A PALAVRA IMPOSSÍVEL

Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-meo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Pare eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce —
A palavra que nunca se profere.


Adolfo Casais Monteiro

imagem de Gérad Dubois

BAIRRO LIVRE

Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz continência
perguntou o comandante
Não
não se faz continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia continência
Ora essa toda a gente se pode enganar
disse o pássaro.


Jacques Prévert


FUCK — Expressão anglo-sáxónica animal repetitiva, tradução há letra de uma legenda utilitária da televisão portuguesa: "vai bugiar". Verbo onde vamos todos acabar mais tarde ou mais cedo, quando tudo o que é (auto, tele, etc & tell-me) por excesso, esgotamento e sofreguidão, se tornar imóvel.


Joaquim Castro Caldas, in "Covém avisar os ingleses" quasi, 2002

REPUTAÇÃO DO AMOR

O amor dedica ao amor
Os dias sem chuva
E lindos como convém
Ao amor e suas preferências
Ao nome do mais antigo amor
À chuva da palavra amor
Ao único amor sem pena sem forte regresso
Ao amanhã dos doidos
Aos coveiros aos joviais companheiros do degredo
À lacinante à ardente lembrança da tatuagem
À minha querida morte
Aos que ainda duvidam
Aos tesouros dos cegos
Às lágrimas
À água ao vento ao fogo ao amor
À esperança do que mata o seu amor
Ao tormento de gelo e de fogo
Aos primeiros incidentes que assinalarão a revolta e o sangue
Aos lençóis dos crimes passionais
Aos belos lençóis dos suicidas
À coronha inexplicavelmente mais meiga do que o revolver
Às partidas que varrem o próprio ar
Às manhãs lacinantes de quem é rejeitado pelo amor
Ao chumbo das balas
Para que aqueles que não foram atingidos morram
Como cães envenenados
Às dores dos que despertam
Às noites vazias
À minha vida perdida
À perda sem remorso sem regresso sem alegria da vida
Para que esses que amam e estagnam na bonança
Se levantem e lancem as primeiras maldições
Ao tufão
Às manhãs mais tristes que tudo
Para melhor fazer desaparecer o meu nome
Para sacudir a poeira e cair feito poeira
Para amaldiçoar os momentos que dizem felizes
Para o despertador carregado de pólvora
Às estátuas nuas à noite
Ao mármore perdido
Por se ter uma cama de mármore
Por não ter-se um jazigo
Aos sinais de fogo da adaga
Às únicas às incomparáveis recordações sexuais
À boca de pedra do amor
Ao frio da água à noite
Para recomeçar
Ao mais carinhoso amor.

César Moro

(«Le surrealisme au service de lá révolution» nº5, Paris Maio de 1933)

in, Mário Cesariny "Textos de afirmação e de combate do movimento surrealista mundial" perspectivas & realidades, 1977

Diante da morte, diante de um suicida perante a morte, é de muito mau gosto lançar mão de qualquer tipo de literatura. Em tal situação, e perante um tal conviva, não tem qualquer préstimo o arsenal dos subterfúgios. Só talvez o silêncio. O silêncio que a morte faz à sua volta, quando acontece. Quando, por acaso maior ou menor e com mais ou menos solenidade, acontece.
Diante da morte, como em quase tudo, também é preciso distinguir. Há o que é importante e o que não não é.
O que não é, pôr de lado. Não deitar fora mas, resoluto, pôr de lado. Diante da morte não há tempo a perder. Frieza e paixão devem ser habitualmente doseadas.
Diante da morte o importante é sentir. Sabe-se lá como. E o quê.
A morte, provavelmente. O tempo que falta até lá. O que ainda resta.
Sentir, degustar o tempo esse como um percurso: de aprendizagem. de exaltação, de sabedoria.
Diante da morte o importante é estar.

Rui Caeiro, in "Sobre a nossa morte bem muito obrigado" & etc, 1989

Braque acaba de comprar um Citroën para continuar a fazer arte. Ultimamente entrou em casa com a mudança de velocidades dentro das calças.
Derain acaba de comprar um Citroën para levar a passeio Louis Vauxcelles e Jacques Blanche.
Picasso acaba de comprar um Citroën que sobe maravilhosamente às árvores. Diz que a viatura lhe urina na mão.
Matisse tem realmente um Citroën.
Metzinger comprou uma capota Citroën.
Juan Gris comprou um assento Citroën.
Archipenko comprou um limão Citroën.
Francis Picabia comprou um quadro cubista e o cubismo é todo ele um quadro Citroën.


Francis Picabia, in Mário Cesariny "Textos de afirmação e de combate do movimento surrealista mundial" perspectivas & realidades, 1977

Um homem deitou-se crente e a acordou descrente.
Felizmente, havia no quarto deste homem uma balança decimal médica, e ele tinha o hábito de se pesar todos os dias, de manhã e à noite. Assim, pesara-se na véspera, ao deitar, e a balança marcava 4 puds e 21 libras. Na manhã seguinte, ao acordar descrente, o homem voltou a pesar-se e a balança marcava 4 puds e 13 libras. «Daqui a conclusão: a minha fé pesava aproximadamente 8 libras», disse o homem.

Danill Harms, in "A velha e outras histórias" assírio & alvim, 2007

the blackheart gang [ THE TALE OF HOW ] 2005

[ making of ]
Edward Hopper [ New York Cinema ] 1939


CINEMA

No meu olhar,
de gosto,
ritmo,
aroma,
e seda,
com ele,
por mágica alameda
eu sonho ir ao espaço das visões,
que rolam como mundos,
numa sagrada musica visível,
onde eu me dispersaria...

Ó cinema, ó maravilha
em que eu me possuiria,
mas que apenas possuo
da sombra,
na minha solidão da multidão quieta,
entre as carícias do silêncio ao pensamento,
sem esforço levado
a sofrer, a sentir
o que de eterno há num momento!

Em ti, a vida
mais viva porquanto mais alada
em fantasias livre,
sem noites e sem dias,
brutal ou delicada
é síntese movendo-se
em transcendência de tristezas e alegrias,
numa calma final de nuvens macias como penas,
que tempestades não consomem,
de encontro ao metálico recorte
das projecções estéticas do homem!

Cinema!
mais que tudo, és
o que lá fora buscam almas inquietas!
Mais que tudo, nos dás
o sonho que das almas sobe
nas imagens dos poetas!


Edmundo de Bettencourt, in "Poemas" assírio & alvim, 1999

«Nikolai Gogol, o mais estranho poeta prosador que jamais produziu a Rússia, morreu numa quinta-feira de manhã, um pouco antes das oito horas, em 4 de Março de 1852, em Moscovo. Tinha quase quarenta e três anos, uma idade razoavelmente madura, considerando o tempo de vida ridiculamente curto que em geral coube a outros grandes escritores russos desta geração miraculosa. O esgotamento físico total resultante duma greve da fome voluntária (com a qual a sua melancolia mórbida tentara opor-se aos desígnios do Diabo) culminou numa anemia aguda do cérebro (associada, provavelmente, a uma gastroenterite devida à inanição) e o tratamento de purgas e sangrias vigorosas a que foi submetido apressou a morte dum organismo já gravemente diminuído pelas sequelas da malária e da má alimentação. Os dois médicos, duma energia diabólica, e que insistiam em tratá-lo como se fosse um simples lunático, para grande alarme dos seus mais inteligentes mas menos activos confrades, queriam debelar a insanidade do paciente antes de tentar remendar o que ainda lhe restasse de saúde corporal. Uns quinze anos antes, Puchkin, com uma bala nas entranhas, recebera cuidados médicos que seriam bons para uma criança com prisão de ventre. Os praticantes de medicina geral alemães e franceses de segunda categoria ainda dominavam a cena, pois a esplêndida escola dos grandes médicos russos ainda estava a formar-se.»


Vladimir Nabokov, in "Nikolai Gogol" assírio & alvim, 2007

A VIAGEM

Espantosos viajantes! que nobres histórias
Lemos nos vossos olhos fundos como os mares!
Mostrai-nos os escrínios das ricas memórias,
Jóias maravilhosas, feitas de éteres e astros.

Nós queremos viajar sem vapor e sem vela!
Para alegrar o tédio das nossas prisões,
fazei plas nossas almas, rígidas qual tela,
Passar os horizontes das recordações.

Dizei, que coisas vistes?


Charles Baudelaire, in "As flores do mal" assírio & alvim, 1996

La Traviata...


Gionne Leroy [ Verdi - La Traviata - Choeurs des Bohémiens ]

«Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos, purifica. Afasta o espirito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida — entre o homem e a terra.
O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz, os astros, as águas e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas. Aprendeu a nomear o mundo.
Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a lama — estagna o pensamento.
Por tudo isso, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água. Vive ali, e canta — sabendo que a vida não terá sido um abismo, se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele, o una de novo ao Universo.»

Al Berto, in "O anjo mudo" assírio & alvim, 2001

FÉRIAS...


Não vou para a Patagónia nem tão pouco para Timbuktu, infelizmente... serei breve.

«Não sou poeta, tenho de o reconhecer apesar de ser capaz de exprimir «o que sofro» — em boa verdade, apenas em monólogo. Seja o que for «exprimir» é a palavra adequada que resulta sempre. Funciona pois, como uma libertação, uma espécie de confissão na esperança de me absolver a mim próprio. Acima de mim não existe outro juiz ou padre.
Resta-me pouco tempo, todavia qualquer um se pode retirar, durante um mês, para uma floresta, ou um deserto. Aí pode descrever o seu problema, ou antes, circunscrevê-lo — desta forma ele é determinado mesmo que não seja resolvido. Talvez o cante ou, se descobrir uma caverna, o confie às paredes de cores minerais, preto, vermelho, amarelo. Aí o problema poderá permanecer adormecido até alguém, um dia, ao fazer a sua investigação, o descubra e desenterre, mas melhor seria se se conservasse escondido para sempre.»

Ernst Jünger, in "O problema de Aladino" cotovia, 1983

DOCE E DIVERSA É A COTOVIA

Doce e diversa é a cotovia
que canta no portão não liquidado
e contudo quantos quantos
ferozes animais
quantos loucos animais
nos arbustos arvoredos educados
Hölderlin
em sua torre de pedra
ou em casa daquele carpinteiro amável
em Tübingen
ou então Rimbaud
com o seu «pesadelo e lógica»
sofisma de loucura
Mas temos ainda outros mais recentes
que também partiram fatalmente do princípio
de que uma ligação directa
existe realmente entre
a linguagem e a realidade
entre o verbo e o Verbo
o que se me perguntares
acho ridículo

Também eu bebi e vi
a aranha.


Lawrence Ferlinghetti, in "Como eu costumava dizer" dom quixote, 1972
Paul Verlaine [ Rimbaud ]1872


MANHÃ

Fui eu que tive, um dia, uma juventude adorável, heróica, fabulosa, digna de ser escrita em lâminas de oiro? — excessiva ventura! Porque crime, porque erro mereço a minha fraqueza de hoje? Vós, que julgais que os bichos soluçam de dor, que os doentes desesperam, que a morte tem pesadelos, contai a minha queda e o meu estupor. Eu, não me explico melhor do que um pedinte a entaramelar Paters e Ave-Marias. Já não sei falar!
No entanto, creio ter findo hoje a relação do meu inferno. Era bem o inferno; o antigo, aquele que o filho do homem escancarou os portais.
No mesmo deserto, sob a mesma noite, sempre os meus olhos lassos se levantam para a estrela de prata, sem que Reis da vida, os três magos, coração, alma, espírito, respondam. Quando iremos, para além dos desertos e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, a nova sabedoria, a queda dos tiranos e dos demónios, o fim da superstição, adorar — nós os primeiros! — o Natal sobre a terra!
O cantar dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida!

Jean-Arthur Rimbaud, in "Iluminações - Uma cerveja no inferno" assírio & alvim, 1999

«Mas porque razão lhe dedico, então, essa adoração que não dou a outro escritor? Será porque o modo como falhou é externamente instrutivo? Será porque resistiu até ao último minuto? Admito que sim, gosto dos rebeldes e dos falhados. Gosto deles por serem tão humanos, tão "humano-demasiado-humanos". E é sabido que Deus também ama os ama mais que aos outros. Porquê? Talvez por serem o local onde o espirito é posto à prova? Talvez por serem os sacrificados? Como elegem se alegram os Céus quando o filho pródigo regressa! Será isto uma invenção de Deus ou dos homens? Acredito que, nestas coisas, homem e Deus se olham nos olhos. O homem, para cima; Deus para baixo. E, por vezes, os dedos tocam-se.
Quando me pergunto se amo mais os que resistem ou os que e rendem, percebo que são exactamente o mesmo. Uma coisa é certa. Deus não quer que cheguemos até Ele em inocência. Temos de conhecer o pecado e o mal, temos de sair do caminho, de nos perder, temos de perder a fé e desesperar. Temos de resistir enquanto tivermos forças para resistir, para que a rendição seja completa e abjecta. Espíritos livres, é nosso privilégio escolher Deus de olhos abertos e coração repleto, com um desejo que ultrapassa todos os desejos. Quanto ao inocente, Deus não se pode servi dele. Esse é o que "brinca no Paraíso eternamente". Tornar-se mais e mais consciente, mais e mais prenhe de conhecimento, mais e mais curvado ao peso da culpa, são privilégios do homem. Ninguém está livre da culpa; seja qual for o nível que se alcance, somos assediados por novas responsabilidades, novos pecados. Ao destruir a inocência humana, Deus converteu o homem num seu aliado potencial. Deu-lhe, por intermédio da razão e da vontade, um poder de escolha. E na sua sabedoria, o homem escolhe sempre Deus.»


Henry Miller, in "O tempo dos assassinos" hiena, 1985
Tony Scott [ the hunger ] 1983


Pedes-me o corpo das assombrações.
Vais fumando uma música triste e repetitiva, enquanto olhas a agonia dos jacarandás tão bela. O cenário eléctrico dos candeeiros assusta-te, porém disfarças.

Perdes uma mão nos cabelos,
enquanto vais deixando cair o tempo no poço do tédio.

Chamo-te para uma fuga aparatosa, como se houvesse entre nós a cumplicidade de um crime ainda por cometer.
Mas — repara — lá fora soam já as sirenes, luvas policiais violam o silêncio dos amantes de rua em busca dos nossos corpos.

Podemos até estar mortos, derrubados por uma bala partilhada de coração a coração, a crescente poça de sangue onde já não nos distinguimos.

Ouves?: já não nos distinguimos, tu a apagar o cigarro,
eu a contar os teus dedos.


Vasco Gato, in "A prisão e paixão de Egon Schiele" & etc, 2005

"O álcool de Miss Amélia é uma coisa à parte. É puro e queima na língua, mas quando desce, faz efeito durante muito tempo. Mas não é tudo. É sabido que, se uma mensagem é escrita com sumo de limão numa folha de papel branco, não se vê. Mas se o papel for aproximado do fogo, então as letras aparecem castanhas e o significado torna-se claro. Imagine-se que o Whisky é o fogo, que a mensagem apenas é conhecida pela alma do próprio — é assim que o valor do álcool de Miss Amélia pode ser avaliado. Coisas que passaram despercebidas, pensamentos que, acumulados no fundo da mente, são repentinamente revelados e compreendidos..."

Carson McCullers, in "A balada do café triste" relógio d'água, 2001

Daniil Harms, morto aos trinta e sete anos numa prisão da Leninegrado cercada pelos nazis, pertence à última geração dos grandes vanguardistas russos que ainda ousaram exprimir-se com liberdade e ironia (embora por isso não pudessem publicar e tivessem sido reprimidos). Harms só foi publicado muito parcialmente na URSS vinte anos após a sua morte, em 1962. É um dos mais originais representantes das novas perspectivas literárias que influenciaram a Rússia e o mundo desde o final do século XIX até ao final do primeiro terço do século XX. Fundador da OBERIU, Associação de Arte Real, erigiu o absurdo e o humor negro em arte nas suas peças e histórias curtas. É considerado o representante russo — casual ou não — do movimento surrealista. Além das histórias de Harms propriamente ditas, este volume contém três anexos: o Anexo 1 é o Manifesto oberiuísta. O Anexo 2, que pode considerar-se prosa típica de Harms, consiste nos cinco autos de interrogatório (entre Janeiro de 1931 e Julho de 1932) em que Harms «confessa» ironicamente os seus crimes, sobretudo o carácter anti-soviético das suas poesias infantis. O Anexo 3 é a tradução possível de três dessas suas poesias infantis.

in, Daniil Harms "A velha e outras histórias" assírio & alvim, 2007

DITIRAMBO*

Meu maresperantotòtémico
minha màlanimatógrafurriel
minha noivadiagem serpente
meu èliòtrópolipo polar

meu fiambre de sol de roseira
minha musa amiantulipálida
meu lustrefrenado céu grande
minha afiàurora-manhã

minha fôgoécia de estátuas
minha lábioquimia cerrada
minha ponta na terra meu arsgrima

meu diamantermita acordado?


Mário Cesariny, in "Pena Capital" assírio & alvim, 2004
*poema dedicado a Daniil Harms

A CIDADE DE PALAGÜIN

Na cidade de Palagüin
o dinheiro corrente eram olhos e crianças.
Em todas as ruas havia um bordel
e uma multidão de prostitutas
frequentava aos grupos casas de chá.
Havia dramas e histórias de era uma vez
havia hospitais repletos:
e pus escorria da porta para as valetas.
Havia janelas nunca abertas
e prisões descomunais sem portas.
Havia gente de bem e vagabundear
com a barba crescida.
Havia cães enormes e famélicos
a devorar mortos insepultos e voantes.
Havia três agências funerárias
em todos os locais de turismo da cidade.
Havia gente a beber sofregamente
a água dos esgotos e das poças.
Havia um corpo de bombeiros
que lançava nas chamas gasolina.

Na cidade de Palagüin
havia crianças sem braços e desnudas
brincando em parques de pântanos e abismos.
Havia ardinas a anunciar
a falência do jornal que vendiam;
havia cinemas: o preço da entrada
era o sexo dum adolescente
(as mães cortavam o sexo dos filhos
para verem cinema).
Havia um trust bem organizado
para a exploração do homossexualismo.
Havia leiteiros que ao alvorecer
distribuíam sangue quente ao domicílio.
Havia pobres a aceitar como esmola
sacos de ouro de trezentos e dois quilos.
E havia ricos pelos passeios
implorando misericórdia e chicotadas.

Na cidade de Palagüin
havia bêbados emborcando ácidos
retorcendo-se em espasmos na valeta.
Havia gatos sedentos
a sugar leite nos seios das virgens.
Havia uma banda de música
que dava concertos com metralhadoras;
havia velhas suicidas
que se lançavam das paredes para o meio da multidão.
Havia balneários públicos
com duches de vitríolo — quente e frio
— a população banhava-se frequentes vezes.

Na cidade de Palagüin
havia Havia HAVIA...

Três vezes nove um milhão.


Carlos Eurico da Costa, in "A cidade de Palagüin" & etc, 1980

minimalismo...


Tsai Ming-Liang [ não quero dormir sozinho ] 2006



TICK TOCK

"This is a story about people who like to waste time... waste my time, waste your time, waste their time; but time is against them. Time is everyone's master, including them..."
Tick Tock Tick Tock Tick Tock
3 piggies standing in the dock
Their pockets all empty and bare
Their futures, their homes, nowhere.

Auf wiedersehen...

Do vdjenja...

With egos they decide to lead
With stupidity they ooze and bleed
What comfort they could have had
Is now gone and up for grabs

Tick Tock Tick Tock Tick Tock
3 piggies standing in the dock
Their snouts all bloody and red
They should have said goodbye instead.

Ciao!
Auf Wiedersehn!
Arrivederci piggie!


Death in June, in [all pigs must die] 2001

HORAS

Gelava o tempo branco do relógio.
Fundiu-se um dia o mostrador
aberto para dentro
num foco por onde as horas negras fugiram enlouquecidas!
Lá para longe na faixa rósea da distância
recuaram ante o incessante alarido dos sinos
e logo regressara
desesperadamente procurando em vão
o maquinismo do relógio.

Via-se o dia fechado de silêncio
num quadrado de luz amarelada
e de novo preso o pé do jovem
quando ia para sair.


Edmundo de Bettencourt, in "poemas surdos" assírio & alvim, 1981