Sou barbeiro. É uma coisa que pode acontecer a qualquer pessoa. Quero dizer que até esse dia fui bom barbeiro. Cada qual tem as suas manias, eu não gosto de borbulhas.
Aconteceu assim: comecei a barbeá-lo calmamente, ensaboei-o com habilidade, afiei a navalha no braço da cadeira e suavizei-a na palma da mão. Sou um bom barbeiro! Nunca cortei ninguém e ainda por cima esse tipo não tinha uma barba muito espessa. Mas tinha borbulhas. Devo reconhecer que nas suas borbulhas não havia nada de especial, no entanto, incomodavam-me, enervavam-me, revolviam-me as tripas.
A primeira, contornei-a bem, sem grande dificuldade, mas a segunda começou a sangrar. Então, não sei o que me deu, acho que é uma coisa muito natural, aprofundei a ferida e depois, sem poder deixar de o fazer, com um só golpe, cortei-lhe a cabeça.

Max Aub (1903/1972) in. " crimes exemplares " antígona

No prelo # 4



Frédéric Strauss - Conversas com Pedro Almodovar - 90º

José A. Baptista - Quatro Luas - assírio & alvim

Bob Dylan - As líricas (volume 1) - relógio d'água

Iris Murdoch - Um homem acidental - relógio d'água

Michel Houellebecq - A posibilidade de uma ilha - Dom Quixote

No Gira...

Oscar Peterson & Milt Jackson [ Reunion Blues ] 1971
imagem de Gustav Klimt [the poetry]

A NOITE PROGRIDE PUXADA À SIRGA


" cogito em coisas que me recordam conversas distantes com amigos. não sei bem o quê, chegam à memória rostos e sons. vozes. não compreendo o que dizem, estou cansado. é-me difícil saber se sou eu ou o meu corpo que está cansado. talvez estejamos os dois, raramente nos separamos. aturamo-nos os maus humores e os momentos de insuspeita felicidade. dormimos e amamos juntos.por vezes apetece-me deixa-lo, voar e estender-me por cima dele, esfregar-lhe o sexo na boca, nos cabelos, beija-lo, fazer-lhe inesquecíveis cenas de ciúme, para depois ter o prazer da reconciliação comigo mesmo.mas há momentos muito tristes, aqueles em que as plantas crescem subitamente para dentro da sombra, e tu não estás aqui. é obsessão minha amar quem passa. se abrisse os olhos ter-te-ia, só para mim, até à linha inexistente do horizonte do mar.anoitece devagar. anoitece sobre os ombros. anoitece onde não estou e em redor do meu corpo, anoitece por dentro dos objectos que evocam a tua presença. a penumbra invade a casa, corrói tudo o que é sólido.dantes, a solidão vergava-me, mas com o passar dos anos povoei-a com sorrisos, corpos, pequenos gestos que aderem à memória e me dizem que existo, que continuo vivo onde pressinto o coração a arder. é o ouro que se ganha quando se aprendeu a estar sozinho, tem-se tudo e não se possui nada. o que restava da memória foi partilhado ou foi abandonado para sempre. tudo está constantemente presente e vibra sob a luminosidade imperceptível de ser eterno na fracção de segundo.se morresse agora mesmo não deixava nada, porque bebi toda a minha sede, esvaziei-me, devorei noites a fio esse amargo que têm as coisas antes de nos pertencerem. teu corpo, por exemplo, custou-me tanto inventar-lhe formas consistentes, um reflexo, uma sombra que se lhe adaptasse e o acompanhasse. teu corpo vive hoje dentro do espelho onde se perdeu o meu.a paixão talvez seja a ausência dum corpo que desperta a intensidade da vida no interior doutro corpo; lugar onde a luz mal emergiu ainda, e as palavras se formam a partir de vestígios de silêncio. ardem brandamente no sangue, as palavras, mas ainda são confusas, dispersas, apenas sons indefinidos. depois, a mão executa-as, mata-as um pouco ao alinhá-las sobre desertos brancos, e a vida estremece, modifica-se. as palavras, quando mortas, já não valem a pena porque substituíram tudo. criaram outras realidades. é com medo que me vejo por trás de cada uma delas. as palavras são perigosas máscaras fúnebres que se colam à cara e não precisam de boca, de voz. as palavras mudas escondem o medo de um dia deixar de saber quem sou por trás de tanta máscara sobreposta.não escrever, não falar, não gesticular. imobilizar-me como a pedra que freme à passagem do vento. uma lágrima irrigará o cristal, um veio de água sobre as palpebras, sobre os lábios que adivinham a transumância das constelações. a respiração rouca da árvore sob o peso da geada. a flor que sinaliza o caminho dos insectos. a terra, a pouco e pouco, perceptível ao tacto. grito, finjo o grito.sentado à varanda do mundo morro como todas as coisas que morrem, sobrevivo com todas as coisas que vivem.permaneço sentado, não faço absolutamente nada, nem mesmo pensar. descobri o lugar onde o corpo e a mente pernoitam fora do tempo. "

Al Berto in. " O Medo " assírio & alvim


Federico Fellini [8 1/2] 1963
imagem de Greg Spalenka


Ó tu, celeste arte,
que vezes tantas,
nas horas sombrias
em que me sentia sufocar
pelo feroz abraço da vida,
me fizeste nascer, no coração,
um caloroso conforto,
e para um mundo melhor
me transportaste.
imagem de James Jean


Esta aventura de meu pai com os pássaros foi a mais brilhante contra-ofensiva que o incorrigível improvisador, o estratega da imaginação, lançou contra as muralhas de um estéril e vazio Inverno. Só hoje lhe entendo o heróismo: solitário, fez guerra ao tédio infinito que deixava a cidade entorpecida. Sem nenhum apoio nem compreensão da nossa parte, este homem extroardinário levava a cabo uma defesa sem esperança da causa da poesia. Nas rodas deste moinho mágico afundavam-se as horas vazias para de lá saírem cheias de perfume e cor.
(...)

Bruno Schulz in. "As lojas de canela" assírio & alvim

Bruno Schulz


Bruno Schulz nasceu a 12 de Junho de 1892 em Drohobycz (na altura uma província do Império Austro-húngaro, na Galicia, mais tarde, em 1918, integrada na Polónia e que, actualmente, pertence à Russia). Estudou arquitectura em Lwow e Belas Artes em Viena. Deu aulas de Desenho em Drohobych. Era um judeu Polaco que falava yidish, polaco e alemão, mas pouco tinha de cosmopolita pois raramente saiu da sua cidade natal e viveu praticamente como um eremita. Era um homem solitário que vivia dos seus sonhos, com uma vida interior extraordinária e com uma sensibilidade artística especial. Publicou o primeiro livro, Sklepy Cynamonowe, em 1934 e três anos depois, Sanatório sob o signo da clepsidra. Escrevia em polaco. Traduziu Kafka. Em 1938 foi galardoado pela Academia Polaca de Literatura. Quando eclodiu a II Guerra Mundial, Drohobycz estava ocupada pela União Sovética. Viveu num gueto. Foi fusilado na rua por um oficial nazi, no dia 19 de Novembro de 1942. Diz-se que na altura escrevia um romance chamado O Messias, mas não há rasto desse manuscrito. Em 1957 foi publicada uma nova edição da sua obra, posteriormente traduzida para francês, Alemão e Inglês. Dois dos seus livros foram adaptados para o cinema, Street of Crocodiles em 1986, e, Sanatorium pod Klepsydra em 1973.
Grande parte do interesse actual em Bruno Schulz, deve-se ao trabalho de escritores contemporâneos como David Grossman (See under: Love), Cynthia Ozick (The Messiah of Stockholm) e Philip Roth (The Prague Orgy). Estes escritores criaram verdadeiras lendas em torno de Schulz, incorporando a sua figura nos personagem ficcionados dos seus romances.

descubra as diferenças...

Serge Gainsbourg [nº2] polygram int'l 1959

Lovage [music to make love to your old lady by] tommy boy 2000

Balla [le jeu] music mob 2003
imagem de Lorenzo Mattotti


O TEU OLHAR

O teu olhar fixou-se
numa nuvem,
um ponto que aumentou imensamente
e te retém ao começo da noite
como se fosse a ameaça
de que talvez conheças a origem num passado
ácido de faces, posso
recomeçar quase tudo levantando
a pedra
final que nos esmaga;
há coisas
que não têm recomeço

Gastão Cruz in. "Repercussão" assírio & alvim
Otto Dix 1891/1969
[portrait of the journalist sylvia von harden] 1926

o remorso...


numa idade média brutal e miserável, baltazar serapião casa com a mulher dos seus sonhos e - tal como o pai fizera antes com a mãe e com a vaca, fêmeas irmanadas em condição e estatuto familiar - leva muito a sério a administração da sua educação. mas o senhor feudal, pondo os olhos na jovem esposa, não desiste de exercer sobre ela os seus direitos... entregue aos desmandos do poder e do destino, baltazar será então forçado a seguir por caminhos que o levarão ao encontro da bruxaria, da possessão e, finalmente, do remorso.
com um notável trabalho de linguagem que recria poeticamente a língua arcaica e rude do povo, o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe, é uma tenebrosa metáfora da violência doméstica e do poder sinistro do amor.

valter hugo mãe «o remorso de baltazar serapião» QUIDNOVI

o livro será apresentado pelo autor na feira do livro de lisboa no sábado dia 3, às 15h (pequeno auditório) e na feira do livro do porto no sábado dia 10, às 16.30h (café literário).
desenho de Ilda David'


Sou apenas um homem

Sou apenas um homem entre as lápides.
E, quando os mortos murmuram o meu nome,
digo simplesmente que estou aqui,
acendendo as velas,
rezando outra vez, com palavras humildes,
nos altares destruídos.

Desejaria dissipar o sono,
abrir ternamente as blusas de linho,
beijar,
com os lábios comovidos,
cada rosa cálida que nasce dos teus seios.

E aí,
como se procurasse o mel e o vinho do amor,
encontraria a paz que ao longo dos anos
persegui com os olhos muito abertos.

Mas esta névoa, este som de ossos quebrados no cimo dos montes,
renova sempre os sinais da inquietude.


José Agostinho Baptista in. "Esta voz é quase o vento" assírio & alvim

José Agostinho Baptista


"Se às vezes, se em certos casos, a poesia imita a vida e a vida imita a poesia, então talvez cada verso seja uma linha da cabeça, uma linha do coração, uma linha da vida. E então, sonâmbula e feroz, a mão que escreve talvez não faça mais do que construir, palavra sobre palavra, a casa de um homem, a sua história. E a sua voz obscura passará sobre a terra, sobre os anos, completando a obra."

José Agostinho Baptista

O poeta José Agostinho Baptista*, que publicou o primeiro livro há 20 anos, foi recentemente distinguido com o Grande Prémio de Poesia APE/CTT pela obra «Esta voz é quase o vento». O galardão, no valor de cinco mil euros, foi atribuído por maioria do júri constituído por António Osório, José Viale Moutinho, Maria Andresen de Sousa, Nuno Júdice e Paula Cristina Costa.
José Agostinho Baptista, nascido no Funchal a 15 de Agosto de 1948, colaborou em vários órgãos da imprensa escrita, nomeadamente no Comércio do Funchal, República e Diário de Lisboa, cujo suplemento «O Juvenil» o tornou conhecido como poeta. De 1976 até aos dias de hoje publicou 14 títulos, sendo o mais recente, o vencedor do prémio agora anunciado. Considerado pelos críticos como uma das mais originais vozes da contemporânea poesia portuguesa, poetas como António Ramos Rosa, e Fernando Pinto do Amaral dedicaram-lhe vários ensaios. José Agostinho Baptista tem também assinado diversas traduções, designadamente de autores como Walt Whitman, W.B.Yeats, Tennessee Williams ou Paul Bowles,Enrique Vila-Matas, Rabindranath Tagore, Robert Louis Stevenson, Oliverio Macías Álvarez, Malcolm Lowry, entre outros.

Do Autor:

Deste Lado Onde
Assírio & Alvim, 1976
Jeremias o Louco
Centelha, 1978
O Último Romântico
Assírio & Alvim, 1981
Morrer no Sul
Assírio & Alvim, 1983
Autoretrato
Assírio & Alvim, Março, 1986
O Centro do Universo
Assírio & Alvim, 1989
Paixão e Cinzas
Assírio & Alvim, 1992
Canções da Terra Distante
Assírio & Alvim, 1994
Debaixo do Azul Sobre o Vulcão
Edição do autor, 1995
Agora e na Hora da Nossa Morte
Assírio & Alvim, 1998
Biografia
Assírio & Alvim, 2000
Ahora y en la Hora de Nuestra Muerte
Olifante, Ediciones de Poesia, 2001
Anjos Caídos
Assírio & Alvim, 2003
Esta Voz é Quase o Vento
Assírio & Alvim, 2004

*Condecorado pelo Presidente da República com as insígnias de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, Funchal, 1 de Julho de 2001.

The Duchamp code


Marcel Duchamp [Mona Lisa with a moustache] 1919

Há limões


G

A morta estava agora de costas voltada. Com as nádegas perfeitas e brancas junto das mão do coveiro. Nesta posição ele podia ver, os dois cortes transversais, enormes, um de cada lado, atrás dos pulmões: a causa da sua morte.

Delicadamente, percorreu cada mílimetro do comprimento total daquelas feridas, com a ternura possível dos seus dedos encardidos. Para de seguida, enlaçá-la com os braços e preencher o espaço que as suas mãos disponibilizavam para agarrar os seios da morta.

Sentou-se no bordo da cama. Levou a mão ao bolso e retirou de dentro deste um pequeno um pequeno objecto metálico. Aproximou-se de seguida daquele rosto de anjo desmilitarizado, perguntando-lhe ao ouvido:

- Posso? Estás tão fria!

Agarrou-lhe a mão direita - a mais pesada - e descansou-a na palma da mão esquerda. Abriu cuidadosamente um pequeno corta unhas e estendeu-lhe os dedos azuis como um profissional.
- Sabes? Crescem depressa. Crescem mais depressa agora.
Começou então por ouvir-se o tic tic das aparas a semearem o chão. Dedo a dedo. Farpa a farpa.
-Sabes... É preciso cortá-las. Cortá-las rente. Para que parem de crescer. Unha a unha. Agora esta. Agora a outra. E depois os pés. Os pés também... E os meus... As minhas também crescem. Por mais mais que as limpe estão sempre sujas. Tal como os olhos. Não há nada a fazer. É por causa da terra. Tenho de cortá-las rente... Para ver se um dia se cansam. Tenho comichão mas não posso coçá-los. Se os coçar posso perdê-los, foi o que o Médico disse.


Terminada a tarefa de manicuro e pedicuro, o coveiro levantou-se da cama e sacudiu para o chão as últimas lascas que se tinham agarrado à fazenda ruça das calças. Guardou religiosamente no bolso o corta unhas, retirando do mesmo outro objecto: um pequeno frasco azul contendo uma solução desinfectante para doenças de olhos. Levantou o queixo, virou a cabeça para o tecto e, alternadamente, deixou cair sobre cada vista duas gotas do líquido incolor. Pestanejou. Aconchegou a morta aos lençóis. Beijou-lhe a testa de mármore. Pegou na enxada e na candeia e voltou lá para fora, pisando à passagem as sobras das unhas, espalhadas pelo chão, que ao estalar mais se assemelhavam a um cemitério de dedos.
O coveiro transpôs a soleira. Desceu três degraus. Deu trinta e nove passos em direcção aos ciprestes. Parou junto do caixão que, aberto, violado e oco, mimetizava a profundidade da noite.


H

O coveiro subiu três degraus e pisou a soleira.
Os cabelos longos e negros da morta cresciam ainda, alimentados pelos ossos, varrendo o chão de todas as impurezas que lhe insultavam o andar.
Com a morta nos braços, o coveiro abriu o mais que pode os seus grandes olhos infectados. E quando finalmente a deitou sobre o lado virgem da cama, cobrindo metade da morte com um lençol velho e amarrotado, disse para si mesmo:
- Não posso coçá-los. Tenho comichão, mas não posso coçá-los. Se os coçar posso perdê-los.
Ainda vestido e calçado, deitou-se ao seu lado. Afogou-lhe os cabelos com a ponta dos dedos. Aproximou o nariz mal treinado para odores mais intímos a uma das axilas recém-barbeadas da morta. Os seios destapados, gelados e duros, relampejavam no escuro como duas laranjas cobertas de geada. E foi nesse preciso instante - enquanto cheirava o doce e fixava as laranjas - que uma sensação já esquecida e apressada começou a possuir-lhe todo o corpo: ela estava nua, dura, e indefesa ao seu lado; ao contrário, o sangue do coveiro, fervente, revolto e espesso, mostrava-se vivo e confluía todo num trânsito desordenado, a uma só voz, em direcção à mesma artéria, para inflamar o mesmo músculo.
Com uma enorme erecção dentro das calças o coveiro constatou:
-É isto afinal o mundo.
Sandro William Junqueira


Sandro William Junqueira (1974)


Fundador do Grupo de Teatro “A Gaveta”.
Em 2002 publicou o seu primeiro livro “É preciso este silêncio” pela editora Amores Perfeitos.
Tem publicados, nas revistas “Emcena” e “Storm-Magazine”, poemas e contos.
Faz parte do projecto “Ode- Nunca as palavras tiveram tanta música nem a música tantas palavras ”.


Nos próximos dias serão aqui publicados alguns dos seus poemas ainda inéditos, e algumas passagens do seu mais recente romance, " Há limões ", a aguardar publicação.
Almada Negreiros [Mário de Sá-Carneiro]


Álcool

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante
Manhã tão forte que me anoiteceu.

Mário de Sá-Carneiro
Naomi Appleton [lace lady]


Los amantes

Harux y Harix han decidido no levantarse más de la cama: se aman locamente, y no pueden alejarse el uno del otro más de sesenta, setenta centímetros. Así que lo mejor es quedarse en la cama, lejos de los llamados del mundo. Está todavía el teléfono, en la mesa de luz, que a veces suena interrumpiendo sus abrazos: son los parientes que llaman para saber si todo anda bien. Pero también estas llamadas telefónicas familiares se hacen cada vez más raras y lacónicas. Los amantes se levantan solamente para ir al baño, y no siempre; la cama está toda desarreglada, las sábanas gastadas, pero ellos no se dan cuenta, cada uno inmerso en la ola azul de los ojos del otro, sus miembros místicamente entrelazados.
La primera semana se alimentaron de galletitas, de las que se habían provisto abundantemente. Como se terminaron las galletitas, ahora se comen entre ellos. Anestesiados por el deseo, se arrancan grandes pedazos de carne con los dientes, entre dos besos se devoran la nariz o el dedo meñique, se beben el uno al otro la sangre; después, saciados, hacen de nuevo el amor, como pueden, y se duermen para volver a comenzar cuando despiertan. Han perdido la cuenta de los días y de las horas. No son lindos de ver, eso es cierto, ensangrentados, descuartizados, pegajosos; pero su amor está más allá de las convenciones.

Juan Rodolfo Wilcock [1919/1978] Argentina

Como compreendo agora as estranhas imagens, dentro das quais coisas de usos limitados e regulares se distendem e se experimentam umas às outras, lascivas e curiosas, estremecendo na imprecisa luxúria da distracção. Estas caldeiras a ferver que se movimentam, estas retortas que têm ideias, e os ociosos funis que se metem num buraco para seu prazer.
E também já lá estão, erguidos pelo nada ciumento, extremidades de corpos e membros entre eles e rostos que para dentro deles expelem o seu vómito quente, e traseiros a soprar, que lhes fazem a vontade.
E o santo verga-se e contrai-se; mas nos seus olhos ainda estava um olhar que isto achava possível; ele olhou nessa direcção. E já os seus sentidos formam um precipitado a partir do claro soluto da sua alma. Já se desfolha a sua oração e sai-lhe da boca como arbusto seco. O seu coração caiu e verteu-se no elemento turvo. As suas disciplinas tocam-lhe ao de leve como uma cauda que enxota moscas. Os seus orgãos genitais estão de novo apenas num só lugar, e quando uma mulher avança, direita, por entre esta aglomeração repugnante, com o peito nu, todo seios, apontam para ela como um dedo.
Houve tempos em que eu achava estas imagens antiquadas. Não por duvidar delas. Podia pensar que isto acontecia aos santos, outrora, a esses zelosos apressados que queriam imediatamente começar pelo próprio Deus a todo o custo. Nós já não temos essa pretenção. Pressentimos que Ele é demasiado difícil para nós, que temos que adiá-Lo, para lentamente cumprir o longo labor que nos separa d'Ele. Agora sei que esse labor é exactamente tão árduo como a busca da santidade; que isto acontece em torno de todo aquele que é solitário por amor a esse labor, tal como se formou outrora em torno dos solitários de Deus nas suas cavernas e nos seus abrigos vazios.

Rainer Maria Rilke

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Superthriller [Superthriller 1]
Mint 2005

The Knife [Silent Shout]
Rabid 2006


Max Ernst /1926
The Virgin Spanking the Christ Child before Three Witnesses

Minha morta viva

Na minha dor nada se move
Estou à espera ninguém virá
Nem de noite nem de dia
Nem jamais do que fui eu próprio

Meus olhos separaram-se dos teus e perdem
a confiança perdem o briho que tinham
Minha boca separou-se da tua boca
de prazer e do sentido
do amor e do sentido da vida
estas mãos separaram-se das tuas e não seguram
nada
Os meus pés separaram-se dos teus
não andarão mais não há mais caminho
deixaram de sentir o peso e o repouso que lhes dava
É-me dado a ver a minha vida
esvair-se com a tua
a tua que por ser seu poder
me faz julgar infinita a minha

E o porvir minha única esperança é minha tumba
semelhante à tua cercada por um mundo sem calor

Estava tão proximo de ti que junto dos outros sinto frio.

Paul Éluard in. "Últimos Poemas de Amor" relógio d'água

O que faz com que amemos alguém ? O que nos move no labirinto das relações humanas? Que segredos se ocultam entre o impulso da vida e a certeza da morte? de que matéria somos feitos no ritmo absurdo de sensações ou sentimentos tão fugazes como o desejo, o medo, a paixão, o orgulho, a amizade ou a isso a que continuamos a chamar o amor? Onde haverá ainda uma saída?
Neste conjunto de 18 narrativas por vezes estranhamente intrigantes, Fernando Pinto do Amaral percorre esse espectro de emoções e interroga os seus mistérios numa escrita intensa, em que o lirismo e ironia se misturam para criar uma atmosfera cujas personagens se recortam num horizonte nem sempre realista, mas talvez apto a permitir-nos " a miragem de uma fuga ou a ilusão de um reencontro com uma verdade perdida".

Fernando Pinto do Amaral

"Área de Serviço e outras histórias de amor" Dom Quixote

escutar...


Modeselektor [hello mom !]
Bpitch control 2005


Ellen Allien and Apparat [orchestra of bubbles]
Bpitch control 2006

Este bastão é um piano que viaja para dentro
e para baixo,
com saltos alegres.
Depois medita em ferrado repouso,
cravado com dez horizontes.
Avança. Arrasta-se debaixo de túneis,
mais adiante, debaixo de túneis de dor,
debaixo de vértebras que fogem naturalmente.
Outras vezes as suas trompas movem-se,
lentas ânsias amarelas de viver,
movem-se como eclipse,
e em si catam pesadelos de insectos,
já mortas para o trovão, arauto dos génesis.
Piano escuro, a quem espias com a tua surdez que me ouve, com a tua mudez que me ensurdece?
Oh, pulsar misterioso.

César Vallejo (1892/1937)
imagem: Matt Sewell


Sensação

No azul das tardes de verão, irei pelos caminhos
Tracejado pelos trigos, pisar a erva tenra:
Sonhante, sentirei a meus pés sua frescura.
Deixarei o vento banhar-me a cabeça nua.

Não falarei - pensarei em nada:
Mas um amor infinito subir-me-á na alma, e eu
Irei longe, bem longe, como um cigano, feliz
Pela Natureza -, na companhia da mulher sonhada.


Arthur Rimbaud in. "O Rapaz Raro" relógio d'água

Na caixa da ferramenta do poeta
a nostalgia é o instrumento
duma lassidão crepuscular
assasina do dia

A memória
é um conservatório de combates
mais ou menos arrumados
mais ou menos diferidos
para a caixa dos conceitos

Obscuro simulcro do real
sombra desmaiada
emergindo cada vez mais lenta
a nostalgia é o adeus da paixão

Ana Hatherly

Imagem: [the propelled heart] Graig La Rotonda

David Cronenberg...

1975
1977
1979
1981
1983
1983
1986
1988
1991
1999
2002
2005

David Cronenberg [a expressão nua] Cinemateca Portuguesa