O CAFÉ DOS LOUCOS, ANO 1...

No principio era o Herman Melville e o seu fabuloso Bartleby, depois veio o Enrique Vila-Matas com os seus Bartleby's & Companhia, de todos houve um que me despertou mais a atenção, Felipe Alfau... que apenas tinha escrito e publicado um romance em toda a sua vida, "O café dos loucos", dai começou a minha procura por um livro editado em Portugal numa editora já extinta no mercado livreiro... até que BINGO encontro um exemplar e leio num abrir e fechar de olhos, depois começa a aventura no mundo dos blogues, até que decidi abrir o meu café dos loucos, faz hoje 1 ano que aqui estou, e como tal agradeço a todos os que por aqui passaram e passam diariamente para beber a sua bica....
obrigado
M.
Felipe Alfau [ o café dos loucos ] puma editora, 1992O titulo refere um Café dos Loucos em Toledo do qual, no primeiro capítulo, praticamente todas as personagens principais são apresentadas como habitués, bons para os maus escritores de ficção que, tal como o autor, ali entram para observá-los. Lá está o Dr. de los Rios, o Médico ao serviço da maioria dos farrapos humanos que se agarram àquelas mesas; Gaston Bejarano, um chulo conhecido pelo nome de El Cogote; Dom Laureano Baez, mendigo profissional, rico; a criada/filha dele, Lunarito, a Irmã Carmela que é a mesma coisa que Carmen, uma freira fugitiva; Garcia, poeta que se torna perito em impressões digitais; o Padre Inocencio, monge salesiano; Dom Benito, o prefeito da Policia; Felipe Alfau; Dom Gil Bejarano, comerciante de sucata e tio de de El Cogote; Dona Micaela Valverde, três vezes viúva e necrófila; o senhor Olónzaga, em tempos conhecido por Mandarin Negro, um gigante, antigo escravo de galeras, baptizado e educado por monges espanhóis na China, antigo domador de borboletas num circo, antigo ponteado nas Filipinas espanholas, gerindo actualmente uma estranha agência de dívidas difíceis e outra de compra e venda de roupa de mortos... O cruzamento entre estas personagens é magnifico e o final surpreendente.
O café dos Loucos é um livro obrigatório, obra percursora do realismo mágico dos Latino-Americanos, bem como a invenção de escritores mais tardios como Jorge Luis Borges ou Adolfo Bioy Casares, enfim, um livro injustamente esquecido no nosso mercado.
FELIPE ALFAU
FELIPE ALFAU nasceu em 1902 em Guernica, Espanha. Emigrou para os Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial, e ai estudou musica e escreveu critica musical durante um breve período para La Prensa, o jornal espanhol de Nova Iorque.Tendo decidido escrever em inglês por pensar que não podia atingir o público espanhol, terminou O CAFÉ DOS LOUCOS em 1928, obra que veio a ser editada apenas oito anos depois.
Em 1929 a Doubleday publicou um livro para crianças, Old tales from Spain. Após a publicação de O CAFÉ DOS LOUCOS, Alfau abandonou a escrita e trabalhou num banco em Nova Iorque como tradutor.
Morreu em 1999.
NOTA.
Para que não seja acusado de ser um copista, uma vez que a mesma escolha foi feita num blog que respeito e considero um dos espaços mais agradáveis da blogoesfera, passo a mencionar quais os motivos que me levaram a fazer esta escolha:
motivo 1, este livrito foi impresso no mesmo ano que nasci, 1975, e 31 anos depois foi-me oferecido pelo portador do meu gene.
motivo 2, ter orgulho em ser portador de um exemplar autografado pelo próprio autor.
motivo 3, não conseguir passar um Natal sem pensar naquilo que nos rodeia...
contudo,
Feliz Natal !!
Para que não seja acusado de ser um copista, uma vez que a mesma escolha foi feita num blog que respeito e considero um dos espaços mais agradáveis da blogoesfera, passo a mencionar quais os motivos que me levaram a fazer esta escolha:
motivo 1, este livrito foi impresso no mesmo ano que nasci, 1975, e 31 anos depois foi-me oferecido pelo portador do meu gene.
motivo 2, ter orgulho em ser portador de um exemplar autografado pelo próprio autor.
motivo 3, não conseguir passar um Natal sem pensar naquilo que nos rodeia...
contudo,
Feliz Natal !!
esgar acelerado [ fire, walk with me ] 2006saberemos nós como esconder
o fogo no esguio trajecto das
árvores, trazer de cada gesto uma
timidez lúcida que se quer superar
em vantagem do amor mais louco,
mais violento, pudesse eu ser
violento contigo agora, esquecer
o coração avistado a partir do
peito tão óbvio e amar-te só pelo
lado mais prático, o corpo ao
pé do meu corpo e o sexo sem
outro feito, sem outro fim
valter hugo mãe
[ Exercício do Bom Amor ] traficantes ilimitados, Dezembro 20069 poemas sem título de valter hugo mãe para outras tantas ilustrações de esgar acelerado
—tiragem de 100 exemplares, numerados e assinados pelos autores—

A beleza está nos olhos do espectador. Se o espectador tiver falta de vista, pode perguntar à pessoa que estiver mais perto quais as raparigas mais giras. (Na verdade, as mais giras são na maior parte das vezes as mais chatas, e é por isso que algumas pessoas acham que Deus não existe.)
Woody Allen, in "sem penas" bertrand (1981)

A INVISIBILIDADE DE DEUS
dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
a sua invisilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão da sua bondosa mão
o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge estéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou alguma vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser meu.
Al Berto, in "o medo"
imagem de Greg Spalenka
POTLATCH [ o boletim da Internacional Letrista ] fendaPara quem se interessa pelos pequenos gestos brilhantes e ainda mais por aqueles que deliberadamente ignorados pela historiografia oficial, mas que mudaram o curso dos acontecimentos culturais e políticos do século XX, aqui fica uma breve sequência de eventos que estão na génese da publicação de POTLACH:
—Em 1946, Isidore Isou cria o movimento Letrista, em ruptura, bastante pacífica diga-se de passagem, com André Breton e o surrealismo. A poesia onomatopaica baseada na letra como unidade lexical mínima é o estandarte do movimento.
—Em 1950, como crime fundador do letrismo, quatro jovens interrompem a missa pascal de Notre-Dame de Paris, e um deles, disfarçado de frade dominicano, salta para o altar e lê uma homilia em que proclama aos fiéis a morte de deus, escapando (por milagre?) à subsequente perseguição da policia convocada pelos verdadeiros padres logo que se aperceberam do embuste.
—Em 1951, Guy Debord entra em contacto com os letristas em Cannes, vindos expressamente de Paris para contestar o conhecido Festival e exigir a projecção do filme de Isou "Traité de bave et d'eternité" feito de quatro horas de cinema discrepante.
—Em 1952, um pequeno grupo de jovens radicais, entre os quais Debord, constitui a Internacional Letrista (I.L.) uma tendência clandestina à margem do movimento.
—No mesmo ano, consuma-se a cisão da I.L. com Isou após este se ter demarcado de uma acção pública de sabotagem a uma cerimónia de entronização de Charles Chaplin por parte de establishment cultural da época.
—Em 1954, inicia-se a publicação do boletim POTLATCH.
—Por fim, em 1957, a I.L. desaparece para dar lugar a uma outra Internacional mais consistente, a Situacionista.
Em concreto, POTLATCH consiste numa série de pequenos opúsculos, na verdade simples textos policopiados publicados entre 1954 e 1957, enviados gratuitamente (em coerência com a designação) para algumas pessoas escolhidas de forma a produzir maior efeito. Isto é, tanto como informação como provocação. Teve vários responsáveis, várias designações editoriais, várias periodicidades, mas ao certo nunca ocupou mais do que uma duzia de pessoas (e na sua redacção de forma consistente ainda menos do que isso).
Apesar desta aparente precariedade orgânica, a influencia foi e continua a ser enorme. Nunca é preciso muita gente para perturbar as sociedades. As boa ideias chegam. E elas abundam nas folhas que se seguem.
do prefácio
COISAS PARA VER ANTES DE MORRER...
A mercadoria como espectáculo O espectáculo é a outra face do dinheiro: o equivalente geral abstracto de todas as mercadorias. Mas se o dinheiro dominou a sociedade enquanto representação da equivalência central, isto é, do carácter permutável dos bens múltiplos cujo uso permanecia incomparável, o espectáculo é o seu complemento moderno desenvolvido, onde a totalidade do mundo mercantil aparece em bloco como uma equivalência geral ao que o conjunto da sociedade pode ser e fazer. O espectáculo é o dinheiro que se olha somente, pois nele é já a totalidade do uso que se trocou com a totalidade da representação abstracta. O espectáculo não é somente o servidor do pseudo-uso, é já em si próprio, o pseudo-uso da vida.
Guy Debord, in "A sociedade do espectáculo" edições antipáticas

PODE-SE ESCREVER
Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar numa caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever
Pedro Oom, in "actuação escrita" &etc (1980)
...panfleto escrito por membros da Internacional Situacionista e estudantes da Universidade de Estrasburgo em 1966"Vasto rebanho julgando nunca o ser, a estudantaria que aposta, positiva, na carreira, acoita-se nesse seu redil que a protege: o duma mediocridade superior, ou doutoral.
Tudo se desfaz, na decadência e no nojo de um «modo de vida» que tem a patologia, e o desastre, no seu âmago, e o estudante julga poder continuar a sê-lo, pacifico, nesta paz onde tudo apodrece.
Supondo-se manhosamente escol, ou parte obrigatória dele, o estudante, porém, apenas se revela, dest'arte, como vanguarda — patética — da patetice social qu o produz assim."
Alice Corinde, in "Da Miséria do Meio Estudantil, Considerada Nos Seus Aspectos Económico, Político, Sexual & Especialmente Intelectual & de alguns meios para a prevenir" fenda (1983)
a montanha mágica

NUVEM DE PÓ
No vale das crateras, uma ou duas vezes em cada cem anos, um vento, uma espécie de nuvem de pó, sopra do fundo da terra, e pelos funis enxutos das crateras sobe, lambendo como a língua dos gatos, por três dias, as casas e as faces dos habitantes daquele lugar. Então, todos perdem a memória: os filhos deixam de reconhecer os pais,as mulheres os maridos, as raparigas os namorados, as crianças os pais e tudo se torna um caos de sentimentos novos.
Depois cessa o redemoinho dentro das crateras e, lentamente cada coisa volta ao seu lugar, não recordando ninguém o que, dentro da nuvem de pó, aconteceu nesses três dias.
Tonino Guerra, in "Histórias para uma noite de calmaria"
À MINHA MUSASenhora da manhã vitoriosa
E também do crepúsculo vencido.
Ó senhora da noite misteriosa,
Por quem ando, nas trevas, confundido.
Perfil de luz! Imagem religiosa!
Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido!
Corpo, que é alma escrava e dolorosa,
Alma, que é corpo livre redimido.
Mulher perfeita em sonho e realidade.
Aparição Divina da Saudade...
Ó Eva, toda em flor deslumbrada!
Casamento da lágrima e do riso;
O céu e a terra, o inferno e o paraíso,
Beijo rezado e oração beijada.
Teixeira de Pascoais
imagem de Greg Spalenka

Nunca desde os tempos bíblicos tinha caído sobre nós flagelo mais hipócrita, mais obsceno, mais degradante afinal do que a viscosa garra burguesa! Classe mais hipocritamente tirânica, cobiçosa, voraz, tartufa em bloco! Moralizante e aldrabona! Impassível e chorona! Fria diante da desgraça! Mais insaciável? Mais gulosa de privilégios? Mais anemificante? Mais faminta das riquezas mais vazias? Enfim podridão perfeita!
Louis-Ferdinand Céline in "Mea Culpa" antígona (1989)

UM GATO PARTIU À AVENTURA
As palavras de vidro que tu depões em teus seios, para me ofereceres, raspam estridentes na camada inacessível dos meus olhos;
Caem e eu sonho para espalhar plumas nos espaços;
Trago na mão esquerda, hermética, fechada duramente, as delicadas linhas epidérmicas,
Leio nesse rendilhado de sensações o roteiro da minha viagem livre, o meu voo solitário, que eu inicio saltando dos telhados para as janelas;
É na abstracção hipnótica do rosa íris que eu te vejo acompanhar a estranha aventura dum albatroz,
E é ao cair da noite que eu aceno longamente os meus braços;
É na harmoniosa vibração azul que eu transmito o Sol vermelho do poente e da tristeza,
e , quando as minhas mãos se transformam em pérolas puras, os
teus olhos gelam para serem os gigantes da noite;
Livre um gato desliza pela goteira escura da cidade,
livre uma pequena ilha nasce no ponto ignorado do Oceano,
livres as ondas escorregam na superfície marinha,
livres os pássaros e os cavalos na noite da lua encarnada,
livre eu chamo-te dos cumes das serras,
livres as ondas os cavalos e os pássaros;
Abandono a terra da ilha para viver nos abismos, nas cidades que crescem, nos beijos que enchem o vento,
E oiço a imensa máquina que esmaga o ferro da estrada construída, a cortina sedosa dos teus cabelos, eu e tu,
e vejo o cego que avança com os braços levantados para o mundo incompreensível,
e liberta os corpos visíveis: os teus lábios, os teus seios, o teu sexo; e mães batem às janelas e imploram: LAMA!,
A um canto morre em agonia o primeiro grito;
O gato parte à aventura pelos telhados, pelos vales e pelos sonhos.
Henrique Risques Pereira
imagem de Jay Ferranti

A DEFESA DO POETA
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.
Natália Correia
imagem de Gérard Dubois
Emma Santos "O Teatro" assírio & alvim (1981)Emma Santos escreve e interpreta a doença, a dor física e o sofrimento mental, denunciando as semelhanças entre a loucura dos métodos usados para a tratar e a própria loucura. Emma Santos defronta-se com a loucura das instituições psiquiátricas onde foi internada e onde lutou para recuperar a sua voz. Segundo a sua mãe, a loucura é o teatro pessoal de Emma e a sua comédia traduz-se numa enorme solidão, vivida entre electrochoques e as outras doentes.
"A Loucura, imagino-a mulher, alta, inchada pelos medicamentos, semi-nua, só com um roupão de nylon acolchoado às flores roxas ou cor de rosa. Vi-a lá no hospital, todas as doentes eram uma e a mesma, devorando bolos e guloseimas ou de cigarro nos beiços.
O homem louco é mais discreto, fuma sentado na poltrona, lê o jornal, joga às cartas e não conta o sofrimento aos uivos como a mulherzinha loucura. Enforca-se e deixa como recordação um sexo enorme e erecto.
A Loucura-Mulher pois há muito que foi castrada, privada da linguagem, sem poder limpar pigarro, ar idiota, malcastrada."
Emma Santos in "O Teatro"
(a presente edição de “O Teatro” reproduz o texto por si representado cenicamente, entre Dezembro de 1976 e Janeiro de 1977)































