primeiro parágrafo…


«Mas na metrópole há cerejas. Cerejas grandes e luzidias que as raparigas põem nas orelhas a fazer brincos. Raparigas bonitas como só as da metrópole podem ser. As raparigas daqui não sabem como são as cerejas, dizem que são como as pitangas. Ainda que sejam, nunca as vi com brincos de pitangas a rirem-se umas com as outras como as raparigas da metrópole fazem nas fotografias.»

Maria Dulce Cardoso, in “o retorno” tinta da china, 2011

brevemente...

“Como é que é o herói Ferdydurke? Interiormente é apenas fermento, caos, imaturidade. Para se manifestar exteriormente, e sobretudo face aos outros homens, é que ele tem necessidade da forma (…) mas esta forma limita-o, viola-o, deforma-o”. O herói é Jozio, que acaba de fazer trinta anos e é raptado pelo seu ex-professor para voltar ao liceu. Condenado a sentar-se nas carteiras de uma sala de aulas, rodeado de adolescentes e de um mestre antigo-regime, a sanidade do protagonista passa a enfrentar uma permanente ameaça, forçado pelo absurdo das circunstâncias. A sua resposta face ŕs pressões deformantes da vida quotidiana, atreitas a fabricar inteligências, doutrinas, obras-de-arte, ciência, morais e responsabilidades de etiqueta social, é a chacota, a imaturidade, o disparate, o grotesco, a embirração, a inteligência trágica de tudo pôr em causa.”

Witold Gombrowicz "Ferdydurke" 7 nós

bom fim de semana...


set.2011

dia 23 de setembro nas livrarias...


Para escapar ao anonimato de uma vida comum, à solidão da escrita e ao esquecimento dos futuros leitores, o narrador de Uma Mentira Mil Vezes Repetida inventou uma obra monumental, um autor – um judeu húngaro com uma vida aventurosa – e uma miríade de personagens e de histórias que narra entusiasticamente a quem ao pé dele se senta nos transportes públicos. Assim vai desfiando as andanças literárias de Marcos Sacatepequez e o seu singular destino, a desgraça do Homem-Zebra de Polvorosa, o caos postal de Granada, a maldição do marinheiro Albrecht e as memórias do velho Afonso Cão, amigo de Cassiano Consciência, advogado e proprietário do único exemplar conhecido de Cidade Conquistada, a obra-prima de Oscar Schidinski. Enquanto o autocarro se aproxima de Cedofeita, ou pára na rua do Bolhão, quem o escuta viaja do Belize a Budapeste, passando pelas Honduras, por estâncias alpinas, por Toulon ou por Lisboa. Mas se o nosso narrador não encontrou a glória - senão por breves momentos e na mente alheada de quem cumpre uma rotina - talvez tenha encontrado o amor. Ou será ele também inventado.

Manuel Jorge Marmelo "uma mentira mil vezes repetida" quetzal, 2011

PASSAGEM DOS SONHOS

Inclinada ou deitada sobre o braço esquerdo
é uma mulher-montanha ou uma montanha-mulher
da cintura para cima vê-se o corpo nu
no seio do lado direito há uma ferida-cratera violácea
ela diz: aqui é luz
depois movendo a mão direita
assinala outro sítio que não é bem o seio esquerdo
julgo que ainda é o seio direito
e diz: aqui é sombra
(não é bem sombra o que ela diz
seria antes o lugar de uma cor
que não sei porquê se opõe à luz)
depois desce lentamente com um dedo espalmado
na direcção do sexo
a unha ao deslizar abre um sulco-ranhura
semelhante a uma fenda aberta na terra
já não se vê carne mas uma planície
com no meio a fenda separadora
descendo mais a mão desaparece entre sedas
que revelam-ocultam outro corpo montanha

Mário Cesariny, in "19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão Seguidos de Poemas de Londres" quadrante, 1971

SONETO DE FIDELIDADE

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes
fotografia: P.F.

A tua voz, os teu olhos,
as tuas mãos, os teus lábios.
O nosso silêncio, as nossas palavras.
A luz que desaparece,
a luz que regressa.

Um único sorriso para os dois.
Por precisar de saber,
vi a noite criar o dia
sem que mudássemos de aparência.

Ó bem amado por todos e bem amado por um.
Em silêncio, a tua boca prometeu ser feliz.
"Afasta-te, afasta-te", diz o ódio.
"Aproxima-te mais", diz o amor.

Pelas nossas carícias, saímos da infância.
Vejo cada vez melhor a forma humana.
Como um diálogo entre amantes,
o coração só tem uma boca.

Tudo é ao acaso.
Todas as palavras são espontâneas.
Os sentimentos à deriva.
Os homens vagueiam pela cidade.

O olhar, a palavra.
E o facto de eu te amar.

Tudo está em movimento.
Basta avançar para viver,
seguir em frente, em direcção a tudo o que amamos.

Ia na tua direcção, seguia sem parar em direcção à luz.
Se sorris, é para melhor me envolveres.
Os teus braços luminosos entreabrem o nevoeiro.


Paul Éluard

hoje acordei assim...

para os mais pequenos...




«Ana Fernández-Abascal junta três personagens como protagonistas de um conto em que cada uma vai lendo
sucessivamente um livro, após a enunciação de uma fórmula que se vai repetindo à laia de estribilho. Todas elas valem-se pois de um livro para satisfazer a dose de emoção, entretenimento ou aprendizagem que a televisão não lhes proporciona. “O Senhor Nicanor” contrapõe assim o valor da leitura à hegemonia dos meios audiovisuais e das novas tecnologias.
As expressivas ilustrações de Flavio Morais são planas, esquemáticas, de cores muito intensas, produzindo chamativos contrastes. A proposta artística é moderna e atractiva, jogando com a alternância de cores predominantes em cada página, introduzindo figuras baseadas na cultura iconográfica, e logrando assim um resultado de estética “pop”.»

"O senhor Nicanor" kalandraka, 2011
texto. Ana Fernández-Abascal
ilust. Flavio Morais