
Falo de um homem que possuía livros de poemas. Foi talvez o único real leitor. Ele abria os livros, um livro. Escolhia um poema. Era um ritual misterioso. Porque ele raspava as letras da página, cuidadosamente, como para conservar a integridade do papel. Raspava e reunião os pedaços negros. Aquecia então água com o vagar próprio da vertigem. Uma estranha ciência de vapores.
A infusão sucedia: a escura substância do poema misturava-se mais e mais com o fervor da água, até ao ponto em que tudo aquilo era vivo. O homem bebia então o poema e o poema flutuava no sangue, atingindo todos os lugares do corpo, reclamando todos os lugares do corpo. Não era previsível o efeito do poema. Cada poema dissolvido, sorvido, feito homem, trazia consigo uma possibilidade própria. O homem crescia com o poema, crescia mais para si, mais para o poema.
o homem que possuía livros de poemas, possuía uma biblioteca em branco. Páginas e páginas de poemas arrancados sem vestígios, um crime perfeito. Era uma biblioteca poética. Uma biblioteca que podia arder.
Vasco Gato, in "omertà" quasi (2007)
imagem de Gerard Dubois
Ainda ontem pensei no vazio que dos livros quando só nos rodeamos deles e não temos com quem partilhar as palavras... por vezes é supérfluo aquilo que há primeira vista não o parece. Por vezes fechamos os olhos às coisas importantes e cortamos em dois quem de nós precisa. Por vezes confundimos tudo.
ResponderEliminar:) gostei muito deste texto, grande Gato.
ResponderEliminarcurioso o que a "marta" disse... :)
ResponderEliminarmas estas palavras são de suspender o bater do coração*
há quem por momentos só tenha mesmo as palavras dos outros
ResponderEliminarhá quem depois as partilhe com os outros
há quem confunda mesmo tudo