William S. Burroughs [ September Songs ]
WHAT KEEPS MANKIND ALIVE?
You gentlemen who think you have a mission
To purge us of the seven deadly sins
Should first sort out the basic food position
Then start your preaching, that’s where it begins
You lot who preach restraint and watch your waist as well
Should learn, for once, the way the world is run
However much you twist or whatever lies that you tell
Food is the first thing, morals follow on
So first make sure that those who are now starving
Get proper helpings when we all start carving
What keeps mankind alive?
What keeps mankind alive?
The fact that millions are daily tortured
Stifled, punished, silenced and oppressed
Mankind can keep alive thanks to its brilliance
In keeping its humanity repressed
And for once you must try not to shriek the facts
Mankind is kept alive by bestial acts
Kurt Weill/Bertolt Brecht 1928

CANÇÃO PARA OS HOMENS DE INGLATERRA
Homens de Inglaterra, porquê lavrar
Para os senhores que vos derrubam?
Porquê tecer com esforço e cuidado
As ricas roupas que vestem os vossos tiranos?
Porquê alimentar, e vestir, e proteger,
Do berço até à sepultura,
Aqueles ingratos zângãos que
Exauririam o vosso suor como beberiam também o vosso sangue?
Porquê, Abelhas de Inglaterra, forjar
Tantas armas, grilhetas e chicotes
Se esses zângãos sem ferrão podem destruir
O produto forçado da vossa labuta?
Será que tendes lazer, conforto, calma,
Abrigo, comida, o doce bálsamo do amor?
O que é então que comprais tão caro
Com a vossa dor e com o vosso medo?
O grão que semeais, colhe-o outro;
A riqueza que encontrais, fica outro com ela;
As roupas que teceis, outro as veste;
As armas que forjais, as usa outro.
Semeai grão, — mas não deixeis que nenhum tirano o colha;
Encontrai riqueza, — não deixeis nenhum impostor acumulá-la;
Tecei roupas, — não deixeis nenhum ocioso usá-las;
Forjai armas, — a usar em vossa defesa.
Recolhei às vossas caves, buracos e cubículos;
Nas mansões que embelezais, outro lá vive.
Porquê sacudir as grilhetas que forjastes? Vedes
O aço que temperastes brilhar sobre vós.
Com o arado e a pá, e a enxada e o tear,
Cavai a vossa sepultura e construí o vosso túmulo,
E tecei a vossa mortalha, até que a bela
Inglaterra seja o vosso sepulcro.
Percy B. Shelley, in "A Máscara da Anarquia seguido de cinco poemas de 1819" & etc, 2008
trad. Célia Henriques e Eduarda Dionísio

Percy Bysshe Shelley, poeta inglês nascido a 4 de Agosto de 1792, foi casado com a escritora Mary Shelley, morreu a 8 de Julho de 1822.

Blutch
Charles Burns
Marie Caillou
Pierre Di Sciullo
Lorenzo Mattotti
Richard McGuireBlutch, Charles Burns, Marie Caillou, Pierre Di Sciullo, Lorenzo Mattotti, Richard McGuire [ Peur(s) du noir ] 2007

QUATRO HORAS DA MANHÃ
São quatro horas da manhã
Levanto-me já vestido
Tenho um sabonete na mão
Que me enviou alguém que amo e me ama
Vou-me lavar
Saio do buraco que nos serve de cama
Estou bem disposto
E feliz por me poder lavar o que já não acontecia há três dias
Depois de me lavar vou-me barbear
De seguida azul como o céu confundo-me com um horizonte até que a noite caia e é um prazer muito doce
Nada dizer Tudo o que faço é um ser invisível que o faz
Porque uma vez abotoado todo de azul
Confundido com o céu torno-me invisível
Guillaume Apollinaire, in "o século das nuvens" assírio & alvim, 2007
trad. Jorge Sousa Braga
pint. Henri Rousseau [ La muse inspirant le poète ] 1909

[OS SERES… ]
O seres
não saem
para o dia exterior
só têm a força
de resplandecer
na noite subterrânea
onde se fazem.
Mas desde eternidades
passam
o seu tempo
e o tempo
a fazer-se
e nem um só chegou
assim
a manifestar-se.
Vai ser preciso esperar que
a mão do Homem
os prenda e consuma
porque só
o Homem
inato e predestinado
tem
esta temível
e
inefável
capacidade:
Fazer o corpo humano sair
para a luz da natureza
mergulhá-lo vivo
no clarão da natureza
onde o sol acabará enfim
por desposá-lo.
Antonin Artaud, in "Eu, Antonin Artaud" assírio & alvim
trad. Aníbal Fernandes

«Sim, quem, como Artaud, morreu jovem em 1948,
quem, como eu, nasceu no mesmo ano,
tem o culto,
senão do Eu,
da carne, "no sentido sensível da palavra; as coisas só nos tocam quando nos afectam a carne, quando com ela coincidem e a abalam".
Credo in unum deum. O deus único é a sombra do tirano reflectida nos céus.
Não há trindade senão quando Deus vê o cu com um jogo de dois espelhos. Cremos que a ressurreição da carne se dará tão-somente nos domínios do espelho, do nitrato de prata e do celulóide.
Cremos na encarnação: se o espermatozóide se não espelhasse
nas águas do mar (madre), escassas esperanças teria de vida
e de espermanência. Vita venturi speculi.
Est modus in rebus.
Habent sua fata libelli.
Por isso é que, poeta, Antonin
Artaud não se ficava pela escrita; dava-se
também em espectáculo: via-se (vinha-se) no Espelho do seu Duplo:
Paris et notre parterre (Voltaire) (plateia efémera, espelho obscuro como o teu reflexo nas portas do metro de palhavã aos anjos),
até ao dia em que, não se reconhecendo nos remoinhos de tal
pântano, buscou asilo nas águas solitárias do
Láudanum. Faciamus experimentum in anima vili.»
Manuel João Gomes, in "Almanaque dos Espelhos"& etc, 1980

EM VIRTUDE DO AMOR
Libertei o quarto onde durmo, onde sonho
Libertei o campo e a cidade onde passo,
Onde sonho acordado, onde o sol se levanta,
Onde, nos meus olhos ausentes, a luz se acumula.
Mundo de pequena felicidade, sem superfície e sem fundo,
De encantos esquecidos logo que descobertos,
O nascimento e a morte misturam o seu contágio
Nas dobras da terra e do céu misturadas.
Não separei nada mas reforcei o coração.
De amar, tudo criei: real, imaginário,
Dei a sua razão a sua forma o seu calor
E o seu papel imortal àquela que me ilumina.
Paul Éluard, in "poemas de amor e de liberdade" campo das letras, 2000
trad. Egito Gonçalves
ilustr. Christian Northeast

FASTOS
O Verão estava sobre a sua rocha preferida quando tu me apareceste, o Verão cantava afastado de nós que éramos silêncio, liberdade triste, mar mais ainda do que o mar, cuja enorme comporta azul brincava aos nossos pés.
O Verão cantava e o teu coração nadava longe dele. Eu beijava a tua coragem, entendia a tua perturbação. Estrada através do absoluto das vagas em direcção a esses altos picos de escuma onde navegam virtudes assassinas para as mãos que seguram as nossas casas. Não éramos crédulos. Éramos rodeados.
Os anos passaram. As tempestades morreram. O mundo partiu. Sofria por sentir que era o teu coração que já não me conhecia. Eu amava-te. Na minha ausência de rosto e no meu vazio de felicidade. Eu amava-te, mudando em tudo, fiel a ti.
René Char, in "Furor e Mistério" relógio d'água, 2000
trad. Margarida Vale de Gato

«Um dia, ao regressar da casa de banho, dei com a porta do meu quarto fechada à chave e as minhas coisas empilhadas diante da porta. Vejam lá como eu tinha prisão de ventre nessa época. Era a ansiedade que me provocava prisão de ventre, acho eu. Mas será que eu tinha realmente prisão de ventre? Não creio. Calma, calma. E no entanto devia ter, porque como explicar de outra maneira essas longas, essas atrozes permanências nas retretes, nos W.C.? Onde eu não lia nunca, nem aí nem noutros sítios, não sonhava nem reflectia, olhava vagamente para o almanaque suspenso de um prego diante dos meus olhos em que se via a imagem a cores de um jovem barbudo rodeado de carneiros, devia ser Jesus, separava as nádegas com as mãos e soltava, um! hã! dois! hã!, com movimentos de remador, e o meu único desejo era ir para o quarto e deitar-me. Era mesmo prisão de ventre, não era? Ou será que confundo com diarreia? Tudo se mistura na minha cabeça, cemitérios e casamentos e as diferentes espécies de fezes.»
Samuel Beckett, in "O Primeiro Amor" hiena, 1985
trad. Rui Caeiro
«Paris é uma cidade de que se pode falar no plural, tal como os gregos falavam de Atenas, porque há muitas parises e a dos estrangeiros só superficialmente tem algo em comum com a Paris dos parisienses. O estrangeiro que cruza Paris de automóvel e vai de museu em museu não suspeita sequer da presença de um mundo que lhe passa ao lado sem que ele o veja. A não ser que se tenha realmente perdido tempo numa cidade, ninguém poderá considerar que a conhece bem. A alma de uma grande cidade não se deixa apreender facilmente; é preciso, para comunicar com ela, termo-nos aborrecido, termos de algum modo sofrido nos lugares que a circunscrevem. Seja quem for, pode, sem dúvida, munir-se de um guia e constatar a presença de todos os monumentos, mas dentro dos próprios limites da cidade de Paris existe uma outra cidade de tão difícil acesso como foi dificíl outrora o acesso a Timbuctu.»
Julien Green, in "Paris" tinta da china, 2008
trad. Carlos Vaz Marques

ÉS A TERRA E A MORTE
És a terra e a morte.
A tua estação é a treva
e o silêncio. Não há coisa
que viva mais do que tu
afastada da manhã
Quando pareces despertar
toda tu és dor,
está-te no olhar e no sangue
mas não a sentes. Vives
como vive uma pedra,
como a terra dura.
E há sonhos que te vestem,
movimentos, soluços
que ignoras. A dor
Como a água de um lago
estremece e envolve-te.
Há círculos à flor da água.
Deixas que se desvaneçam.
És a terra e a morte.
Cesare Pavese, in “O Vício Absurdo" &etc, 1990
trad. Rui Caeiro
És a terra e a morte.
A tua estação é a treva
e o silêncio. Não há coisa
que viva mais do que tu
afastada da manhã
Quando pareces despertar
toda tu és dor,
está-te no olhar e no sangue
mas não a sentes. Vives
como vive uma pedra,
como a terra dura.
E há sonhos que te vestem,
movimentos, soluços
que ignoras. A dor
Como a água de um lago
estremece e envolve-te.
Há círculos à flor da água.
Deixas que se desvaneçam.
És a terra e a morte.
Cesare Pavese, in “O Vício Absurdo" &etc, 1990
trad. Rui Caeiro

«O simulacro das noites comuns. E mais abaixo escrevo o sonho que nasceu há dezanove anos e que não cheguei a contar-te porque qualquer pormenor reluzente me distraiu (a nitidez de uma folha de árvore no chão, a virtualidade duma palavra resolvida na memória). Um sonho que começa num café. Um café dum país. São duas horas da manhã. Não há ninguém no café. Os criados entretêm-se com o dinheiro por detrás das paredes forradas de azulejos com barcos sem nada. Estou sozinho no café. Lá fora há um silêncio. O mesmo silêncio de um livro aberto. Chove e há um nevoeiro. Um nevoeiro tão denso que entrou já pela porta do café e se espalhou religiosamente por todos os cantos à volta do calor da minha cabeça. Abro um livro. Custa-me ler. As palavras vão-se desfazendo com a grossa humidade do nevoeiro até as páginas ficarem totalmente brancas, lisas. Folheio mais. As palavras desaparecem lentas, miraculosas. E o livro fica inútil. Tosco. Por fim, depois de acabar de folhear, ver todas as páginas e de ter repousado o livro sobre o canto mais claro e afastado da mesa um afigura pertinente sobe a porta e vem devagar, muito devagar até junto de mim. Pedinte? Não sei ainda. Só me apareceu ainda seis vezes. Não sei também porque é que ela me convida a descer os degraus que conduzem à cave e me força a abrir o ábaco e a colocar as bolas sobe o pano esverdeado. Impõe depois um número fixo. Até à carambola cem. Ela fica sentada numa cadeira. Vendo-me jogar. Eu que jogo por ela e por mim. Nunca falamos. Quando jogo por ela sinto uma força estranha nos olhos e os dedos ganham um maior equilíbrio. Parece que dormem. Ela ganha sempre na última jogada embora eu seja o campeão da Beira Litoral. Quando vou na septuagésima oitava bola e ela no caminho da octogésima segunda, um empregado assoma à esquina da cave e diz-me:
- A jogar sozinho a estas horas? Desculpe mas daqui a dez minutos temos que fechar…
E vai-se embora. É estranho que o empregado nunca tenha reparado nela. Ela está aqui ali vestida de preto até aos pés. Muito quieta, dicionário de sono. Os olhos apenas. Sabendo. Depois da última jogada enquanto eu poiso o taco e sacudo o dinheiro para o pano verde, ela levanta-se, começa a subir as escadas e na penúltima escada volta-se e diz: «a primeira vez que me ganhares será a última».
Tenho pensado muito nela. Não sei se isto é sonho mas parece que me acontece. Que é real. Que me. E penso nela. Muito. Ela. Vestida de preto e de olhos sem país. Ela, talvez a morte.»
Manuel da Silva Ramos, in “Os três seios de Novélia” dom quixote, 2008
- A jogar sozinho a estas horas? Desculpe mas daqui a dez minutos temos que fechar…
E vai-se embora. É estranho que o empregado nunca tenha reparado nela. Ela está aqui ali vestida de preto até aos pés. Muito quieta, dicionário de sono. Os olhos apenas. Sabendo. Depois da última jogada enquanto eu poiso o taco e sacudo o dinheiro para o pano verde, ela levanta-se, começa a subir as escadas e na penúltima escada volta-se e diz: «a primeira vez que me ganhares será a última».
Tenho pensado muito nela. Não sei se isto é sonho mas parece que me acontece. Que é real. Que me. E penso nela. Muito. Ela. Vestida de preto e de olhos sem país. Ela, talvez a morte.»
Manuel da Silva Ramos, in “Os três seios de Novélia” dom quixote, 2008

O BANHO
ele insistirá em
ler coisas no mais simples acto dela.
o banho, que ela toma
porque ele quer. o banho
ela toma para se limpar.
ritual. ritual sempre
na vida dele. ela toma o seu banho
para se aprontar.
e ele a maior parte das vezes decide
que ela o quer sem banho. másculo.
o que lhe agrada mais é
ela tomar sempre banho.
na banheira dele. na água dele. esposa.
Joel Oppenheimer, in "Antologia da novíssima poesia norte americana" futura, 1973
trad. Manuel Seabra

O SURFISTA
O surfista vive fechado no seu autismo narcísico. A própria namorada só raramente lhe arranca uma palavra (é certo que também não sabe dizer muitas). Com amigos do surf grunhe uns sons que eles descodificam, à maneira deles, como observações sobre o efeito da meteorologia no estado do mar. Tantas horas passadas, dia após dia, sem pôr os pés em terra fazem com que esqueça coisas básicas da vida normal. Por exemplo, houve aquela tentativa recente de chegar a uma praia nova em que precisou de consultar as direcções escritas numa placa na auto-estrada: deu-se conta de que já não sabia ler. O surfista não come peixe. Pizza, sim; hambúrgueres, às dezenas. Peixe é que não. Estranho. Ele que é uma espécie de peixe e vive no mar! A dieta do peixe costuma ser… peixe. Portanto que nenhum surfista leve a mal a pergunta: vocês, os surfistas, não se comem uns aos outros?
(introdução ao quotidiano)(…) Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um pedaço do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer de tão cortada nos dois lados. (…).
Herberto Helder, in “Photomaton & Vox” assírio & alvim, 1995
foto. Daniel Blaufuks
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