AMIGOS MAÇADORES

Só conhecemos quatro pessoas maçadoras. O nossos outros amigos parecem-nos muito interessantes. Todavia, a maior parte dos amigos que achamos interessantes acham-nos maçadores: o mais interessante é o que nos acha mais maçadores. Desconfiamos dos poucos que adoptam de certo modo uma posição de meio-termo, com os quais partilhamos um interesse recíproco: sentimos que, a qualquer momento, poderão tornar-se demasiado interessantes para nós — ou nós, demasiado interessantes para eles.


UM HOMEM DO SEU PASSADO

Acho que a mãe anda a namorar com um homem do seu passado que não é o pai. Digo com os meus botões: a mãe não devia ter relações impróprias com este "Franz"! O "Franz" é europeu. Digo que ela não deveria encontrar-se com este homem de uma forma imprópria enquanto o pai está por fora! Mas estou a confundir uma velha realidade: o pai não volta para casa. Vai ficar no lar em Vernon Hall. Quanto à mãe, tem 94 anos. Como pode haver relações impróprias com uma mulher de 94 anos? No entanto, a minha confusão deve ser esta: embora o corpo dela seja velho, a sua capacidade de traição ainda é jovem e fresca.


Lydia Davis, in "Contos completos" relógio d'água, 2012
trad. Miguel Serras Pereira e Manuel Resende

Trazias no peito a ferrugem líquida dos relógios. Arrancava-te as horas como pregos. Depois ficávamos deitados a observar os animais brancos.

Não sabíamos nada. Não tínhamos nada.

Apenas soprávamos a cana da loucura — e tremíamos.


Vasco Gato, in "A prisão e paixão de Egon Schiele" & etc, 2005

Fala agora, antes que seja tarde, e depois espera continuar a falar até que não haja mais nada para dizer. Afinal de contas, o tempo está-se a esgotar. Talvez não seja pior pores de lado por agora as tuas histórias e tentares passar em revista o que foi para ti viver dentro deste corpo desde o primeiro dia de que tens memória de estar vivo até ao dia de hoje. Um catálogo de dados sensoriais. Aquilo a que se poderia chamar uma fenomenologia da respiração.

Paul Auster, in “diário de Inverno” asa, 2012
trad.Francisco Agarez

brevemente na quetzal...


A Herança Perdida reúne ensaios que o crítico James Wood foi publicando ao longo de vários anos em publicações tão prestigiadas como a New Republic. De Herman Melville a Philip Roth, de Virginia Woolf a Don DeLillo, Wood analisa as formas como nestes escritores a literatura funciona como uma espécie de religião. Regista igualmente o percurso inverso – a transformação da religião num género literário – levado a cabo por autores do século XIX como Matthew Arnold e Ernest Renan. A distinção entre a realidade e o realismo, os polémicos ensaios sobre George Steiner, John Updike e Julian Barnes, a profunda empatia da escrita que permite novas leituras de escritores consagrados são motivos suficientes para se aceder ao universo de James Wood.

James Wood "A herança perdida" quetzal, 2012



Neste primeiro volume de poesia reúnem-se os livros O Fervor de Buenos Aires, Lua Defronte, Caderno de San Martín.

Jorge Luis Borges "Obra poética vol I" quetzal, 2012


Situado em Berlim, no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, este romance semiautobiográfico combina ficção e factos no relato das histórias – frequentemente pícaras – das extraordinárias personagens que animavam a efervescente cena boémia e artística daqueles anos: berlinenses e expatriados a viver no limite com a ameaça do terror político em pano de fundo.
O ponto de partida é o encontro fortuito, num comboio, do professor de inglês William Bradshaw com o ligeiramente sinistro Arthur Norris. Norris é um homem cheio de contradições: gastador, profundamente endividado, excessivamente cortês e depravado. Mas entre os dois vai desenvolver-se uma relação de amizade muito próxima.
Mister Norris Muda de Comboio articula-se com Adeus a Berlim (publicado pela Quetzal em 2011), num núcleo ficcional a que, dentro da obra de Isherwood, se convencionou chamar os romances de Berlim.

Christopher Isherwood "Mister Norris muda de comboio" quetzal, 2012



i saw a bird today
she smiled to me and flew away
i saw a plane today
i missed my flight now where am i to stay

maybe you're the sun day
im the monday to the friday
show me where you fly away

tell me where to find you
tell me to when to miss you
show me where to fly away

look at the clouds
they make me dream of you
so tell me where does the sky begin
because i can see the other side
can't you see me too?
can't you see them too?