Pedes-me o corpo das assombrações.
Vais fumando uma música triste e repetitiva, enquanto olhas a agonia dos jacarandás tão bela. O cenário eléctrico dos candeeiros assusta-te, porém disfarças.

Perdes uma mão nos cabelos,
enquanto vais deixando cair o tempo no poço do tédio.

Chamo-te para uma fuga aparatosa, como se houvesse entre nós a cumplicidade de um crime ainda por cometer.
Mas — repara — lá fora soam já as sirenes, luvas policiais violam o silêncio dos amantes de rua em busca dos nossos corpos.

Podemos até estar mortos, derrubados por uma bala partilhada de coração a coração, a crescente poça de sangue onde já não nos distinguimos.

Ouves?: já não nos distinguimos, tu a apagar o cigarro,
eu a contar os teus dedos.


Vasco Gato, in "A prisão e paixão de Egon Schiele" & etc, 2005

3 comentários:

  1. Anónimo10:51 a.m.

    Gosto muito da poesia do Vasco Gato. Mais um bom poema de um livro excelente.

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  2. a meu ler é provavelmente um dos melhores poetas da sua geração...

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  3. post mais lindo: o Gato e os Amantes. :)

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