A FORÇA DE ESPERAR

Mais vale falar para confessar o meu quinhão de sorte:
Não tenho nada de meu, tudo me tiraram
E os caminhos onde acabarei morto
Ando por eles como um escravo de cabeça baixa;
De meu só tenho o que sofro:
Lágrimas, suores e o mais penoso esforço.
Tudo somado sou um objecto de piedade
Se não for de vergonha aos olhos do mundo dos fortes.

Como não importa quem tenho uma vontade
Desvairada de comer e de beber;
Quanto a dormir sinto uma nostalgia ardente:
Como uma besta, num interminável quente.
Durmo pouco ou nada, folguedos não são comigo,
Nunca fodo uma mulher bonita;
E, todavia, o meu coração, vazio, vai sempre a direito,
Apesar da dor, nunca pára para parar.

Poderia ter rido, ficado tonto com o meu capricho
A aurora em mim podia escavar seu ninho
E resplandecer, subtil e protectora,
Sobre os meus semelhantes que teriam florido.
Não tenhais piedade, se a vossa escolha
É serdes estúpidos e sem justiça:
O dia virá em que serei
Um dos construtores de um edifício vivo,

A multidão imensa em que o homem é um amigo.


Paul Éluard, in "últimos poemas de amor" relógio d'água, 2002
trad. Maria Gabriela Llansol

ilustração de Gérard Dubois

Ensaio Filosófico e Literário publicado em 1970, a moeda viva está povoada de simulacros, fantasmas, imagens, visões de corpos que se esgueiram ou de seres de fuga que se expõem. É toda uma panóplia de conceitos que servem para construir o percurso do valor numa zona de trocas, desejo e perversão, inspirada e quetionadora de autores como Sade, Nietzcshe ou Fourirer. Tal como os «quadros vivos» pintados por Klossowski, o texto procura cristalizar o momento da passagem ou da ressurreição de um corpo inerte para um corpo vivo, de um valor de referência neutro para o seu equivalente em emoções e sensações, em prazer e sofrimento. A emoção voluptuosa em circulação é o corpo em movimento. A moeda viva é o signo libertário dos corpos que já-ainda são escravos das sociedades ocidentais capitalistas. Quanto ao sujeito, é um sequaz perverso de identidade não constituída que só poderá emancipar o seu corpo próprio, inconfesso enquanto tal, mas existente, na pura troca pelo de outrem.


Pierra Klossowski (Paris, 1905-2001)

Na transversalidade da sua obra inclassificável, Klossowski fez filosofia, produziu literatura e criou uma arte cénica singular, tanto na representação à frente das câmaras como na própria pintura — em forma de cenários reveladores de personagens desenhadas em tamanho real: os «quadros vivos». O imaginário infantil e juvenil do autor foi povoado pela presença real e fantasmática de familiares e amigos como Rilke, Gide e o seu irmão Balthus; mais tarde, conviveu com Breton, Foucault, Bataille, Blanchot ou Deleuze, que fizeram luz sobre os seus textos literários: Sade, meu Próximo, a trilogia As Leis da Hospitalidade ou Baphomet, entre outros. As suas traduções, nomeadamente de obras de Virgílio ou Nietzsche, geraram controvérsia devido à linguagem nova e estranha que Klossowski traçou para dar supremacia à musicalidade da expressão sobre a sintaxe. Como complemento de uma expressividade transdisciplinar, além da participação ocasional em películas de cineastas como Pierre Zucca ou Robert Bresson, a pintura de Pierre Klossowski, à qual se dedicou quase exclusivamente nos derradeiros vinte anos de vida, ilustra a visão obsessiva de tornar vivos os corpos e os seus fantasmas.


in, Pierre Klossowski "A moeda viva" antígona, 2008
trad. Luís Lima

Pierre Klossowski, «quadros vivos»

Le Balcon, 1974

La Tour de la Meditation, 1976

Robert et Gulliver, 1980

Tarquin et Lucre, 1976

La Gladatrice, 1981

uma boa notícia...


Segundo uma notícia publicada ontem no JL as edições ASA acabam de publicar pela primeira vez em volume autónomo os poemas de Bertolt Brecht traduzidos por Paulo Quintela, no todo são cerca de 600 poemas que se estendem pelas 670 páginas que compõem a obra.

A QUEIMA DOS LIVROS

Quando o regime ordenou que queimassem em público
Os livros de saber nocivo, e por toda a parte
Os bois foram forçados a puxar carroças
Carregadas de livros para a fogueira, um poeta
Expulso, um dos melhores, ao estudar a lista
Dos queimados, descobriu horrorizado, que os seus
Livros tinham sido esquecidos.
Correu para a secretária
Alado de cólera e escreveu uma carta aos do poder.
Queimai-me! Escreveu com pena veloz, queimai-me!
Não me façais isso!
Não me deixes de fora! Não disse eu
Sempre a verdade nos meus livros?
E agora
Tratais-me como um mentiroso! Ordeno-vos: Queimai-me!


Bertolt Brecht, in "Poemas" asa, 2008
trad. Paulo Quintela

São João da Ribeira (Rio Maior), 27 de Fevereiro de 1933


FUGITIVO DA CATÁSTROFE

Eu sou um fugitivo da catástrofe
mulher que tens por nome solidão
Envolto numa aura de tristeza
alumbro com profunda voz de órgão
obscuros territórios da imaginação
Nunca na tua vida te ouviram cantar
a tua juventude restaurada
É em Madrid que longe de ti
do teu único rosto oposto à solidão
Deixaras de servir havia muito
sulfúricas profundidades demoniacas
e o mundo foi triste para sempre
Somos da terra quando sob a terra
temos uma pessoa de família
e há costumes de pássaros velozes
espaço de solidão e esquecimento
Vê-se que um morto está muito sozinho
choras à chuva choras duas vezes
À cor da claridade do crepúsculo
por teres chorado no ventre da mãe
havias de nascer de olhos abertos
o meu entretimento é sentar-me a esperar
os visitantes das meus pesadelos
Era uma quinta-feira era um dia
assim aprenderei a ser um homem
criatura hermética e hostil
de intuição forjada da desdita
Conheço os utensílios do bem-estar
se não receio deus temo os materiais
e fujo dessa peste da insónia
do universo da imaginação
da matéria cansada do manejo
Um meio-dia unânime na terra
ultrapassei a margem do conhecimento humano
os mensageiros da concupiscência e
definitivamente solitário
venci a fantasia pelo menos
Até então não morrera ninguém
por isso não havia cemitério
Como se em algum lugar do ar
a música existisse realmente
as pessoas velozmente andavam
com seus pés sigilosos pela casa
Se um único nome alguém teve alguma vez
e que com dignidade o transportou até morrer
e num estado de alucinada lucidez
conheceu os deliciosos peixes das insónias
no inútil costume de dormir
na fidelidade sua eterna à vida
realidade tão reconfortante
como esse deslumbramento resplendor da alegria
eu canto os grandiosos pés caminhadores
por um desolador esgotamento
no volume do pão quando amanhece
na clepsidra secreta do meio-dia
que me chega intacta a distância
Cheguei aqui onde hoje estou
por uma alheia secreta madrugada e
vi a mulher sem peso nem volume
cheirando às flores murchas dos cabelos
Meu deus como arrancar à solidão os mortos
a essa morte que há dentro da morte?
Inclusive os mortos envelhecem
obedecendo à sucessão dos anos
Que é das ruas antigas de grinaldas e flores dos
salmos inteligíveis da alegria
da lâmpada de azeite acesa para sempre?
Aconteceu no átrio das begónias:
ao alvedrio da morte abandonados
ninguém mais reparou no seu amor
Eu transporto sardinhas portuguesas
estou fora do alcance dos cuidados
apesar das pressagias chuvas do outono
Resta-me ainda o café isso me resta
um silêncio odoroso a flores murchas
num ajuste de contas com a vida
Sou alto como a própria solidão
mas sob aquela madrugada lúgubre
com a obstinação recôndita dos mortos
eu sofro muito mais por possuir um nome
Quando mordias um secreto pranto
nos bocejantes domingos da morte
gostava de andar de quarto em quarto
entre as algas da minha intimidade
Nesta outonal paixão dos meu sentidos
já entristeces na distância larga
cavada como vala entre nós dois
Coração condenado à inteira incerteza
custou-lhe enormemente a descobrir
os privilégios da simplicidade
pelo ar azulado da neblina
Sempre o melhor amigo é o que acaba de morrer
Uma tarde de agosto oh o mês de agosto
chovia tristemente nessa tarde
Passei aquela tarde a ver cair
uma chuva miúda nas begónias
sítio onde apodrecem os afectos
um animal feliz um artesão sem nome
Passei aquela imensa triste tarde
a ver pela janela os velhos plátanos
por fim a invencível claridade do verão e celebrei
um honrado contrato com a solidão
naquela ao fim imensa noite de cavalos
à solta num novel jardim de nardos
Comi melão já nos finais do verão
quando aprendia a versificação latina
e contemplei a minha solidão
Cada dia mais próximos da morte vemos nela
uma mulher de cabelo afinal comprido
cava profundidade do silêncio
O que se pode é contemplar a chuva
espero que passe a chuva pra morrer após
os sóis de três verões consecutivos
Disponho por cadeiras os meus mortos
o tempo que gastavam em gastar-se
segundo um centro de recordações
E são recordações indestrutíveis
um comboio que passa toda a tarde
os prados da definitiva morte
a criança outonal e solitária
perdida entre variadas violetas
à hora prima das amendoeiras
os salmos lúgubres do fim da tarde
Encontro-me nas vértebras do sábado
vou até ao passado por desfiladeiros
murmúrios de gerânios já antigos
na última manhã da minha terra
Não quero saber nada nada importa
Há é gente que acerta gente que erra


Ruy Belo

in "Sião" frenesi, 1987
org. Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião

a poesia vai ao fragil...

Em Março as quintas vão ser de poesia…

www.fragil.com.pt

A NOITE DO JUIZO FINAL

Daqui dalém
pertissímo deste lugar indolente
meneiam-se as raparigas à solta
tão coxas
ardem migalhas róseas do século passado

de quando em vez
exterminadores de dragões rodam violentamente
o busto à esquerda e à direita
como figuras de herói
num cais de descarga

daqui dalém
campo adiante de tiro do sol
cavalga o homem-morcego
intrépido imoral indócil

de quando em vez
exterminadores de dragões
balançam acima da cabeça mandíbulas de dragão
como gigantes da floresta negra

tão coxas
as trevas já trotam
pelos cursos de água da calçada dos gigantes

de quando em vez
três amabilíssimas pessoas do sexo rodam descuidadamente
o corpo de mulher à esquerda e à direita
um pé à frente ar gracioso
por isso é que ressoam como rouxinóis
e escorregam de pé com todo o vagar no gelo da eternidade

daqui dalém
no olho do silêncio
oscilam as portas do silêncio


Max Ernst, in "identidade instantânea" & etc, 1983
trad. de Aníbal Fernandes

imagem: Max Ernst [ The Punching Ball or the Immortality of Buonarroti or Max Ernst and Caesar Buonarroti ] 1920

ANEXO. COMO ME TORNEI ENCANTADOR SIMPÁTICO E DELICIOSO

Durmo muito tarde. Suicido-me a 65%. A vida fica-me muito barata, para mim não é mais que uns 30% da vida. A minha vida tem 30% da vida. Faltam-me os braços, umas guitas e alguns botões. 5% são consagrados a um estado de estupor semi-lúcido acompanhado por crepitações anémicas. Estes 5% chamam-se DADA. portanto a vida é barata. A morte é um bocadinho mais cara. Mas a vida é encantadora e a morte também é encantadora.
Aqui há dias, estava numa reunião de imbecis. Havia muita gente. Toda a gente era encantadora. Tristan Tzara, um personagem pequeno, idiota e insignificante, dava uma conferência sobre a arte duma pessoa se tornar encantadora. Era, aliás, encantador. Toda a gente é encantadora. E espiritual. É delicioso, não é? Aliás, toda a gente é deliciosa, 9 graus abaixo de zero. É encantador, não é? Não, não é encantador. Deus não está à altura. Nem sequer vem na lista. Mas mesmo assim é encantador.
Os embaixadores, os poetas, os condes, os príncipes, os músicos, os jornalistas, os escritores. os diplomatas, os directores, os costureiros, os socialistas, as princesas e as baronesas, é tudo encantador.
Vocês, todos vocês, são encantadores, muito finos, espirituais e deliciosos.
É Tristan Tzara quem vos diz: gostava bastante de fazer outra coisa, mas prefere continuar a ser idiota, um farsante e um aldrabão.
Sejam sinceros, por um instante: o que acabo de vos dizer, é encantador ou idiota?
Há pessoas (jornalistas, advogados, amadores, filósofos) que julgam que mesmo os negócios, os casamentos, as visitas, as guerras, os diversos congressos, as sociedades anónimas, a política, os acidentes, os dancings, as crises económicas, as crises de nervos, são variações de DADA. Como não sou imperialista, não partilho dessa opinião; prefiro acreditar que DADA é apenas uma divindade de segunda ordem, que deve ser simplesmente colocada ao lado das outras formas do novo mecanismo das religiões de interregno.
A simplicidade, é simples ou é DADA?
Acho-me bastante simpático.

Tristan Tzara, in "sete manifestos dada" hiena, 1987
trad. de José Miranda Justo

Hugo Ball


— A fala não é o único meio de expressão. A fala é incapaz de significar as experiências mais profundas. a destruição do órgão da palavra pode ser uma forma de disciplina pessoal. Quando o contacto é interrompido, quando cessa a comunicação, começa o mergulho em nós mesmos, o desprendimento, a solidão. Cuspir as palavras — linguagem vácua, entorpecente, da sociedade. Simular modéstia, ou loucura, e permanecer tenso. Atingir uma zona incompreensível, imarcescível.

(de « a fuga para fora do tempo», Zurique, 1916)

Hugo Ball, in "textos de afirmação e de combate do movimento surrealista mundial" perspectivas & realidades, 1977
trad. de Mário Cesariny


Kurt Schwintters, 1922

discos de sempre…


Herbie Hancock [ future shock ] 1983, columbia records


Rockit

Lisboa, 25 de Fevereiro de 1855


DE TARDE

Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.

Cesário Verde, in "O Livro de Cesário Verde" assírio & alvim, 2004

brevemente...


Der Mann ohne Eigenschaften, Robert Musil


NOCTURNO

Neste anoitecer Vénus aparece sozinha
E no caminho de casa as penas são como seda
Como a túnica de um múltiplo fantasma
Como asas despedaçadas num céu de leite.
Em breve as gaivotas transformar-se-ão na pedra
Que procurei e perdi além, na senda dos
Bosques onde eu e a minha ignorância
Caminhámos juntos sobre as mãos e os joelhos
E juntos continuamos a caminhar sob a palidez
De um belo anoitecer muito amado,
Mas este anoitecer é a minha prisão
E os polícias brilham entre as árvores.


Malcolm Lowry, in "As cantinas e outros poemas do álcool e do mar" assírio & alvim, 2008

tradução de José Agostinho Baptista


Malcolm Lowry (1909-1957) foi um poeta inglês, deambulou pelo mundo e pelos bares (o título Cantinas é, aliás, inspirado nos bares mexicanos). Viveu uma vida curta e intensa. Tinha uma escrita crua, violenta, mas também bela e visual. Enquanto vivo publicou apenas dois dos seus romances, um deles o livro que marcaria toda a sua obra, "Debaixo do vulcão".

A Gente Sã do Campo



Adaptação teatral de Sandro William Junqueira a partir do livro, Um bom homem é difícil de encontrar de Flannery O'Connor.

Dias 29 de Fevereiro e 1 de Março às 21.30, dia 2 de Março às 16.00 no CAPA — Centro de Artes Performativas do Algarve (Faro)



SINOPSE

Geografia: Geórgia, Sul dos Estados Unidos. Ano: 1959. Uma mãe, a filha, a família de caseiros, os pretos, um vendedor de bíblias e um pavão confrontam-se no seu quotidiano. É verão. Época de colheitas. Fala-se de Deus e nabiças. De torcicolos e doenças. De pessoas verdadeiramente genuínas. Também de tractores e acidentes. A vida também é feita de acidentes: "a batalha pela alma não é para os mansos". Uma peça que pretende reflectir sobre conflitos geracionais, sociais e raciais. E não menos importante: a possibilidade de um encontro súbito com Deus. Por vezes, para encontrarmos Deus, temos de apanhar com uma bala no peito, ou ser trespassados por uma árvore, ou perder uma perna.



ESTE ESPECTÁCULO

O fio narrativo do conto "A gente sã do campo" de Flannery O'Connor serve de esqueleto dramatúrgico a este espectáculo. Embora o tenha «contaminado» com fragmentos de outros textos da autora e «poluído» com palavras minhas. Foi um desafio de arquitectura lenta. Era meu desejo oferecer uma perspectiva mais ampla da sua obra, e daquele Sul. Tentei ser-lhe fiel. Tanto quanto pode ser alguém que se apaixonou. Apaixonei-me pela sua escrita, pela lucidez com que observou o ser humano. E pela estranheza. O seu universo é estranho. Os seus personagens são estranhos. De uma beleza estranha que depois vicia. Talvez Becket tenha razão: "Por vezes passam-se por lá coisas esquisitas. As pessoas são esquisitas. Talvez sejam anormais."

Sandro William Junqueira



co-produção: A GAVETA e TE-ATRITO
apoios: CAPA/ARCA
financiamento: Câmara Municipal de Portimão

NARCISO

Não me crio nem me invento, aceito-me como sou na minha humanidade... e com nervos, com músculos, com as voltas do cérebro para imaginar e as voltas dos intestinos para a vida, dentro das voltas da vida, não como se andasse sozinho, mas torto e acompanhado, triste e com a pele alegre de olhar os outros e de sentir o vento através da camisa e sobre as pálpebras fechadas, como nas tardes de moleza em braços de mulher.
Faço dos meus joelhos escada para os meus ossos, e em tudo de cima é que ponho a minha carne cheia de cerebrosinhos à flor da pele, tal como nasci.
Por isso, Narciso pelos meus dedos, sinto-me a vida que tinha de viver, e gosto dos meus olhos – segredos duma alcova aonde me possuo.

António Pedro, in "antologia poética" angelus novus, 1998
pintura: António Pedro [ Rapto na Paisagem Povoada ] 1947



Cristina Khuly [ shoot down ] 2007

NO SMOKING

Hoje não avançamos muito no silêncio
— o café lento, um sorriso esquartejado
de pé no balcão de zinco.
Pouco mais, terá de convir.
Um gesto de quem não pode
e espera o desastre, qualquer salvação
dessas, para que seja menos visível
a repressão do cigarro
ou o açoite do tempo no rosto.
Só não quero falar de literatura,
por amor de um deus qualquer.

Foi disso que falámos, não sei se por pânico
apenas. É tudo tão indesculpável: o corpo
encostado assim à demora de um café,
as palavras que quase foram, quase
puderam — modo de carícia inútil
que deixa ali para que entendesse ou não
a medida exacta de uma treva minha.

Voltei a vê-la, depois, roubada
por um sonho idiota — coisa
inenarrável em volta de livros
e de igrejas barrocas com elevador central.

Mas também aí não avançámos muito.
E o silêncio existe, pelo menos este.


Manuel de Freitas, in “Game Over” & etc, 2002

O Anjo Literário


Porque é que alguém começa a escrever? Existirá o momento da primeira inspiração literária, de um despertar narrativo?Ao inquirir sobre a entrada do mundo da literatura nas vidas de Herman Hesse, Ernest Hemingway, Raymond Carver, Ricardo Piglia e Vladimir Nabokov, o narrador deste livro, que pode ser – ou não – o autor Eduardo Halfon, tenta descobrir esse preciso e fugaz instante em que um anjo voando por cima da cabeça de uma pessoa a obriga a entrar no mundo da literatura. Mas esse momento existirá realmente?
«O Anjo literário» é uma pesquisa apaixonante sobre a literatura e o processo criativo dos autores. Um livro que não é simples de catalogar, um género híbrido, entre a ficção, o diário fragmentário, a recolha de contos, o ensaio e a entrevista, e que oferece um mosaico sobre o arranque literário de numerosos escritores, ao mesmo tempo que vai descrevendo e registando de forma reflexiva o próprio processo da sua escrita.


Eduardo Halfon nasceu em 1971 na cidade de Guatemala. Estudou Engenharia Industrial na North Carolina State University e leccionou literatura na Universidade Francisco Marroquin, Guatemala. Vive actualmente em La Rioja, Espanha. Publicou os romances «Esta no es una pipa», «Saturno» (Alfaguara) e «De cabo roto» (Littera books), para além de inúmeros contos, dispersos em diversas publicações. O «Anjo literário» foi finalista do prémio Herralde.

Eduardo Halfon "O Anjo Literário" cavalo de ferro, 2008





OS CAFÉS

Nos cafés desenham os paisanos, vulgares
senhores de bagaço e genebra, raspando o mármore
entre as folhas do jornal. Morrem os cafés
com o seu bilhar, bengaleiro e escarrador. Música
de rádio ainda sintoniza a serradura e os vidros
baços quando chove. Recordo cafés
da província, ou da cidade grande,
destruídos por ímpias criaturas do plástico.
Já não servem cevada ou eduardinho e o açúcar
não vem no açucareiro. Alguns ainda assinam
os jornais, o cobre limpam e pagam
aos paquetes. Autorizam cauteleiros, a caixa
do engraxador, a rapariga das violetas. Violentam
os cafés aqueles da usura, ratos do cimento.
Avessos à militança, são os cafés retracto militante
de algumas senhoras de batina e capa, entornando
no pires o leite do caniche. Alvoraçados os velhos
titilam nas retretes e os tabacos esgotam-se em suspiro.
São cafés com espelhos e amarelas luzes onde o néon
ainda não entrou. Também de padres são feitas
essas lojas; de marçanos, rapazelhos e trapistas.
Devolvendo teorias sobre os ditos. Em tempo de ditadura
era o café a teia da intriga, o bocejar jacobino,
o guarda-chuva pingando tristes ais. Insisto pois
no rádio e radiador. Quem lembra os pianos?
Carambolas secas já cortavam o fumo dos charutos;
no marcador quinze de partido; na mesa ao fundo,
igual à história antiga, dois jogadores de xadrez ou de gamão.


Eduardo Guerra Carneiro, in “contra a corrente” & etc, 1988

fotografia de Jeanloup Sieff

coisas para ver antes de morrer...


Mark Achbar [ the corporation ] 2003

The Whitest Boy Alive [ Golden Cage ]



SO GOODNIGHT

Não posso dizer que tenha aprendido grande coisa
nos últimos, digamos, duzentos anos.
Há muitas perguntas que vão perdendo altura
à medida que as penas tombam e também
as garras já não prendem como soíam.
Depois de ter visto de que palha são enchidos
os príncipes felizes, já não saio de casa
sem levar comigo uma carteira de fósforos.
Agora tenho mais tempo morto, só de cinco
em cinco anos compro uma pilha nova
para o relógio. Em vez de cortar os pulsos
cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
para lhe perguntar porque não tocas.
E o que mais me custa, no fim de contas,
é dar razão a Confúcio quando afirma:
quanto mais te ergues para Deus mais ele
de ti se afasta, deixando-te sozinho
a arrumar a casa. Mas estes chineses,
na filosofia moral como no ténis de mesa,
acabam sempre por levar a taça,
e por esta altura da minha queda já concedo
que seja o silêncio a condição natural
para uma ave sem nome que Setembro chamou
e que há duzentos anos não aprende nada.


José Miguel Silva


QUERELLE

Não tenho, para ser sincero,
muita simpatia por aquele rapaz
de óculos escuros que roubava livros
em Santarém. Rapou o cabelo,
decorou páginas inteiras de Genet,
sem que nada percebesse do amor.

E, no entanto, é ele que me pede agora
contas da vida que não vivi — esse
náufrago de espelhos abolidos e
de noites sem saída. Esse rosto imberbe
que finjo reconhecer ao longe.

Talvez lhe pudesse simplesmente
dizer: ao menos não engordei,
cretino, e escrevi mais poemas
do que tu alguma vez sonhaste.

Mas ele riposta, implacável:
não te voltarão a chamar rapaz.
Deves-me todos os poemas que escreveste.


Manuel de Freitas


in, "Walkmen" & etc, 2007

escutar...


vampire weekend, XL Recordings, 2008

Neste livro estão reunidas entrevistas publicadas entre 1992 e 2008. A selecção é da responsabilidade de Luiz Pacheco e de João Pedro George.

Entrevistadores:

Carlos Quevedo e Rui Zink, revista K, 1992
Baptista Bastos, O Inimigo,1994
Cláudia Galhós, Blitz, 1995
João Paulo Cotrim, Ler, 1995
Mário Santos, Público, 1995
Paula Moura Pinheiro, Já, 1996
Rodrigues da Silva e Ricardo Araújo Pereira, Jornal de Letras, 1997
João Pedro George, esplanar (blogue), 2005
Pedro Castro, A Capital, 2005
Pedro Dias de Almeida, Visão, 2005
Rodrigues da Silva, Jornal de Letras, 2005
Ricardo Nabais e Vladimiro Nunes, Sol, 2008

[ O crocodilo que voa ] tinta da china, 2008

Luis Cook [ the pearce sisters ] 2007




www.pearcesisters.co.uk

fui ali mas volto já...


Livros esquecidos #1


"Coração solitário caçador" de Carson McCullers é sem dúvida um daqueles livros a merecer uma boa reedição. A edição que se encontra no nosso mercado data de 1987 e está perdida numa enfadonha colecção de livros de bolso Europa-América. A breve obra de Carson McCullers encontra-se praticamente toda editada em português mas ficam ainda por editar os seu poemas, o teatro e a sua autobiografia inacabada.

Coimbra, 1 de Fevereiro de 1937


MONÓLOGO E EXPLICAÇÃO

Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.


Fernando Assis Pacheco, in "Sião" frenesi, 1987

Winchester 1907


Na madrugada do dia 1 de fevereiro de 1908, Manuel Buíça reúne-se com Alfredo Costa e outros carbonários na Quinta do Xexé, aos Olivais, onde planeiam o atentado. No mesmo dia pelas cinco horas da tarde: almoça com Alfredo Costa e mais três desconhecidos, numa mesa a um canto do Café Gelo, que fica perto da porta para a cozinha; saem estes para dar lugar a um outro que se senta à mesma mesa, com quem os regicidas conversam baixo. Consta que durante esta conversa Buíça terá dito, em tom jocoso, a um outro freguês do mesmo café sentado numa mesa à parte, o seguinte dito muito banal na altura: “Estamos aqui, estamos em Timor...”, relacionado já com a empresa que ia tomar em mãos.
Findo o diálogo, Buíça é o primeiro a se levantar, diz aos outros dois que vai buscar o varino e o resto, seria muito provavelmente a carabina winchester, modelo 1907, nº 2137, importada da Alemanha por Heitor Ferreira; com que alvejaria dali a algumas horas o rei Dom Carlos I e o princípe-herdeiro D.Luís Filipe.
Pelas quatro horas da tarde, do mesmo dia, Manuel Buíça com: Domingos Ribeiro e José Maria Nunes, posiciona-se no Terreiro do Paço, perto da estátua de D. José, ficando o primeiro perto duma árvore, frente ao Ministério do Reino, junto a um quiosque. Alfredo Costa, Fabrício de Lemos e Ximenes assumem posições debaixo da arcada do mesmo ministério; os seis aguardam a chegada do monarca. Misturados com a população que espera o desembarque da família real, acompanham atentamente a atracagem do navio a vapor: D. Luís, onde seguia a mesma.
Sensivelmente às cinco horas e vinte minutos, Manuel Buíça, avançando da placa central do Terreiro do Paço, a cinco ou oito metros de distância do landau régio, descobre a carabina, assenta um joelho em terra e abre fogo à retaguarda do mesmo: atinge o rei no pescoço, partindo-lhe a coluna vertebral, que o vitima instantaneamente; Buíça alveja o rei uma segunda vez, desta feita, no ombro esquerdo. No príncipe herdeiro também é desfechado um projéctil, que lhe atravessa a face esquerda, saindo-lhe pela nuca.
Finalmente, o Tenente Figueira, que escoltava o landau real, abate Manuel Buíça com uma estocada, não sem antes ser ainda atingido por este numa coxa.
Depois de morto, o seu cadáver é alvejado, trespassado e pisoteado, no Terreiro do Paço e no Arsenal, para onde é levado.

fonte wikipedia

O regicida…


Henri Cartier-Bresson [ Manuel Buíça ] 1908