[ Un Homme qui dort (George Perec, Bernard Queysanne) ] 1974


«Agora vives no terror do silêncio. Mas não serás tu o mais silencioso de todos?»

George Perec, in "Um homem que dorme" presença, 1991
trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo

a biblioteca de babel...


«A minuciosa burocracia, exaltada satiricamente, é o tema essencial da inacabada fantasia de O Crocodilo de Dostoiévski. Prefigurando Kafka, a situação gira sobre si mesma e vai revelando os caracteres. Pode ser considerada arbitrária a vizinhança, neste volume, de Andréev e de Dostoiévski. Deveria no entanto observar-se que os dois coincidem no ímpeto patético e na desconsolada visão de um mundo hostil. O Lázaro de Andréev, depois de passar pela morte, sente que aqui na terra tudo é inconsistente. e no seu olhar atroz parece estar escrito o fim. Nos dois textos precedentes, o elemento fantástico é claro desde o princípio. Em A Morte de Ivan Illitch, de Lev Tolstói, a revelação sobrenatural chega, inevitável e surpreendente, como a última experiência de uma alma.»

Jorge Luis Borges

Dostoiévski, Andréev, Tolstói "Contos Russos" presença, 2010
trad. Nina Guerra e Filipe Guerra (Dostoiévski, Andréev) Natália Vakhmistrova e José Augusto (Tolstói)

MORADA

Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.

Margarida Ferra, in "Curso intensivo de jardinagem" & etc, 2010

«Acrescenta-se às páginas de O Festim da Aranha para formar uma biologia de histórias encontradas — encontradas na extensão «beltenebra» de muitos anos de leituras.
O assassínio nas suas variações: exercício da morte decidida sempre pela reflexão ou pelo ímpeto não dominado, mas a escolher o Indivíduo; levado a tema (como o amor, a guerra ou a traição).
O assassino: indiferente às morais que justificam o castigo, ou a admitir-se vítima dos olhares vendados da Injustiça e da Fatalidade; a percorrer a história com as insolências do executor impune.
A morte: programada, desejada e em muitos exemplos belamente imaginada — do Outro.»

AAVV "Este é o tempo dos assassinos" assírio & alvim, 2010
org. e trad. Aníbal Fernandes

hoje acordei assim…


PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra, surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...


Alexandre O'Neill, in "Feira Cabisbaixa" Sá da Costa, 1979

«Medíocre não é aquele que não sabe escrever contos — pensava ele —, medíocre é aquele que os escreve e não sabe esconder a sua mediocridade.»

Anton Tchékhov, in "Iónitch (contos, vol. II)" relógio d'água, 2001
trad. Nina Guerra e Filipe Guerra


TRISTE-FEIA

Assim julgam ganhar o pouco
dinheiro da felicidade,
propício a luxos de estação.
Assim: na maior tristeza,
na reles promessa de um destino
que hesitam em chamar pelo nome.
Eu, de pé no autocarro cheio, não trabalho.
Terei sequer direito à palavra?

Pouco importa. Limito-me a ver
a sincera mentira dos seus gestos,
a ilusão de estarmos aqui
como quem sobe, arduamente,
a Maria Pia. Olheiras, fedor
e escarros vão pontuando
as curvas já sem rio de chegarmos.

É o preço que pagam ou recebem
para não serem felizes
e acharem por força que são.
Como dizer-lhes, de pé, que
não consigo gostar deste cemitério?

Arrombo a casa sem porta,
termino já de rastos o poema,
abate-se sobre mim o que não quero.


Manuel de Freitas, in "A última porta" assírio & alvim, 2010
selecção de José Miguel Silva

via frenesi

brevemente na bruaá...


Shel Silverstein “Quem quer um rinoceronte barato?” bruaá, 2010
trad. Miguel Gouveia

leitura recomendada...


Ricardo Piglia "A cidade ausente" teorema, 2010
trad. Jorge Fallorca

Deitou-se a tarde sobre
os corpos estendidos,
ainda agora tocaram
lá em cima,
onde o tecto se inclina sobre a esquina de domingo
e todas as outras horas da semana.

Há no mundo dois
cães longínquos,
um pássaro raro
e o arame que roda, e chia,
sobre si o cheiro da roupa
molhada.
Qualquer coisa espelha uma outra qualquer, dois telhados antes do rio.

Não sei quantas luzes são essas,
nem qual é o reflexo,
de onde vem o eco,
porque dormes
e sinto sobre nós,
deitado,
o vento de todas as tardes,
a respiração do teu amor.

Margarida Ferra, in "Curso intensivo de jardinagem" & etc, 2010