brevemente...


Poemas de Mário Cesariny e Adolfo Luxúria Canibal ditos por este último, numa edição em parceria com a Fundação Cupertino de Miranda, onde Adolfo Luxúria Canibal interpreta três poemas seus e cinco poemas de Mário Cesariny, acompanhado musicalmente por António Rafael (pianos, teclados e programações), Henrique Fernandes (contrabaixo eléctrico) e Jorge Coelho (guitarra eléctrica).

assírio & alvim, 2012

brevemente...


«Publicados em 1993, no ano da sua morte, estes Três Prantos centram-se nas personagens (ou só vozes?) de Cleópatra, Herodíades e Maria, são monólogos em verso, lamentos de amor de Cleópatra que chora António, de Herodíades que arde de desejo pelo Baptista que a recusa, e pranto antiquíssimo de Maria, que Testori reinventa, carnal, retirando-a do cheiro das velas, e vendo abrir os braços ao perdão, maneira que tem o céu de se abrir. E será neste último pranto que a trilogia se encontra, na esperança, na redenção, na aceitação do sacrifício aqui na terra»

Jorge Silva Melo

Giovanni Testori "Três Prantos" assírio & alvim, 2012
trad. Miguel Serras Pereira
apres. Jorge Silva Melo

SINTAXE

Aonde a planície já não tiver um sentido
e os campos forem já só o horizonte
aí o teu vestido há-de ser cor esmaecido
e sobre ti a minha fronte.
Por te sobre os joelhos uma flor rubra
por te no lugar das pernas o mais amor que me houver
aí onde a flor deixa o pólen
aí o sémen mulher.
Por te sobre o sémen o gemido do teu acto
por te sobre o gemido
a planície sem sentido
aí o teu vestido há-de ser cor esmaecido
por te sobre as pernas me dilato.

António Gancho, in "O ar da manhã" assírio & alvim, 1995

SOBRESSALTOS

Uma noite estava ele sentado à mesa dele com a cabeça entre as mãos quando se viu a si mesmo a levantar-se e a ir-se. Uma noite ou um dia. Pois quando se apagou a luz dele não ficou na escuridão. Na altura vinha uma espécie de luz da única janela alta. Debaixo dela ainda o banco por onde ele subia para ver o céu até mais não poder ou não querer. Se não se esticava para ver o que havia lá por baixo era talvez porque a janela não era feita para abrir ou porque ele não a podia ou não queria abrir. Talvez ele soubesse até bem de mais o que havia lá por baixo e nunca mais o quisesse ver. E assim mais não fazia que pôr-se ali de pé bem alto acima da terra a olhar através do vidro nublado para o céu sem nuvens. A luz fraca e fixa do céu como nenhuma outra luz de que ele se lembrasse dos dias e das noites em que dia dava em noite e noite dava em dia. Então esta luz exterior quando a luz que ele tinha se apagou tornou-se na única luz que tinha até que por sua vez se apagou e deixou-o na escuridão. Até que por sua vez se apagou.
(...)

Samuel Beckett, in" Últimos Trabalhos" o independente, assírio & alvim, 1996
trad. Miguel Esteves Cardoso

moradas de silêncio...


http://colectivochato.blogspot.com/

A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito.
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso dum manancial de auroras
Abandonando sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Paul Éluard, in “tempo de poesia” tempo, 1970
trad. António Ramos Rosa

a vossa opinião conta...

Franz Kupka [ The Yellow Scale ] 1907


As livrarias Bertrand querem conhecer melhor os hábitos de leitura e consumo de livros nos dias que correm. O questionário é anónimo e confidencial, demora 5 minutos a responder. Todas as experiências são importantes. Participe e pode contribuir para sermos melhores.

https://www.surveymonkey.com/s/5FC8G66

Jan Švankmajer [ Darkness, Light, Darkness ] 1989


SÓ ESSA

repito, de mim para mim, vezes sem numero,
a promessa que fomos entre as primaveras abraçadas
e o fio de luz que escoava nos plátanos, já noite.
recordo o aroma doce que, misturado nos teus lábios,
abria vento fora o corpo e o carinho do corpo e a voz,
de mel que vinha dormir junto de mim, o teu nome

lembro também o ano em que habitávamos o frio,
no Inverno vertical que caía sobre nós com os dias
e os minutos em que o lume se internava na madeira
e, por momentos, nos deixava a sós com o estrondo
da casa quase vazia, a maneira como nos tocávamos.

«e se as esquinas não dessem para outra rua e tudo
se abismasse de súbito: como saberias de mim?»,
perguntaste-me quando os teus pulsos acharam o azul
e redondos espreitaram no mar a constelação de búzios
onde dizes ter nascido – como podia eu saber de ti?

compreendo por que deitaste para dormir, em silencio,
sem te demorares na varanda, sem escutares a floresta,
assim como quem descobre uma palavra nunca ouvida
e sabe que só essa valeria o dizer – e fui eu o poço

vou uma vez mais até ao extremo desta terra estremecida
e encontro o lugar vazio onde a bruma anuncia o que talvez não retorne
por não haver sangue entre nós, um segredo que leve a tua mão à minha,
uma volta de planeta que devolva as ruas e as esquinas em que eu sei de ti.


Vasco Gato, in “um mover de mão” assírio & alvim, 2000

brevemente na tinta da china...


«Jornalista e escritor, Fernando Assis Pacheco (1937-1995) marcou, pelas suas invulgares qualidades intelectuais e de personalidade, toda uma geração. As reportagens e crónicas que escreveu para o 'Diário de Lisboa', o 'República', 'O Jornal e a Visão', entre outros, quebraram os cânones e abriram caminho a novas formas, mais literárias, de fazer jornalismo. A sua figura tornou-se extremamente popular após a participação no concurso televisivo Cornélia. Foi um homem de esquerda e opositor declarado da ditadura, publicando os primeiros poemas contra a guerra colonial. Esta é a sua primeira biografia.»

Nuno Costa Santos "Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco" tinta da china, 2012

brevemente na quetzal...

Dave Eggers maneja a narrativa curta de forma tão magnífica – coadjuvado pela sua revista McSweeney’s e pelos seus muitos imitadores – que devolveu a este género o relevo e o estatuto que sempre teve no panorama literário norte-americano. Enquanto isso, e divulgando o trabalho de terceiros, Eggers tem mostrado ser um dos grandes mestres desta forma. Nesta imperdível seleção, Dave Eggers revela o seu talento numa imensa variedade de registos - histórias sombrias, divertidas, ousadas e infinitamente inventivas.

Dave Eggers "Como estamos famintos" quetzal, 2012


Uma história de dois irmãos britânicos que, justamente, personificam os anseios espirituais e sexuais do próprio Isherwood. Um dos irmãos, Oliver, que vive nas margens do Ganges, escreve ao outro, Patrick, anunciando-lhe que se tornará monge de um mosteiro hindu. Patrick, por sua vez, decide partir de imediato para a Índia, numa tentativa de dissuadir o irmão de o que considera um tremendo erro. Patrick tem a mulher e os filhos em casa, em Londres, e está na Califórnia em negócios. Mas há mais alguma coisa que aí o prende, uma pessoa, um segredo.

Christopher Isherwood "Encontro à beira-rio" quetzal, 2012

fevereiro é mês de Borges


«Não mostrei a ninguém o meu tesouro. À felicidade de possuí-lo juntou-se o medo de que mo roubassem, e depois o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Essas duas inquietações agravaram a minha já velha misantropia. Sobravam uns amigos; deixei de vê-los. Examinei com uma lupa a lombada já gasta e as capas e rejeitei a possibilidade de algum artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui-as anotando num registo alfabético, que não tardei a encher. Nunca se repetiram. De noite, nos escassos intervalos que me concedia a insónia, sonhava com o livro.»


«O movimento, ocupação de lugares diferentes em instantes diferentes, é inconcebível sem o tempo; igualmente o é a imobilidade, ocupação de um mesmo lugar em pontos diferentes do tempo. Como pude não sentir que a eternidade, ansiada com amor por poetas, é um artifício esplêndido que nos livra, embora de maneira fugaz, da intolerável opressão do sucessivo?»

em janeiro...



A música I: breve súmula dos mais importantes ditados do Ministro Calvo


Concordemos todos: o perigo que é ouvir pássaros cantarem melodias
alegres. O perigo que é! Felizmente, o Muro serve de barreira, a
Floresta fica longe, e os ramos das árvores. Mas não sejamos
desprevenidos. A música não é apenas, como muitos julgam, mera
organização matemática de sons. Ou: que bonito!, ou: que horror! A
música também é medicamento: pode deter a eficácia inata de um
poderoso ansiolítico, ou guardar fortes propriedades vitamínicas. Daí
alterar estados de ânimo, compassos cardíacos. Pois, tal como uma arma
de grande calibre quando empunhada, um violoncelo, um saxofone,
derrubam, imobilizam, silenciam, amolecem, colocam lágrimas onde antes
não as tínhamos. E, de igual forma, vocês sabem isto, um piano faz
deslizar o corpo, ou levanta-nos de um pulo como um gafanhoto, ou
põe-nos a correr com o vento da alegria a arreganhar a boca.
Posto isto, colocam-se questões indispensáveis:
Que música deve o Governo ouvir para se fazer mais forte, e irresistível?
E que música permitiremos nós dar a todas as cabeças silvestres e
corações toscos que nesta cidade abundam, para que não lhes cresça na
boca a espuma da baba raivosa?

Sandro William Junqueira, in "um piano para cavalos altos" caminho, 2012