Soneto de fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes

imagem de Shiori Matsumoto

Jean-Luc Godard [ pedro o louco ] 1965


" Não há disciplina à qual me sinta forçado a submeter-me, por mais rigoroso que seja o raciocínio apelado à minha adesão. Dois ou três princípios de morte ou de vida encontram-se para mim acima da mínima submissão precária. A lógica sempre me pareceu estranha. "

Antonin Artaud


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.


António Ramos Rosa

imagem de Colette Calascione

há coisas que nunca se arrumam...



AH, PODER SER TU, SENDO EU!

Ei-lo que avança
de costas resguardadas pela minha esperança
Não sei quem é. Leva consigo
além do sob o braço o jornal
a sedução de ser seja quem for
aquele que não sou
E vai não sei onde
visitar não sei quem
Sinto saudades de alguém
lido ou sonhado por mim
em sítios onde não estive
Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo
Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar

Ruy Belo

imagem de Dan Page


Ao rosto vulgar dos dias

Monstros e homens lado a lado,
Não à margem, mas na própria vida.
Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.
Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.

*

Ao rosto vulgar dos dias,
A vida cada vez mais corrente,
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.


*


Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.



Alexandre O´Neill

imagem de Greg Mably

Luminoso afogado

E se a morte te esquecesse?
Ficarias aí deitado, o olhar fixo noutros olhares. Silencioso, ou a contar histórias de barcos, de oceanos e de mares, de peixes e de turbulentos rios - até que a luz poeirenta do mundo se extinguisse, para sempre.
Asfixiado pelas areias da praia onde a vaga fosforosa te abandonou.
Por que é que eu caminho no fundo deste tempo escuro e já não existo?
Mas nada acontece, porque a tua morte me tolheu. Não se ouve um fio de voz.
Resta o teu corpo deitado sob a respiração febril de quem se deu ao trabalho piedoso da vigília.
É através da memória dos outros que recordas o rosto que tiveste.
O que quero dizer é que já não sinto nada quando te olho. O rosto está morto e amortalhou o meu.
Outrora, quando navegavas, escrevia-te para contar o que não tinha sentido na viagem. Hoje, penso em ti como se fosses uma música da alma.
O teu olhar de morto e o meu são cúmplices, e ainda não deu hora nenhuma. Temos tempo de sobra.
Vou ressuscitar-te, assim poderás contar-me em sussurro o que fomos.
Eu poderei contar-te o que esqueci. Esta canção quase perdida na casa do nosso passado.
O sonho tem manchas de frutos sorvados no coração. Tem palpitações de sangue e de ilhas, de mares que se espreguiçam para dentro das cidades. E estas sobrevivem envoltas num véu de neblinas. Vemo-las tremeluzir no turvo crepúsculo das praias.
Que ponte levadiça trará de novo o desejo esquecido nos postos longínquos?

al berto

imagem de Alex Gozblau

O teu rosto

É o teu rosto ainda que eu procuro
Através do terror e da distância
Para a reconstrução de um mundo puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen

imagem de Gérard Dubois

A história da minha máquina de escrever


A História da minha máquina de escrever é um tributo à relação - intensa e muitas vezes determinante - entre um escritor e a sua máquina de escrever.
ao longo de 30 anos, a velha máquina Olympia de Paul Auster foi a corrente de transmissão dos romances, contos e textos de um dos mais emblemáticos escritores norte-americanos. Paralelamente, os vigorosos e obsessivos desenhos e pinturas que Sam Messer dedica ao autor e à sua máquina de escrever conseguiram, como escreve Paul Auster, "converter um objecto inanimado num ser com personalidade, com uma presença no mundo".

"A história da minha máquina de escrever" edições asa


O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos in. " Poesia " assírio & alvim

imagem de Zwir Bogdan
Gustave Moreau [Salome] 1876
Laura Lipton [ last dance ] 2005

Morre lentamente
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Morre lentamente...

Pablo Neruda

[Porque nunca as palavras tiveram tanta música, nem a música tantas palavras...]

Ode apresenta-se como um projecto inovador de composição poética. Que resulta de uma nova abordagem à forma de dizer, sentir e interpretar poesia.
Feito por quem gosta do que faz, seleccionam em conformidade com o critério estético deles, as palavras dos nossos maiores poetas e escritores - consagrados e novos. Palavras que avançam e se misturam com as harmonias e acordes das guitarras do F. Aires.
Ou harmonias e acordes que abrem lastro ao fogo verbal. E também ao silêncio. O deles. O nosso. O vosso.
Ode propõe vidas e um diálogo entre todos. Convida. Escarafuncha. Ri. Chora. Invade e fecha.
A fórmula síntese: simplicidade e honestidade.
 
Objectivos:
Levar aqueles que consideram a poesia “uma coisa tremendamente chata” a disporem de uma segunda oportunidade.
Levar aqueles que se consideram incapazes de ler poesia, a comprá-la.
Levar aqueles que gostam de poesia a gostar dela ainda mais.
Oferecer magia. E sim, liberdade. Sempre a liberdade.

Guitarras e sons: Aires F.
Voz e palavras: Sandro William Junqueira
imagem de Aria Nadii

EM SILÊNCIO DESCOBRI ESSA CIDADE NO MAPA

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa —
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol —
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue — peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas — ela —
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.

Herberto Helder in. " A Máquina Lírica "

As minhas ocupações


É raro encontrar alguém sem que eu lhes bata. Há quem prefira o monólogo interior. Eu não. Gosto mais de bater.
Há pessoas que se sentam à minha frente num restaurante e não dizem nada, deixam-se ficar durante algum tempo porque decidiram comer.
Cá está um.
Eu arrepanho-to, truz.
Eu rearrepanho-to , truz.
Penduro-o no bengaleiro.
Desprego-o.
Rependuro-o.
Redesprego-o.
Ponho-o em cima da mesa, comprimo-o e sufoco-o.
Sujo-o, imundo-o.
Ele reanima-se.
Enxaguo-o, estico-o (começo-me a enervar, tenho de acabar), amasso-o, aperto-o,
comprimo-o e introduzo-o no meu copo, e entorno ostensivamente o conteúdo para o chão, e digo ao empregado da mesa: "Dê-me então um copo mais limpo."
Mas sinto-me mal, pago a conta de imediato e vou-me embora.

Henri Michaux in. "Antologia" relógio d'água
imagem de Maggie Tayler


Esta espécie de loucura

Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,

Não me traz felicidade;
Porque enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há.

Fernando Pessoa

Dorothea Tanning [ petita serenata nocturna ] 1943

o regresso...

Michel Gondry [ La Science des Rêves ] 2006

Escrito e realizado pelo Francês Michel Gondry ( " Human Nature " 2001, " Eternal Sunshine of the Spotless Mind " 2004), " La Science des Rêves " é o regresso do realizador ao grande ecrã, com Gael García Bernal, Charlotte Gainsbourg e Alain Chabat, promete ser uma verdadeira viagem ao mundo da imaginação.

Darren Aronofsky [ The Fountain ] 2006

Depois da grande estreia no Sundance Film Festival com o filme," pi " (1998) e da fabulosa adaptação da obra de Hubert Selby Jr. , " Requiem for a Dream " (2000), que valeu a Ellen Burstyn várias nomeações incluindo o Oscar para melhor actriz, " The Fountain ", marca o regresso de Darren Aronofsky às salas de cinema. Escrito e realizado por Aronovsky , " the Fountain ", cruza três historias onde o amor, o ódio, o espiritualismo e a fragilidade da existencia neste mundo são a base da história. Hugh Jackman, Rachel Weisz e Ellen Burstyn dão a cara às personagens, a musica, essa fica mais uma vez nas mãos de Clint Mansel.