Helene Knoop [ furious ]


AINDA NÃO

Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar

ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem

ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça

ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração


António José Forte

Dia Mundial da Arquitectura


Como é já sabido, dia 3 de Outubro comemora-se o dia mundial da Arquitectura, para tal efeito a Ordem dos Arquitectos (OA) preparou um vasto programa de celebrações que irão decorrer de Norte a Sul do continente e nas ilhas, até final de Outubro. Assim sendo, no dia 2 de Outubro na primeira segunda-feira do mês, irá decorrer na Biblioteca Municipal de Faro, a projecção do filme [ Metropolis ] realizado por Fritz Lang em 1927. A projecção será acompanhada pela leitura de textos por Sandro William Junqueira e musicado ao piano por Luís Conceição. A leitura dos textos será feita a partir de excertos de, Mário Cesariny, Gonçalo M. Tavares, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Allen Ginsberg, Albert Sánchez Piñol, entre outros, ao som de composiçoes de Béla Bartók, Frédéric Chopin e Ludwig van Beethoven.

Salazar, agora na hora da sua morte



Miguel Rocha nasceu em 7 de Março de 1968. Tem o curso secundário de Artes e Técnicas do Fogo da Escola António Arroio e o Curso de Desenho do SNBA. Dedica-se à publicidade durante nove anos e, após uma passagem pela revista Pais & Filhos, onde publica Pequenos Sarilhos, estreia-se para o público da BD em 1998, na colecção Quadradinho, com o jacobsiano O Enigma Diabólico (em colaboração com José Abrantes). Em 1999 publica Borda d' Água (LX Comics), Dédalo (Polvo) e As Pombinhas do Senhor Leitão (Baleiazul). Este último vale-lhe um prémio especial no Festival da Amadora. Em 2000 publica dois álbuns, Março (Baleiazul) e Eduarda (Polvo). Março vale a Miguel Rocha o Troféu Zé Pacóvio e Grilinho para o Melhor Desenhador Português. Eduarda, adaptação à banda desenhada de Madame Edwarda de George Bataille a partir da tradução de Francisco Oliveira, foi distinguido com o Troféu Zé Pacóvio e Grilinho para o Melhor Álbum Português. Em 2001, ano em que é o autor responsável pela linha gráfica do Festival da Amadora, publica [MALITSKA:] (Polvo), num regresso à colaboração com Francisco Oliveira, em 2003 A vida numa colher [Beterraba] (Polvo), em 2005 Borda d'água, o tempo das papoilas (polvo).
Agora chega-nos o seu mais recente trabalho, e talvez o mais complexo de todos, trata-se de uma inédita história da vida de António de Oliveira Salazar da infância à morte em banda desenhada, elaborada por dois nomes de prestígio do mundo cultural português: João Paulo Cotrim, jornalista ,colaborador de O Expresso, autor de vasta bibliografia e que dirigiu desde a sua abertura, em 1996 até 2002, a bebeteca de Lisboa e foi director do Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada e o já referido Miguel Rocha.
A Parceria A. M. Pereira retoma, assim, algo do seu passado , pois em 1974, nas suas instalações de então, situadas na R. Augusta 44 a 54, realizou uma exposição de banda desenhada, uma das primeiras efectuadas entre nós.



O retrato que Miguel Rocha faz da banda desenhada portuguesa revela a mesma maturidade a que nos habituou como autor, constituindo uma interessante pista de reflexão. Entre os factores que informam a situação actual da BD portuguesa, Miguel Rocha começa por destacar a ausência de um verdadeiro público e de meios próprios de divulgação. Depois, existe uma crítica a que falta profissionalismo. Tudo somado, falta sobretudo uma verdadeira cultura de banda desenhada em Portugal.

João Paulo Cotrim - Miguel Rocha
"Salazar, agora na hora da sua morte" Parceria A.M. Pereira


" tenho um essencial desejo dessa natureza
viva e morta que ubiquamente é eu
fumo-me para me encontrar entre essa neblina
entre a circunstância dos dedos e das rugas
consumo-me burlescamente ultralíricamente
o que me sai do genital celeste
a minha vida a existir é um vicio textual
uma vontade de partículas incendiadas
pelo cego sentido que comanda tudo "


Pedro Sena-Lino

imagem de Craig LaRotonda

O Homem que desenhava na cabeça dos Outros


O Homem que desenhava na cabeça dos Outros de Pedro Zamith, nasce de um projecto cujo objectivo seria, primeiro surgirem as ilustrações e destas a história, invertendo desta forma o processo criativo normalmente utilizado na ilustração. O convite foi feito a vários nomes da literatura portuguesa, entre os quais constam, Adília Lopes, David Soares, Hugo Gonçalves, Jacinto Lucas Pires, João Tordo, Rui Zink entre outros.
Com grande agilidade narrativa, os autores constroem um universo perfeito de histórias, contos e poemas que combinam na perfeição com o universo do ilustrador. Um livro obrigatório...

"Odete e Franciete
um dia deram sumiço
Franciete foi de parto
Odete também foi disso.

Odete e Franciete
são eternas como a luz
por isso o namorado d'ambas
hoje se chama Jesus. "

Rui Zink


Pedro Zamith
" O homem que desenhava na cabeça dos outros " oficina do livro


CERTEZA

Se te falo é para melhor te ouvir
Se te ouço estou certo de ter compreendido

Se sorris é para melhor me invadir
Alcanço o mundo inteiro se me sorris

Se me uno a ti é para me continuar
Se vivermos tudo será como gostamos

Se eu te deixo recordar-nos-emos
E ao deixar-nos voltaremos a reencontrar-nos.


Paul Éluard in. " últimos poemas de amor "

imagem de Lorenzo Mattotti





Jean-Luc Godard [ DESPREZO ] 1963

escutar...



Magda [she's a dancing machine] minus 2006



"em sua boca dardeja um narciso de cuspo
não encontrará na fala sossego algum
depois do susto das palavras murmuradas
o corpo incha e poro a poro uma abelha
refulge sobre a máscara de mel

poderíamos falar dele noite adiante
mas não
o começo da escrita seria a sua voz quebrada
no silêncio obssessivo das horas
mas não
porque são horas de profundo e anónimo
não o lembraremos mais

por trás da máscara recolhe-se por fim o olhar
uma vertigem o seu verdadeiro rosto
este coração em forma de quilha singrando o mar
de resto
já não há sinais visíveis da sua passagem
excepto a impressão digital esquecida
nos labirínticos arquivos de identificação

(...)"

Al Berto - A Noite

Uma Vida Imaginária


Através do diário ficcionado dos últimos dias do poeta Ovídio, degradado para as fronteiras do mundo conhecido pelo poder imperial, da sua descoberta de uma criança selvagem e da tentativa de a integrar na comunidade humana, David Malouf conduz o leitor, em Uma Vida Imaginária, por uma fascinante reflexão sobre a fragilidade do lugar do Homem entre a Natureza de onde vem e a civilização que constrói.
Uma Vida Imaginária, pela serenidade e clareza com que pondera a condição humana, tem sido encarado, por um número crescente de leitores, como um verdadeiro «livro de sabedoria» e é hoje reconhecido como uma obra clássica da literatura contemporânea.

David Malouf é um escritor australiano que nasceu em 1934, em Brisbane, Queensland. Poeta e romancista consagrado, autor de uma vasta obra, onde se destacam os romances The Great World, Remembering Babylon e The Conversations At Curlow Creek, obteve, com a sua obra, alguns dos mais importantes prémios literários internacionais, como o Commonwealth Writers Prize, o Prix Fémina para Obra Estrangeira, em França, e o International IMPAC Dublin Literary Award.

David Malouf "Uma Vida Imaginária" assírio & alvim
Tradução: José Agostinho Baptista


We are experiencing technical difficulties with the server, please do not be alarmed as a trained and highly skilled technician is on the case. I’m sorry if the downtime and general server madness has caused any undue trauma; whether it be blunt, psychological or otherwise. We assure you that you won’t be on hold for an hour, listening to the same music over and over…



SE TE NOMEASSE CINTILARIAS

se te nomeasse cintilarias
no beco de uma cidade desfeita
e o chumbo dos labirintos derreter-se-ia
na veia branca da noite uma estátua
de areia talvez um barco sulcasse
a cabeleira aquática da fala e
nenhuma porta se abriria sob teus passos

onde estamos? onde vivemos?
no desaguar tenebroso deste rio de penumbra
não beberemos ao futuro do homem
nem festejaremos o rugido triste da fera
moribunda

mas se te nomeasse
que desejo de sexo e da mente a medrosa alegria
em mim permaneceria?


Al Berto in. "Transumâncias"

imagem de Colette Calascione

Hans Bellmer [ La Nina ] 1938

Jacob Peter Gowy [ A queda de Ícaro ] 1636/37



ÍCARO

A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.


José Régio in. " Poemas de Deus e do Diabo "

ARTE POLACA [ CIRCO ]


Jan Mlodozeniec [ clown with slignshot ] 1979


Wiktor Gorka [ 3 beagles ] 1969


Eryk Lipinski [ bear on motorcycle ] 1964


Mesmo se algum dia acontecer
nalgum vulgar encontro, ver-me morto,
decerto saberei como nascer
de novo, ser planta e animal
e breve sopro, às vezes, no teu rosto.
Pelo caminho cego da floresta
virei ao pátio, à fonte debruçada,
ao modesto esplendor da jovem faia;
e terei, para dar-te, o riso claro
da vida que não cessa de perder-se.
Pousado o coração dentro do peito,
feito artista da cor, puro fantasma,
na ardósia a giz desenharei um nome
como quem traça um circulo perfeito.

António Franco Alexandre in. "duende"


Jogos para adiar a morte

Descobrir em outro
a palavra precisa,
a desolada matéria do sonho,
imóvel, fixa sobre o papel.
Palavra que nomeia fantasmas
mas também labaredas da vida
e -ao fundo- o eco do mar,
a sua perdurável presença momentânea,
ondas e horas, sílabas e símbolos-
Tudo o que nos resta, tudo e nada:
jogos para adiar a morte.


Juan Luis Panero

imagem de Maggie Taylor


AUTORIDADE E LIBERDADE SÃO UMA E A MESMA COISA

Autoridade é do que é autor.
Só a autoridade confere autoridade.
A autoridade não é quantidade.
Todo o homem é teatro de uma inexpugnável autoridade.
Aquele que julga ser possível autorizar ou desautorizar a autoridade de outrem não sabe no que se mete.
Liberdade.
A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que um só. Mas são mais reverbero no mesmo fulgor.
Trocar a liberdade em liberdades é a moda corrente do libertino.
Pode prender-se um homem e pô-lo a pão e água. Pode tirar-se-lhe o pão e não se lhe dar a água. Pode-se pô-lo a morrer, pendurado no ar, ou à dentada, com cães. Mas é impossível tirar-lhe seja que parte for da liberdade que ele é.
Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime. Quanto mais perseguido mais perigoso. Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver dum homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro - nunca será um escravo.
Autoridade e Liberdade são uma e a mesma coisa.

Mário Cesariny

imagem de Christian Northeast


O SONHADOR ESPECIALIZADO

Este perfume, hálito benigno, incêndio espectacular de crateras extintas, este perfume é a estrada dos teus cabelos, das tuas superstições, das tuas violências absurdas, mulher-noite, mulher de espinhos com a tua floresta de água salpicada de estrelas, estranha, opaca, a todos os túmulos única, a todos os títulos notável !
A tua voz desliza nos confins da geleira que é o teu corpo entre nuvens e ondas furiosas, recordação vingativa, bússola doida condenado o tempo. Este tempo, o nosso ! Eu acredito no inacreditável. Haverá um tempo para os comboios de espuma e para os aviões de lama. E um outro tempo para as tuas mãos desenrolando os caminhos, para o reflexo da tua cabeleira imitando as marés, para a máquina giratória do teu sexo livre, para a fotografia do teu rosto em chamas.
Não há razão para queimar a esperança. O teu leito ainda está húmido de orvalho e os teus olhos ainda se negam aos Deuses. A realidade da tua nuca Evereste de gelos eternos, a carreira sem fim dos teus braços arco-íris circundando o meu corpo, a cordilheira da tua pele macia onde as minhas mãos se apoiam, são ainda o único motor para o "looping" no espaço, a única clareira onde o sonho floresce, a única estrada que só conduz a si mesma.
Eu digo-te que não há razão para queimar a esperança, esta esperança que tinge os teus lábios e vai contigo até ao fim dos abismos, êxtase delirante onde não existe o Presente e onde o Futuro é um espasmo violento, uma chama súbita em que eu e tu nos fundimos.
Não há razão para queimar a esperança, esta rubra mistura de sonho e lava, perfeitamente conjugada como um círculo em repouso. Tenho-te sempre nos meus braços, no meu ser, e por isso quando me debruço nos debruçamos no precipício olvidamos a nossa condição de indivíduos para sermos o fluxo e o refluxo da História.
Já não somos o que se classificaria de um homem e de uma mulher, mas sim uma multidão de sombras povoada de nuvens, a fusão de dois ácidos, a resolução de um problema.
A minha carne é o teu nevoeiro perpétuo.


Pedro Oom in. " A intervenção surrealista "

fotografia de Francisca Moreira



Lilases

Quando por fim a cifra infinita
que dois mundos combinam
esplender inteiramente seus motivos

a cada um caberá olhar
na lâmina de ouro
um nome inefável

o que buscámos sem um gesto
o que dissemos sem uma palavra


José Tolentino Mendonça in. " Estrada Branca " assírio & alvim

imagem de Gérard Dubois


A Simplicidade

O que sobretudo tem faltado à minha vida até agora é a simplicidade. Começo a mudar a pouco e a pouco.
Por exemplo, actualmente saio sempre de casa a minha cama e, quando uma mulher me apetece, agarro nela e deito-me com ela imediatamente.
Se tem as orelhas ou o nariz grande e feios, tiro-lhes juntamente com as roupas e meto-os debaixo da cama, para ela os poder recuperar à saída; só conservo o que me apetece.
Se a roupa interior está a precisar de ser mudada, mudo-a imediatamente. Será a minha prenda. No entanto, se vejo uma outra mulher mais apetecível a passar, peço desculpas à primeira e suprimo-a imediatamente.
As pessoas que me conhecem garantem que eu não sou capaz de fazer o que estou a dizer, que não tenho temperamento para isso. Eu também achava que não, mas isso era porque eu não fazia tudo como me apetecia.
Agora, tenho sempre belas tardes. ( De manhã trabalho. )


Henri Michaux in. "antologia" relógio d'água

imagem de Henri MIchaux

HENRI MICHAUX

Henri Michaux nasceu em Namur em 1899. Ainda muito pequeno, foi-lhe diagnosticada uma doença cardíaca. Estudou Medicina em Bruxelas, curso que logo abandonou partindo para a primeira de inúmeras viagens realizadas ao longo da sua vida. América, África, Índia, China, nenhum território parece ter escapado ao viandante Michaux. Em 1922, a leitura dos Cantos de Maldoror desencadearam em si uma forte vontade de escrever. Começou a fazê-lo para a revista Le Disque Vert. Incompatibilizado com a família, mudou-se para Paris. Trabalhou como professor, secretário, começou a pintar, publicou em revistas vanguardistas como a Commerce e a Bifur. Contactou com os surrealistas, mas logo em 1925 separou-se de Breton e do [seu] movimento. Em 1926 começaram a aparecer os poemas de Michaux na revista Nouvelle Revue Françoise. Entre 1927 e 1928, viajou pelo Equador, na companhia do malogrado poeta Alfredo Gangotena. Começou a consumir com maior frequência vários tipos de drogas e dedicou-se ao estudo da mitologia hindu. Em 1929 morreram o seu pai e a sua mãe, deixando-lhe uma herança que lhe permitiria continuar a viajar durante vários anos. Criou a personagem Pluma e publicou a sua obra mais famosa: Un Certain Plume (1930). Expôs, publicou, pronunciou várias conferências. Em 1943 casou-se com Marie-Louise Ferdière, que conhecera em 1934. Após a sua morte, em 1948, Michaux sofrerá uma forte depressão. Em 1955 adoptou a nacionalidade francesa. O consumo continuado de mescalina e haxixe, levá-lo-ão a colaborar, já na década de 60, num filme sobre essas experiências. Em 1972 iniciou colaboração com as edições Fata Morgana, expôs as suas pinturas, publicou um livro de desenhos. Morreu no dia 19 de Outubro de 1984 num hospital de Paris, em consequência de um enfarte.


Hoje

O dia não foi meu
e tantos outros que o não são
erro no calendário
ou voluntária distracção

E os dias que foram meus
gestos de outros são
que se dão a quem os quer
nos dias que o não são

E da pressa de os perder
do cansaço de os contar
ganho vícios da noite
que me sabem perdurar


Marcelino Vespeira

imagem de Christian Northeast

Irving Penn [ Max Ernst & Dorothea Tanning ]

No Gira...


Tom Waits [swordfishtrombones] island 1990


A metodologia útil é um martelo.
A ciência utiliza o martelo.
A arte utiliza a ciência.
(E o amor pode inutilizar tudo.)

Gonçalo M. Tavares


O COELHINHO QUE NASCEU NUMA COUVE

Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve.
Como os pais do coelhinho nunca mais apareceram a couve passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando o coelhinho dentro do seu seio até que este passou a procurar a sua própria alimentação.O coelhinho, que tinha um coração muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava considerava-a como sua verdadeira mãe.A mãe couve e o seu filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras.O coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco dano lhe fizessem.Quando aqueles insectos daninhos levantaram voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de areias e pedra.O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas proximidades da sua mãe couve, teve de deslocar-se para muitos quilómetros de distância a fim de procurar comida.Mas já nada havia que se pudesse mastigar naquelas terras.Passaram muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro mais magro e faminto.Então a mãe couve disse-lhe assim: “Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução: assim como tu viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu quero dizer?”O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande tristeza na alma não teve outro remédio, comeu a mãe.

Pedro Oom in. "Actuação Escrita" & etc

Reéntre Literária das Quasi Edições

Sebastião Alba - Novas albas
( depois de albas, o segundo volume dos ultimos escritos de Sebastião Alba )

Michel Houellebecq - A extensão do domínio da luta
( primeiro romance do autor )

Golgona Anghel - Eis-me acordado muito tempo depois de mim
( biografia de Al Berto )

Al Berto - O último coração do sonho
( reedição da primeira antologia breve do autor editada em 2000 )

A Ti

Já do amor eu, triste, desesperava,
Quando, doce visão, tu consentiste
Em desvelar p´ra mim a tua cara.

E então fiquei mais triste, ' inda mais triste,
Pois medi nos teus olhos a distância,
Ó divina, que entre nós existe !

Quem acalmar pudera tanta ânsia
E dizer-me, oxalá, onde demora
Esse amor entrevisto, essa ganância

Que a alma toma , devassa e explora.
Quem pudera revelar-me esse segredo
Por que a minh'alma, noite adentro, chora !

Ó serrana gentil, eu tenho medo
De um bruto impulso, de um ressalto louco
Dos sentidos, de um desvario tredo,

Ao passares o teu muito pelo meu tão pouco.
E assim te imploro, se terrena fores,
Mata-me já, em vez de pouco a pouco,

Que ele há insuportáveis dores !


Alexandre O 'Neill in. "anos 70 poemas dispersos"
imagem de Milo Manara


Girassol

A viajante que atravessou os Halles ao cair do Verão
Caminhava em bicos de pés
O desespero rolava pelos céus seus grandes arãos tão belos
E na mala de mão escondia-se meu sonho esse frasco de sais
Que só a madrinha de deus inalou
Os torpetos pairavam como vapor de água
No chien qui fume
Onde o por e o contra acabavam de entrar
Difícil lhes era ver a moça só de soslaio a viam
Estaria eu diante da embaixatriz do salitre
Ou da curva branca sobre fundo negro a que se chama pensamento
(...).

André Breton in. " o amor louco "
imagem de Masaru Shichinohe

POEMA

alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva de uma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para te ouvir sonhar


António José Forte in. " uma faca nos dentes "

fotografia de Ralph Gibson

No céu, uma ave distraída. A frágil semente que encobriu a ignorância, outorgou-lhe a soberba da arvore, onde foi engravidada a primeira mulher que abraçou a tua delicada origem, e dela nasceste velho, com o monólogo que discute interminavelmente sobre o teu árido olhar.
Vem escutar o rumor do rio antes de começar a tua oração. Alguma vez o fizeste, e foi na noite em que te divorciaste da luz e da escuridão, e o sol era a pupila indestrutível dos que habitavam em círculos perfeitos o aroma da penumbra. Então, eras a tua própria esperança, repleto de uma dor doce sobre as tuas palavras como a passagem da névoa perante a intranquilidade das naves. A tua serenidade avançava como um cordão frágil ao qual atavas o teu destino e a incerteza que te provocava o som da água ao tocar as margens da terra.
Todos morreram, pensaste, e o pranto surgiu de costas para a vida no tempo em que ainda não se inventavam as cidades. Sobre o rio onde se criou a espiga, viste aquela barca que nunca chegou ao porto e da qual se ouvia a queda da terra. Não eras tu aquele que desejava descobrir o nome do peixe, a sinceridade da Rocha ? Ainda dentro da estridente nebulosa, o homem é a causa do homem. Aproxima-te das margens desse rio, e poderás tocar o desconhecimento do teu rosto.

Olivério Macías Álvarez in. "um mundo estranho"

imagem de Craig Larotonda

escutar...


Johnnie Valentino [ 8 shorts in search of David Lynch ]

NOX

Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece, alguns momentos...

Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o mundo, te esquecesses,

E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-Ser!

Antero de Quental

imagem de Greg Mably


NINGUÉM MEU AMOR

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.

Sebastião Alba

imagem de Lorenzo Mattotti

BRUCE CHATWIN

Robert Mapplethorpe [ Bruce Chatwin ] 1979


Atravessei a batalha com um livro de poemas na mão, aberto.
Um poema chinês onde se falava de um lírio, de dois pássaros, de uma ligeira queda e do sol. Conheci depois Jonas, três dias mais tarde, antigo advogado, que tinha a face atravessada por uma bala. Com esse lado da face parado tinha ficado também um lado da linguagem imóvel, como se cada parte do rosto correspondesse a um tipo de pensamento.
Os defeitos de linguagem ensinam muito sobre os defeitos dos dias - disse alguém; e ele, Jonas, com a parte do rosto que ainda tinha linguagem, respondeu: é verdade. Ou seja : é quase mentira.

Gonçalo M. Tavares in. "Biblioteca"


Libertação

Menino doido, olhei em roda, e vi-me
Fechado e só na grande sala escura.
(Abrir a porta, além de ser um crime,
Era impossível para a minha altura...)

Como passar o tempo?... E diverti-me
Desta maneira trágica e segura:
Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,
Desfiz trapos, arames, serradura...

Ah, meu menino histérico e precoce!
Tu, sim!, que tens mãos trágicas de posse,
E tens a inquietação da descoberta!

O menino, por fim, tombou cansado;
O seu boneco aí jaz esfarelado...
E eu acho, nem sei como, a porta aberta!

José Régio in. "cântico negro" quasi
imagem de Gérard Dubois

No prelo # 5


Frederico Lourenço - Pode um desejo imenso - cotovia

Reinaldo Arenas - O Assalto - ambar

Reinaldo Arenas - Celestino antes da madrugada - ambar

Chuck Palahniuk - Monstros Invisíveis - casa das letras

Antonin Artaud - O teatro e o seu duplo -fenda

lou-Andreas Salomé - Um olhar para trás - relógio d'água


Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O'Neill

fotografia de Francisca Moreira [ atum ]

escutar...

Rekid [ made in menorca ] soul jazz records 2006



O Homem Bisado

Alegra-me ser todas as coisas e as sombras que elas projectam
ser a sombra dos teus seios e da tua boca
o criado de smoking branco que te agita os cabelos
para um cocktail estimulante e fresco
a mesa onde passo a ferro o teu corpo
as espáduas as coxas a curva macia dos joelhos
alegra-me ser o contorno da tua nuca e o binário motor dos
teus braços
embora mais pequeno do que o corpúsculo celeste
sou os milhões de astros microorganismos estrelas
a rota de todos os navios perdidos
a angústia síntese de todos os suicidas
a forma de todos os animais conhecidos
o desenho rigoroso de toda a flora existente

Ontem em Paris hoje em Lisboa amanhã em Júpiter
caminho para a resolução de todos os problemas
sem a certeza de resolver qualquer um deles
como se fosse uma máquina de somar parcelas
quatro vezes quatro oito vezes dez oitenta
sabe-me a vida ao que É
esta progressão assustadora de crocodilos bebendo limonada
Ontem fui a prostituta a quem paguei a noite
hoje serei talvez o inocente violentador frustrado
Sutmil é a cidade para onde me evado todas as noites à aventura
e
a cabeça em Marte os pés na Terra
vindo

o comboio está na gare o comboio vai partir
apressemos o passo o momento é solene
somos o automóvel que sobe a avenida
a pulsação acelerada dos maquinismos
taxímetro de uma cidade de província
satélites dum satélite lunar.
Tu és o aeroporto eu o avião que parte
e muito mais calmos entre éter e fogo
percorremos os sonhos de planeta em planeta desfolhando o
futuro a flor sempre rara
e marcamos nos astros o nosso roteiro DEZ QUILÓMETROS

amanhã tirarei o curso de sonhador especializado.


Pedro Oom in. "Surrealismo Abjeccionismo" edições salamandra

imagem de Dan Page

COLETTE CALASCIONE


illumination


the anatomy lesson


monkey love