituada escola de dança. No dia 17 de Julho de 1942, Irene Nemirowsky [1903-1942] estava entre os 928 judeus metidos em vagões para transporte de gado, com palha no chão e um balde com água, num comboio que durante três dias e duas noites atravessou a França, a Alemanha e a Polónia até Auschwitz. Chegadas ao destino, as mulheres foram separadas dos homens, entregaram jóias e alianças de casamento, foram rapadas, tomaram um banho de chuveiro com água fria e vestiram batas às riscas. No dia seguinte tiveram um número tatuado no pulso. Irene Nemirowsky só viveu trinta dias em Auschwitz; não chegou a esqueleto vivo nem à câmara de gás; morreu, atingida pela epidemia de tifo que nesse momento matava piedosamente os residentes do campo.» (A.F.)
Irène Némirovsky "David Golder" sistema solar, 2012
trad. Aníbal Fernandes

Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo – a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só
o que li nos romances que nos salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante
que ergueste no corredor como uma casa
nova. Trago portas abertas no coração:
se ainda não sabias, és muito bem vindo.
Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos Invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a
chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes – por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha
sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa –
se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.
Maria do Rosário Pedreira, in "poesia reunida" quetzal, 2012

Neste abençoado país, todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injurias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado, a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos talentos! De resto, todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta, portanto, este facto supracómico: um país governado com imenso talento que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!
Eça de Queirós, in "Os Maias" livros do brasil, 2001
nova edição...

Austelitz é uma narrativa notável, tão curiosa quanto despretensiosa, que nos dá a conhecer Jacques Austerlitz, numa espécie de monólogo meditativo interior, ao longo de um passeio pelas costas de East Anglia.
Com este retrato comovente de um emigrante em busca das suas origens, Sebald descreve um universo peculiar, se bem que reconhecível, que resulta do encontro entre a história pessoal e as particularidades do passeio; tendo a grandeza de tocar questões fundamentais como o tempo, a memória e a experiência humana.
W.G. Sebald "Austerlitz" quetzal, 2012
trad. Telma Costa
o que aí vem da relógio d'água...

Contos Escolhidos, de Carson McCullers
A Travessia, de Cormac McCarthy
A Poesia do Pensamento, de George Steiner
O Próximo Outono, de João Miguel Fernandes Jorge, com gravuras de Pedro Calapez
A Trombeta do Anjo Vingador, de Dalton Trevisan
O Vampiro de Curitiba, de Dalton Trevisan, com prefácio de J. Rentes de Carvalho
Outubro
Anjos, de Denis Johnson
A Rapariga sem Carne, de Jaime Rocha
Migalhas Filosóficas, de Soren Kierkegaard
Ada ou Ardor, de Vladimir Nabokov
Uma Antologia Improvável – A Escrita das Mulheres (1500-1830), com organização de Vanda Anastácio
Novembro
As Nuvens e o Vaso Sagrado, de Maria Filomena Molder
Os Cães e os Lobos, de Irène Némirovsky
O Poder do Pensamento, de Giorgio Agamben
Nos Trópicos sem Le Corbusier, de Ana Vaz Milheiro
Plataforma, de Michel Houellebecq
Henrique IV (Parte I) e Henrique IV (Parte II), de William Shakespeare
Riso na Escuridão, de Vladimir Nabokov
Dezembro
Ulisses, de James Joyce
Guerra e Paz, de Lev Tolstoi
brevemente na sistema solar...

Escrito com o português de Camilo Castelo Branco. «O livro é precioso porque é verdadeiro; é excelente, porque é bem escrito; é útil, porque encerra uma lição. Quem escreveu este livro?
Não o dizem as apreciações dos periódicos, nem os catálogos das livrarias. O livro é lido com espanto e talvez com lágrimas; ao passo que o autor, que tão cuidadosamente se ocultou, deve ter tido misteriosas e fortíssimas razões para esquivar-se à glória de haver escrito um livro tão precioso na forma quanto virtualmente útil. Transpira a verdade do contexto do romance, posto que a espaços a simpleza natural das coisas é estofada em pompas demasiadas da linguagem. Isso, porém, não desdoura, antes redobra o quilate da obra para quem se deixa de bom grado cativar e levar nas asas da dolorosa poesia que voeja por alto. O que os bons espíritos hão-de ver nesta pungente narrativa é a substância de tal e tamanho flagício praticado entre 1841 a 1868, neste tempo, em nossos dias! A crítica ilustrada estremará da religião divina, que ensinou Jesus, a protérvia dos sacrílegos que se abonam com ela, e lhe vão apagando as luzes para que as trevas da Idade Média se condensem e envolvam as instituições não carimbadas pela chancela pontifical. [...] O tradutor abstém-se de indicar as passagens realçadas de maiores belezas, porque lá está o claro entendimento de quem lê para as distinguir; e seria também desacordo antecipá-las, prejudicando o tal qual prazer do imprevisto.» (Da «Advertência do Tradutor»)

A história de Tristão e Isolda - os estranhos imortais do amor que constroem a sua tragédia sob as fatalidades de um sentimento imposto por artes da magia céltica, a paixão contra a qual os costumes e as leis são impotentes - mostrava-se como alternativa às sublimes lentidões de Wagner, e veloz, e empolgante, e obediente a todo o saber que faz a eficiência dos contos repetidos pela tradição oral. A lenda de Tristão e Isolda chegava ao êxito editorial e era confirmada no amor-símbolo, na sua intensidade inultrapassável, a que El-Rei Dom Dinis ousou ainda assim em versos desafiar: «o mui namorado Tristan sey ben que non amou Iseu quant?eu vos amo.»
«Joseph Bédier [1864-1938] tinha sabido seduzir o grande público com uma história de ingenuidade selvagem, com uma prosa que evocava ao leitor francês a tradição de contar que ele conhecia em Perrault. E em 1938, quando uma inesperada e fulminante congestão cerebral o atingiu no seu retiro de Grand-Serre, no Drôme, soube-se pelos jornais que tinha morrido... aquele autor... que escrevia coisas importantes sobre a Idade Média, sem dúvida, mas era o renovador do romance de Tristão e Isolda que já festejava a sua centésima edição.» (A.F.)

«Élie Faure (1873-1937) um médico, mas sobretudo escritor que em jornais, revistas e livros pensava a arte, toda a arte, como "o grande mistério da transposição lírica", e os homens como "construtores" obscuros com um esforço colectivo ignorado, responsável pelo aparecimento dos espíritos superiores no mundo. [...] O texto «Paul Cézanne» é de 1914 e está entre os que dedicou a notáveis "construtores do mundo", ou seja, a autores de "um trabalho de organização esboçado numa sociedade destruída". São a esta luz significativas as considerações que a sua História propõe sobre o pintor: "Mesmo quando tenta compor, como nessas extraordinárias reuniões de personagens nuas onde fez o esforço, visivelmente obcecado pela memória de Poussin, de construir com inabilidade uma longa melodia sensual no meio do grande coro das árvores, do vasto céu, das águas correntes, mostra-se mesmo então livre de toda a espécie de intenção psicológica ou literária. E o seu clacissismo, essa necessidade de ordem e medida que desde a infância o perseguia, mesmo então se engana sobre o seu verdadeiro sentido. Ele provinciano, ele católico, está de acordo como ritmo secreto do seu século, é impelido em direcção ao organismo desconhecido, que hesita, por forças profundas das quais não tem mais consciência do que os pedreiros das últimas igrejas romanas perante uma nave que ia de repente saltar, aligeirar-se, alongar-se, planar como uma asa coma geração que ascendia." Joachim Gasquet (1873-1921) deixou na literatura francesa uma imagem quase esquecida de poeta lírico, tendo chegado a dizer-se que a mais forte desde Victor Hugo. [...] Só era um dia mais velho do que Élie Faure, mas os seus pulmões - roídos pelo gás clorídrico dos ataques químicos da primeira Guerra Mundial - reduziram-lhe a vida a quarenta e oito anos, os últimos passados numa luta sem êxito pela sobrevivência. [...] Embora Cézanne fosse amigo de infância do seu pai, Joachim só o conheceu em Abril de 1896 (o ano do retrato onde hoje o vemos, exposto na Galeria de Arte Moderna de Praga e com um aspecto difícil de associar aos vinte e três anos de idade que nessa altura ele tinha). Entre os dois houve um convívio intenso, os quatro anos de encontros e cartas que veremos reflectidos em «O Que Ele Me Disse...», aos quais outros se sucederam de relativo afastamento até ao desacordo político que em 1904 definitivamente os separou.» (A.F.)
http://blogue-documenta.blogspot.pt/
em setembro...

"Best-seller" internacional e obra pioneira, descreve a relação frágil que Alison Bechdel manteve com o pai ao longo da sua infância e adolescência. Na sua narrativa, a história íntima e pessoal de uma família transforma-se numa obra cheia de subtileza e poder.

Exigente e distante, Bruce Bechdel era professor de Inglês e dirigia uma casa funerária – a que Alison e a família chamavam, numa pequena piada privada, a «Fun Home». Só quando estava na universidade é que Alison, que recentemente admitira aos pais que era lésbica, descobriu que o pai era "gay". Umas semanas depois desta revelação, Bruce morreu, num suposto acidente, deixando à filha um legado de mistério, complexos e solidão. Alison Bechdel começou a escrever um diário aos dez anos de idade, e desde então tem registado assiduamente, com palavras e imagens, todos os acontecimentos da sua vida. Durante vinte e cinco anos, escreveu e ilustrou a tira de BD Dykes to Watch Out For, uma crónica geracional que é considerada um marco deste género. Para além da antologia The Essential Dykes to Watch Out For, publicada em 2008, Alison é autora da memória gráfica Are You My Mother? (2012). A sua obra é vastamente premiada e admirada em todo o mundo. Foi também editora da antologia Best American Comics de 2011. Os "comics" e ilustrações de Alison Bechdel são regularmente publicados em media de destaque como a Slate, a McSweeney’s, a New York Times Book Review e a Granta.

Alison Bechdel "fun home - Uma Tragicomédia Familiar " contraponto, 2012
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