
A SOMBRA SOU EU
A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei dó que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e que não me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!
Almada Negreiros, in "Poemas" assírio & alvim, 2005
imagem de Stuart Carvalhais

Às vezes escondo-me no corpo e ninguém me vê.
As pessoas falam comigo e não notam que eu não falo com elas.
Posso até dizer algumas palavras,
posso até exprimir-me num longo discurso,
mas a verdade é que não falo com elas.
Estou escondido algures no meio do meu corpo.
Enfio-me todo no esófago ou no centro da artéria aorta ou na veia jugular,
e, por vezes, quando estou mais tímido, chego mesmo a esconder-me nos músculos da planta do pé.
Apesar de não saber os nomes destes músculos escondo-me lá muitas vezes.
Aliás, é melhor fugirmos para sítios de que desconhecemos o nome: ficamos ainda melhor escondidos.
É a minha opinião.
A minha personalidade a refugiar-se inteira no dedo mínimo do pé esquerdo, vejam bem.
Por vezes acontece-me.
O meu EU alojado no dedo mínimo do pé esquerdo.
Os mais importantes pensamentos concentrados no dedo mínimo do pé esquerdo.
As minhas sensações mais íntimas escondidas no dedo mínimo do pé esquerdo.
Quando me pisam é que é uma desgraça.
Só se tiver a sorte de me pisarem o outro pé.
Quando me pisam o pé mais importante começo a gritar; e começar a gritar é o começo do fim.
Quando gritamos não nos podemos esconder.
O corpo vem todo à pele ver o que se passa.
A pele é como se fosse uma janela.
Quando gritamos de dor, todas as células do corpo vêm à janela, ou seja, à pele, para assistir à procissão.
Mas há muitas células do meu corpo que não concordam totalmente com as minhas ideias.
Obedecem-me porque não têm alternativa, mas nas costas gozam-me e por vezes insultam-me.
Prefiro mesmo assim os insultos.
Os insultos são pequenas pancadas vindas do fundo dos órgãos.
É mais ou menos suportável.
O terrível é quando se põem a rir de mim.
Eu digo:
— Sou um grande acrobata,
e sinto logo algumas células a rirem-se.
As costelas abanam todas.
Os dentes é como se tivessem muito frio.
Os dedos dos pés encolhem-se.
É como se soprasse uma rajada de vento no meio do corpo.
Ainda por cima riem-se de quem as alimenta.
Se isto não é ingratidão, não sei o que é ingratidão.
Células más, um dia ainda vos mato.
O problema é que elas me têm por refém.
É impossível matar as próprias células do corpo sem morrer.
Parecendo que não, esta vida é muito complicada.
Gonçalo M. Tavares, in "O homem ou é tonto ou é mulher" campo das letras, 2002

Num quarto a cama não erra.
Ao contrário do amor.
Exemplo:
A mulher, de pernas cruzadas, arranca ervas daninhas por falta de crença.
Segura num punho o espelho. Com dois dedos a pinça.
É certo que Deus não sabe desenhar sobrancelhas.
O homem de cócoras - olhos ao nível da colcha e da renda das cuecas -
segura o canário na mão. Não se interessa por sobrancelhas. Acredita mais em Deus.
(Digo canário de forma lírica. Embora nesta cama o lirismo não caiba).
Esfrega o pénis de forma ríspida.
A mulher - apesar de concentrada na tarefa estética - deixa o olho entrar.
Levanta o joelho esquerdo. Desce o nível da anca. Abre o campo de visão da cama.
Numa cama uma mulher não erra.
Ao contrário do homem.
Continua a acreditar em Deus.
Sandro William Junqueira (inédito)
fotografia de Leasha Overturf
ANNABEL LEE
Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar:
Mas o nosso amor era mais que amor —
O meu e o dela a amar;
Um amor que aos anjos do céu vieram
A ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demónios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
Edgar Allan Poe, in "Três poemas e uma génese" & etc, 1985
tradução de Fernando Pessoa

RUA DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS
Mal se consegue passar
com tanta música.
Estamos aqui, portanto,
com um fim preciso.
Parecemos generais
em cima de cavalos.
Eis o campo de batalha
onde a derrota nos espera:
esquinas de perder
até ao último bocejo
e pessoas a ouvir
a sua própria história
nas canções.
A música, não o tempo,
cicatriza certas feridas.
Vítor Nogueira, in "Bagagem de mão" & etc, 2007

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
Herberto Helder

Neste volume, o autor associa a fortuna do readymade duchampiano a uma especial sorte de «rendez-vous». Primeiro como pura «distracção» ou lógica do acaso, e logo depois enquanto estratégia de despersonalização do gesto criativo. Porém, para lá da experiência do «encontro», o readymade apresenta-se como obra de arte recorrendo apenas a uma tripla inscrição (título, data e assinatura) que abre esse poderoso processo de significação observado entre a imagem do objecto e o verbo que resulta do trabalho de inscrição.
Seguindo de perto leituras tão decisivas para a compreensão do fenómeno readymade como as de Octavio Paz, Rosalind Krauss e Thierry de Duve, David Santos procura ainda acrescentar à filiação pictórica ou fotográfica desse gesto central para a arte contemporânea uma outra espécie de ligação, ao sublinhar a importância do universo produtivo mas também cultural da própria indústria.
Partindo do «encontro» entre sujeito e objecto, o readymade propõe assim uma radical desvinculação da expressão individual do primeiro, para afirmar, na assunção directa do segundo, uma interdisciplinaridade pioneira que privilegia o jogo conceptual e linguístico, ampliando definitivamente as opções materiais e processuais da arte do século XX.
David Santos "Marcel Duchamp e o Readymade — une sorte de rendez-vous" assírio & alvim, 2007

Cada poema faz esquecer o anterior,
apaga a história de todos os poemas,
apaga a sua própria história
e até apaga a história do homem
para ganhar um rosto de palavras
que o abismo não apague.
Também cada palavra do poema
faz esquecer a anterior,
desfilia-se por um momento
do tronco multiforme da linguagem
e reencontra-se depois com as outras palavras
para cumprir o rito imprescindível
de inaugurar outra linguagem.
E também cada silêncio do poema
faz esquecer o anterior,
entra na grande amnésia do poema
e vai envolvendo palavra por palavra,
até sair depois e envolver o poema
como uma capa protectora
que o preserva dos outros dizeres.
Nada disto é raro.
No fundo,
também cada homem faz esquecer o anterior,
faz esquecer todos os homens.
Se nada se repete igual,
todas as coisas são as últimas coisas.
Se nada se repete igual,
todas as coisa são também as primeiras.
Roberto Juarroz, in "Poesia vertical" campo das letras, 1998
imagem de Christian Northeast

PROJECTO DE VIDA ETERNA
E depois de acabar, voltar ao mundo
após uma curta eternidade, já sereno
voltar de novo ao mundo, a este que sei,
com uma repetida juventude, e junto a mim
seu corpo como fora em sua idade de ouro
perdida, e assim admitir que a vida é infindável
como não pôde ser (agora já eterna),
porque houve um adeus, e o tempo envelhecia
não o tempo, que em si é eterno,
mas o que dele tocava: o mundo,
e aquele que, por sabê-lo, mais sofria.
Francisco Brines, in "A última costa" assírio & alvim, 1917
imagem de Jean-François Martin

«Por linguagem entendo a forma na qual e por meio da qual um artista pode exprimir os seus pensamentos, por mais abstractos que sejam, ou traduzir as suas obsessões, precisamente como num ensaio ou num romance. (...) O cinema libertar-se-á gradualmente da tirania visual, da imagem pela imagem, da anedota o imediato e do concreto, para se tornar num meio de escrita tão maleável e subtil como a palavra escrita. (...) O que hoje nos interessa no cinema é a criação desta linguagem.»
Alexandre Astruc

«A revolução electrónica, com o aparecimento à escala planetária do processador de texto, do cálculo electrónico e da rede informática, configura bem mais uma mutação do que a invenção dos caracteres móveis na época de Gutenberg. Aquilo a que chamamos realidade virtual poderia perfeitamente alterar o funcionamento habitual da consciência. Os bancos de dados, que atingem já uma capacidade de armazenamento quase infinita, hão-se substituir os labirintos incontroláveis das nossas bibliotecas por um punhado de circuitos. Qual será o efeito disso na leitura, na função dos livros tal como os conhecemos e amamos?»
George Steiner, in "O silêncio dos Livros" gradiva, 2007
imagem de Pep Montserrat

A TERRA PROMETIDA
(excertos)
As manchas de sangue a alastrar
Encontradas nas noites da memória
Depressa se isolam no vazio
A sangrar sozinhas.
Rosa secreta, abres-te sobre o abismo
À lembrança do teu brusco perfume.
O milagre evocado cruza então
A minha noite com essa noite
Onde, para te perder e encontrar, persegui,
Mais ardentes à medida que mais livres,
Deslumbramento e mordedura.
Já podes dizer a morte,
Já podes ver a nuvem negra
Insaciável desenfrear
Uma cavalgada de tempestades.
Se por um instante ignorar de novo o tempo,
Voltarias a vibrar com esse raio
Que nos foi destinado.
Feliz, inanimada?
A noite irrespirável perde o fôlego
Se vós, meus mortos, e os poucos vivos amados
Não me voltarem ao pensamento.
À força de solidão, compreendo, à noite,
Mas sem a vossa ternura não compreendia.
Sufocada pelo estertor ela apaga-se,
E vem, volta fora de si,
E sempre a ouço no fundo de mim
Tornar-se cada vez mais viva,
Clara, terna, terrível, mais amada,
A tua voz mata.
O amor já não é aquela tempestade
No assombro da noite
Que outrora ainda me amarrava
Entre insónia e delírio.
Agora é o clarão desse farol
Para onde o velho capitão
Avança, calmamente.
Giuseppe Ungaretti, in "Rosa do mundo" assírio & alvim, 2001

VÍRGULA
Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.
A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.
Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.
E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.
Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida.
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.
António Maria Lisboa, in "Poesia" assírio & alvim, 1995
imagem de Hadley Hooper

«Se tivesse que fazer o meu próprio balanço, deveria dizer que sou o resultado das minhas horas perdidas. Não exerci profissão alguma e desperdicei muitíssimo tempo. Mas essa perda de tempo foi realmente um ganho. Só o homem que se mantém à margem, que não actua como os demais, conserva a faculdade de compreender algo de verdade.»
Émile M. Cioran
REI...
Rei é o nome da novela gráfica de António Jorge Gonçalves (ilustração) e de Rui Zink (texto) recentemente publicada pelas edições asa.
Para os mais curiosos em relação ao conteúdo do livro o ilustrador preparou-nos este vídeo de apresentação.

Quando me dizes, amada, que em criança não agradavas
Às pessoas, e que a tua mãe te repudiou
Até teres crescido e desenvolvido, eu acredito —
Gosto de imaginar em ti uma criança singular.
Também à flor da videira faltam as cores e a forma,
Mas baga madura encanta deuses e humanos.
Goethe, in “erótica romana” cavalo de ferro, 2005
Às pessoas, e que a tua mãe te repudiou
Até teres crescido e desenvolvido, eu acredito —
Gosto de imaginar em ti uma criança singular.
Também à flor da videira faltam as cores e a forma,
Mas baga madura encanta deuses e humanos.
Goethe, in “erótica romana” cavalo de ferro, 2005

AS HORAS TODAS
À soleira da queda do sono a vertigem
parece do avesso mão nenhuma me empurra
e a da tristeza que ela deixou — mesmo exausta
e contrair de espremer de purpurar —
estás apenas pousada nas minhas costas;
é que eu preciso das horas todas do estômago
da noite dormida: só nela cabe e pode
lentamente ser digerido o desamor.
António Gregório, in "American Scientist" quasi, 2007

«Ó velho oceano, os homens, apesar da excelência dos seus métodos não conseguiram ainda, ajudados pelos meios de investigação da ciência, medir a profundidade vertiginosa dos teus abismos; abismos há em ti que mais longas sondas, e as mais pesadas, confessaram ser inacessíveis. Aos peixes... isso é permitido: não aos homens. A mim mesmo perguntei por vezes que seria mais fácil de conhecer: a profundidade do oceano ou a profundidade do coração humano? Muitas vezes, com a mão em pala sobre a testa, de pé nos barcos, enquanto a lua se balançava entre os mastros de um modo irregular, surpreendi-me abstraindo de tudo de tudo o que não era o fim que pretendia, ao esforçar-me por resolver este difícil problema! Sim, qual mais profundo, o mais impenetrável, o oceano ou o coração humano? Se trinta anos de experiência da vida podem até certo ponto inclinar a balança para uma ou outra destas soluções, seja-me permitido dizer que, apesar da profundidade do oceano, não se pode comparar, quanto a esta propriedade, com a profundidade do coração humano. Já convivi com homens virtuosos. Morriam aos sessenta anos e toda a gente exclamava: "Praticavam o bem neste mundo, quer dizer, praticaram a caridade: eis tudo, não é esperteza nenhuma, todos podem fazer o mesmo." Quem pode compreender o motivo porque dois amantes que ainda ontem se adoravam se afastam, por causa de uma palavra mal interpretada, um para Oriente e outro para o Ocidente, como os aguilhões do ódio, da vingança, do amor e do remorso, e nunca mais se vêem, ambos embrulhados no seu solitário orgulho? Quem pode compreender a razão pela qual qual as pessoas saboreiam não apenas as desgraças gerais dos seus semelhantes mas também as particulares dos seus amigos mais queridos, apesar de ao mesmo tempo sentirem aflição? Um exemplo incontestável para fechar a série: o homem diz hipocritamente que sim e pensa que não. É por isso que os javalis da humanidade têm tanta confiança uns nos outros e não são egoístas. A psicologia ainda tem muito que progredir. Eu te saúdo, velho oceano.»
Isidore Ducasse Conde de Lautréamont, in "Cantos de Maldoror" fenda, 1988

Gregor transformou-se em barata gigante.
Eu não: fiz-me aranhiço,
tão leve que uma leve brisa o faz
oscilar no seu fio de baba lisa.
Até que, contra a lei da natureza,
creio que tenho peso negativo,
e me elevo ao ar se me não prendo
ao canto mais escuro desta ilha.
Quando descer à teia derradeira
não se verá no mundo alteração, ou só
talvez alguma mosca mais contente.
Em noites de luar, na alta esquina,
ficará a brilhar, mas sem ser vista,
a estrela que tracei como armadilha.
António Franco Alexandre, in "Aracne" assírio & alvim, 2004
imagem de Odilon Redon

O PREÇO DE UM CHEIRO
Um homem de extrema pobreza, que não tinha mais que uma côdea de pão, aproximou-se da janela de uma cozinha e deixou embeber a sua côdea de pão no aroma requintado que subia dos fornos. Depois comeu-o.
O cozinheiro, que o tinha observado, mandou dois ajudantes agarrá-lo e pediu o preço do cheiro. Como o infeliz não podia pagar, os outros preparavam-se para o maltratar quando ele pediu:
— Algum de vós tem uma moeda? Que ma empreste por um momento.
Emprestaram-lhe uma moeda. Ele atirou-a para o chão de mosaico e disse ao cozinheiro:
— Escuta este barulho. Estás pago.
Jean-Claude Carrière, in "Tertúlia de mentirosos" teorema, 2000
O JAPÃO NO FEMININO

As duas autoras presentes neste volume viveram no período mais florescente da história literária e artística do Japão — a era Heian — que durou cerca de 400 anos (794-1185). Ambas são figuras centrais dessa Idade de Ouro, durante a qual as mulheres escritoras tiveram um papel decisivo na fixação do japonês como língua poética e também na divulgação de uma forma principalmente feminina — o tanka — que mais tarde foi dando lugar ao haiku, inicialmente masculino e (talvez por isso) mais cedo conhecido e divulgado no Ocidente. Ono no Komachi (834?-?) e Izumi Shikibu (974?-1034?) foram as grandes representantes da poesia da corte de então e marcos importantes na poesia japonesa de todos os tempos que, ao longo dos séculos, se foram tornando uma lenda e uma referência.
Komachi serviu na corte imperial durante o primeiro meio século da sua existência. A sua poesia, profundamente subjectiva, apaixonada e complexa, contribuiu para uma era poética de excelência técnica e expressiva e de grande profundidade emotiva e filosófica.
Shikibu escreveu já no período áureo dessa cultura e ficou conhecida pela sua consciência religiosa e pela intensidade erótica da sua poesia lírica, tão íntima e comovente.
As duas mulheres — a primeira uma figura lendária na história literária do Japão, a segunda a maior mulher poeta do país — ultrapassam a sua época e podem, segundo os críticos, igualar-se às maiores autoras de qualquer período e quadrante.

O «Haiku nem é feminino nem masculino», diz Tsuji Momoko num volume de 1997, concluindo que «tudo o que temos são poemas líricos e poemas de humor em forma de haiku». Esta apreciação, vinda de uma mulher poeta nascida em 1945, condensa perfeitamente o que é, no Japão moderno, o pensamento feminino face à velha forma tradicional.
Nas vinte autoras presentes nesta antologia podemos acompanhar o percurso do haiku, sobretudo a nível temático e vocabular, desde o século XVII até ao final do século XX, na transição para o XXI, já que alguns títulos das poetisas presentes datam de 2000 e 2001. Atravessamos assim um Japão quase feudal, um Japão faminto e derrotado, após a Segunda Guerra, e um Japão actual, próspero e ocidentalizado, cuja poesia continua a entrelaçar o mundo humano e o da natureza, conjugando o tradicional e o contemporâneo.
"O JAPÃO NO FEMININO I — TANKA, Séculos IX a XI" e "O JAPÃO NO FEMININO II — HAIKU, Séculos XVII a XX" assírio & alvim, 2007
Organização e Versão Portuguesa de Luísa Freire

COCKTAIL BUKOWSKI
Naquele dia
Vestira o meu corpo
Sem a alma,
Vestira o meu corpo
Sem a alegria,
Lavei os dentes
E esqueci-me do sorriso no lavatório,
Lavei as mãos
E deixei o tacto na toalha;
Nesse dia
Após o trabalho fui dormir,
Deitei o corpo
E reecontrei a alma.
No dia seguinte
Vesti a alma
E deixei metade do corpo esquecido
E a memória no secador de cabelo...
E algo inesquecível de que não me lembro aconteceu:
Porque hoje tenho a alma mutilada
E nem o corpo tenho.
Tiago Nené, in "Versus nus" magna, 2007



























