¿Por qué no te callas?


Dizem por aí que o meu nome é Francisco Rogido, sou brasileiro de origem galega e trabalho na Biblioteca do Congresso, em Washington DC...

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PARA O CATÁLOGO DA MINHA PRIMEIRA EXPOSIÇÃO POR SINAL SURREALISTA, ESCANDALOSA, LISBOETA

Qual seria a explicação
para rolar o corpo despreocupadamente
pela vertente de uma serra
se a descida fossem cacos?
cacos de garrafas voluntárias?

Foi necessário
como o entrar numa casa
só pela necessidade de sair por ela
Deixar que pelo corpo se crivassem
os poros do mistério
Jogar por valas abertas

em sítios impróprios mas atraentes
Dançar pelas vielas da noite
como os carrinhos do tear
como os poros das horas
janelas de mim-mesmo
sem fora nem dentro

Foi mortalmente necessário o amar por contacto
como o que pelas mãos começa
e pelas mãos escorre em areia fina
Tal algumas mulheres de Picasso
que fugindo das obscenidades que lhes são dirigidas

vão refugiar-se nuas na noite em couraças de ferro
sob o vento metálico e cardíaco
das praças do Chirico

Hoje nesta planície chegado
estrangeiro como pedras
teimosamente elástico e por onde sei
arrastarem os poemas do homem
nos assobios secretos da noite

inventando pequenos animais
ditos segredos ao ouvido como esquecidas
migalhas num bolso ou pedras caras

Tudo maquinal e previsto
Haverá outras vertentes? cacos? mulheres nuas
desafiando a noite nas paisagens fortuitas?

ou sempre um Sol que vem cinicamente
todos os dias
verificar o bem e o mal ambos sem remédio

Ou possuir a planície que nunca sorri por vontade própria
devorar a chuva que a excitação lhe mata
esconder ou fazer esconder
pelas preocupações diárias
os agigantados sossegos da morte tirana
irmã lapidar desfeita

Acordar lentamente
a todas as quatro horas das manhãs
para surpreender em flagrante
os idílios amorosos na pintura antiga
e assistir ao pudor que sei que há
do lado de lá de todas as figuras pintadas
suspender as emoções alheias
arrancar os botões do exagero
só os que são úteis e por isso se chamam
botões

virar por um atalho mais perto e sem saída
andar alheio como os funerais dos outros

ou uma gota de água que se recusa ao dilúvio?…


Fernando Lemos, in "A única real tradição viva, antologia da poesia surrealista portuguesa" assírio & alvim, 1998

Diálogo entre um penitente freirático e um confessor casmurro


A um fradalhão bojudo e rabugento
Seus crimes confessava um desgraçado,
E entre eles dizia ter pecado
Com uma santa freira num convento:

Grita o frade: «Não tardam num momento
Raios mil, que subvertam tal malvado;
Que as esposas de Cristo há profanado
No santo asilo seu, sacro aposento!

«Ora diga, infeliz, como ousaria
Tal crime confessar, e acções tão brutas
A Jesus Cristo, lá no extremo dia?...»

«Padre, deixemos pois essas disputas;
Se ele me perguntasse, eu lhe diria:
Quem vos manda, Senhor, casar com putas?»


António Lobo de Carvalho (o lobo da madragoa), in "se a lira pulsas e o pandeiro tocas..." & etc, 1984



Walerian Borowczyk [ Les héroïnes du mal ] 1979

com o diabo no corpo...


«Um homem desorganizado que vai morrer e não desconfia disso põe subitamente em ordem tudo à sua volta. A sua vida muda. Arquiva papéis. Levanta-se cedo e deita-se cedo. Renuncia aos vícios. Os seus familiares congratulam-se. Assim, a sua morte repentina parece ainda mais injusta. Ia viver feliz.»

Raymond Radiguet

pint. Jean Cocteau [ Raymond Radiguet ] 1929

PASSA-SE QUALQUER COISA COMIGO

Passa-se qualquer coisa comigo
a acreditar nos meus
sentidos isto não é só
outra distracção minha cara
Continuo atado
na mesma velha pele
nas ideias puras e nas grandes aspirações
pixota limpa cheia de saúde
custe o que custar
mas começam-me os pés
a dizer coisas
de si
da sua nova relação com
as minhas mãos coração cabelo e olhos

Passa-se qualquer coisa comigo
se pudesse perguntava-te
sentiste isto alguma vez
mas estás tão longe
tu esta noite não penso
que ouvisses e depois
a minha voz também foi afectada

Passa-se qualquer coisa comigo
não te admires se
ao acordares um dia a este claro
sol mediterrânico olhares
para mim e descobrires uma mulher
no meu lugar
ou pior
um estranho homem com brancas
a escrever um poema
alguém que já não sabe formar palavras
que simplesmente move os lábios
e tenta
contar-te qulquer coisa.


Raymond Carver, in "heroísmos não, por favor" teorema, 1993
trad. Telma Costa

Roger Corman [ The Wasp Woman ] 1959


Roger Corman [ Pit and the Pendulum ] 1961

«Un poeta lo puede soportar todo. Lo que equivale a decir que un hombre lo puede soportar todo. Pero no es verdade: son pocas las cosas que un hombre puede soportar. Soportar de verdad. Un poeta, en cambio, lo puede soportar todo. Com esta covicción crecimos. El primer enunciado es cierto, pero conduce a la ruina, a la locura, a la muerte.»

Roberto Bolaño, in "Llamadas telefónicas" anagrama, 1997



quando, daqui a umas horas a manhã vier, branca e fina, saberei eu andar?
conseguirei eu, lembrar-me, de como se põe um pé à frente do outro? sem cair…


Al Berto, in "À procura do vento num jardim d'agosto" ed. autor, 1977


UM DISCURSO TRANSPARENTE

Avanço através de um caos silencioso.
Nem um som nem uma sombra. É uma lenta descida.
É vazio o princípio do princípio. Solipsismo.
A possibilidade de nascer é o desejo que nasce.
Esquecer, viver. Tudo dizer em evidências brancas.

Com as armas mais puras, com a luz das minhas ervas
enuncio a fragrância de uma lâmpada. Comovo-me
com a água do poema. Crianças de cor solar
acenam em campos silenciosos. É suficiente estar aqui
mais além de todo o lugar, na superfície nua.

Habito agora o movimento do meio-dia.
Inesgotável um campo tão contínuo.
O sol fixou-se na corola do tempo, o espaço é puro.
O mar levanta-se do fundo até aos seus limites.
Um discurso flui completo e transparente.


António Ramos Rosa, in "Volante verde" moraes editores, 1986


SUICIDE—HOUSE

(...)
— Este corredor aonde leva?
— Ah, é a secção de asfixia. Queira entrar. A asfixia é ainda hoje um dos suicídios de maior actualidade. Temo-las para todos os gostos: fogareiro, gás de iluminação, vapores clorídricos, iodo… A menos que, sendo V. Ex.ª de seu natural artista, e um pouco poeta, não prefira envenenar-se com o aroma de flores desconhecidas. Há agora uma combinação de nenúfares de Java com flores de de Takeoka, que extingue, evocando rondas de deidades, todas nuas, maravilhosas de lascívia, as quais beijam na boca o — porque assim o chamemos — padecente. É imprevisto, hem? Ora sente-se o Snr. Duque neste fauteuil: vou-lhe fazer um principiozinho de experiência… Há-de gostar! Nada receie: a porta assim calafetada — como vê, todo o recinto tem uma couraça impermeável ao ar exterior — agora abre-se aqui esta torneira. Atenção! Desejava V. Ex.ª fazer, antes de partir, disposições testamentárias? Quer confiar ao fonógrafo a sua frase célebre? Se não trouxe frase, a casa fornece. Há em mimoso, em desesperado, em filosófico…
— Decididamente a asfixia maça-me. Que mais tem?
(…)

Fialho D'Almeida, in "Fialho Negro" & etc, 1981

em Novembro nas Livrarias…

Julio Cortázar [ A volta ao dia em 80 mundos ]
trad. Alberto Simões


Lars Saabye Christensen [ O modelo ]
trad. Mário Semião


Carmen Laforet [ A ilha e os demónios ]
trad. Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu


www.cavalodeferro.com