Tão Longe
Desta memória eu quereria dizer...
Tão apagada agora... quase nada resta
porque ficou tão longe, nos meus anos primeiros de ser homem.
Uma pele como de jasmim... Na noite
de Agosto... Era de Agosto?... Mal relembro
os seus olhos... Eram, suponho, azuis...
Ah sim, azuis. Azuis como safira.

Kontandinos Kavafis
Mel Ramos [ VELVEETA ] 1965

Retrato da Centopeia / W. S. Burroughs

Poeira de vidro cobre-lhe a cabeça. Puto-Centopeia larga um rasto de palavras sorvadas nas pálpebras do ano 70.
O tinteiro das alucinações abre-se, entorna-se, e um abutre esvoaça por cima do papel. A noite refaz-se a partir da palavra noite. E a cidade afunda-se numa canção repetida em surdina.
O Puto-Centopeia escancara a boca, o ar estilhaça. A mão põe-se a esgravatar no pulmão da escrita.
O Puto, o Puto-Aranha, desce do tecto. Respira na teia dos dedos. Espalha-se pelo quarto o fumo enjoativo do ópio.
A parede oscila. Brilham os néons das cidades contaminadas.

Seis da manhã. Luz suja, morta. Chuva ácida. Restos de jornais molhados. Descobriram uma criança morta num caixote de lixo.
Bill toca-lhe o ventre. A criança ressuscita.
Madrugada peganhenta flutuando no vento das lixeiras.
O tempo afunda-se numa ilha de cinza. Caminhamos.
Em cima da mesa de cabeçeira o ar vibra, torna-se sólido. Estendo a mão, agarro a cabeça transparente de Bill. Guardo-a na ferida sanguinolenta do peito.
O Puto-Centopeia sorri em forma de coração.

Cabine telefónica estanque. Um corpo oscila no clorofórmio. A dor esvai-se, os dedos marcam números.
Onde viverá o último desejo?
Contra o vidro da cabeça ecoa um grito.
Bill-Língua-Morta rasteja com o sexo nas fissuras do asfalto.

Revólver. Dedo. Olho. Bala. Crânio luminoso que ascende.
Exterminar torna-se cansativo, dizes.
De pé, junto ao lavatório dum filme de série B, esmagas a beata no sabonete.
Sono: sémen escorrendo de um para o outro. Mão aberta.
A centopeia do ombro move-se em direcção à veia. Garrote improvisado, cem patas de veneno letal.
O Puto-Seringa ri convulsivamente.

Silhuetas atravessam o deserto. Multiplicam-se à roda das fogueiras. Na fricção dos sexos reproduzem-se.
Da penumbra dos corpos emaranhados ergue-se o Puto-Chacal: demolir as ruas numeradas, as avenidas que terminam nos cemitérios de lata. Violar os chuis que arreganham o dente. Devastar.

Estrela morta nas têmporas.
Destruídas as engrenagens de abastecimento à cidade os putos selvagens regressam à mente. Mortos- mortos sem dúvida por não existirem ainda.
Ilumina-se a cabeça do fantasma de Bill. Ouve-se a voz gravada dos poucos sobreviventes.
Corri para fora do ano 70. Nenhum amanhã, nem mesmo o suicídio.

O Puto-Centopeia envelheceu. Vive hoje retirado na Grande Casa do Cogumelo. À beira da lucidez eterna.
É tempo de recomeçarmos a jogar nos mil e um flippers deste fim de século.

Al Berto in. " O Anjo Mudo " assírio & alvim

Quero acreditar...

Henri Cartier-Bresson [ Boulevard Diderot ] 1969
chegaste donde o medo tecia os meus cabelos
donde os pássaros ardiam a voz
donde só o silêncio se desconhecia

era tão larga a morte
que não se podia ver dos meus olhos

chegaste quando o fim sangrava dos meus braços
a casa soterrou-me dos teus passos
terra de mim todo
chegaste pelo coração de água da noite
quando o mistério escorre em gritos pelos telhados
e Deus se desabita

chegaste tão de dentro de mim mesmo
que agora que a morte me nasce na garganta
a noite e o meu rosto são alguém
que eu próprio desconheço

Pedro Sena-Lino

Na noite, no silêncio...
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura.
...

Herberto Helder
I know that I shall meet may fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan's Cross,
My countrymen Kiltartan's poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.
W. B. Yeats

evolução, n. Em política, uma alteração abrupta da forma de desgoverno. As revoluções são normalmente acompanhadas por uma efusão de sangue assinalável, mas considera-se que isso vale a pena - sendo esta a opinião dos beneficiários que não tiveram o azar de derramar sangue.
Se um dia o meu coração
tornasse a amar outra vez
queria dizer-lhe que não
por todo o mal que que já fez

Se um dia esta alma vencida
voltasse a nascer em mim
preferia acabar com a vida
do que viver sempre assim

Se nesse dia fatal
pudesse encontrar alguém
cujo o olhar fosse um sinal
só meu e de mais ninguém

diria que estava louco
ou que perdi a razão
e tudo seria pouco
pra matar essa ilusão

Mas se entretanto a saudade
for mais forte do que eu
talvez me falte a vontade
de esquecer quem me esqueceu

e ficarei outra vez
nas mãos de quem não merece
como se o mal que me fez
fosse um bem que Deus me desse

Fernando Pinto do Amaral
Amo o mar
porque não tem fim

e os vagabundos que não têm pilim

Mas pelo meio das formas
e das aparências sem fundo
parecendo que amo o mundo
amo-me sobretudo a mim

Talvez venha a querer ao mar
ou vagamente a um vagabundo

talvez os ame no fundo

Mas no rodar infindo
daquilo que não tem fim
quero-me principalmente a mim

Ao resto das formas
e das aparências do mundo
amo só assim-assim

João Habitualmente
Pedro Almodóvar [ Volver ] 2006

FUGA

Fugir-te .
Mas não hoje - hoje não.
Tenho de preparar-me
para o galope branco da fuga

Não posso dizer-me: parto agora
e partir, pronto.
Pensando que ia, teria ficado todo para trás

Pouco posso contra o teu universo.
Não sou Bogart, não sou Brando
não lutaria por uma ideia política.
Pouco posso - talvez um verso.
Ontem ainda teria ido a tempo.
Oferecia-te a flor que me pedes desde o início
fingiria gostar de animais
e, claro, iríamos ao cinema.
Devia ter convivido mais com o teu Bogart, com o teu Brando.
Devias ter tido o cuidado de investigar a atitude dos príncipes
as certezas dos guerreiros
mas quando cheguei
já o teu universo estava repleto

E agora posso pouco - nem mesmo um verso
Hoje não. Mas quando puder
partirei no primeiro barco.
Procuro o sítio ínfimo
onde os melros se matam sozinhos.

FOGO

De que valem o certo e o regular?
E o chão liso, um tapete pra andar?
Não vou a passo - antes quero correr

És o fósforo e a chama
se quisesse fugia - prefiro arder

João Habitualmente in. "Os Animais Antigos"
Laurie Lipton [ Love Bite ]
da minha janela vê-se uma espécie muito rara de angústia
tem o corpo que não ousei que me fosse
usa o amor como origem da sede
e sossega-me contra o peito da alvorada

da minha janela vê-se uma espécie única de medo
chama-se eu mas diz-se tu
e por vezes nós quando prende a vida
a algo tão falível como a vida

da minha janela não se vê mais nada
ouve-se o silêncio contra mim
e chove a morte contra os vidros
por dentro como soa o fim

David's Cow

David Lynch - Eat my fear

Novelas e textos para nada

São bisbilhotices interiores estas maravilhosas concentrações, cheias dos rabos e dos cabelos de muitas outras histórias e pessoas de Beckett; dos pés de pensamento ímpios e criminosamente curiosos; dos cheiros de folhas entretanto secas e doutras que não viriam sequer a ser escritas ou mencionadas. Obtém-se do leitor perplexo uma portentosa embriaguez de tantas possibilidades ora líricas, ora cómicas, logo tornadas "todas" ao mesmo tempo, só para chatear. Procurando mal e depressa, toda a obra dele está aqui; esteve aqui; nunca mais daqui saiu. Mas seria pena procurar assim.

Samuel Beckett " Novelas e Textos para Nada " assírio & alvim

O amor é o amor

O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos - somos um? somos dois?-
espírito e calor!

O amor é o amor - e depois?!

Alexandre O'Neill in. "Poesias Completas" assírio & alvim

Peter Handke

Numa noite escura saí da minha casa silenciosa é uma história misteriosa, onde o real e o imaginário se cruzam. Num dia de chuva e sem motivo aparente, o farmacêutico de Taxham, nos arredores de Salzburgo, empreende uma longa viagem em direcção ao imprevisto e à aventura, desde a Áustria até à Andaluzia.Parte com dois companheiros ocasionais e mudo, mas regressa sozinho e sereno, depois de um percurso aparentemente arbitrário.
Peter Handke aproveita os versos do poeta espanhol San Juan de la Cruz, que dão origem ao título deste romance, para nos levar numa viagem ao desconhecido. Um périplo aos medos, fantasmas e solidões que assombram os homens, numa narrativa entre o mágico e o real.
Uma viagem, afinal, ao interior de nós próprios, característica da obra de Peter Handke.
A angústia do guarda-redes no momento do penalty, Uma breve carta para um longo adeus, A mulher canhota, A hora da sensação verdadeira e A tarde de um escritor são algumas das suas obras mais conhecidas, já traduzidas para português. Escreveu ainda o argumento do filme, As asas do desejo realizado por Wim Wenders.

Peter Handke "Numa noite escura saí da minha casa silenciosa" casa das letras

No Gira...

Chet Baker [ the touch of your lips ] 1979
Eu não sabia que sabia esta coisa já sabida :
contigo a vida, até o sexo, pode ser coisa divertida.
Sabia, afinal, ou não sabia, como aquela personagem

do livro das Façanhas, que mal abrisses
um pouco os teus braços, eu iria, qual Ulisses,
atirar-me para dentro da tua imagem?

Agora esperei por ti décadas , séculos, todo um milénio
mas amanhã, se o dia se fragmentar como em mim,
tu já não serás o corpo que me deu oxigénio
e eu não voltarei a escrever um poema assim.

Helder Moura Pereira in. "A tua cara não me é estranha"

Idade Adulta

No reverso dos anos já não sei
de que matéria é feito um coração:
desejo e medo, orgulho e agonia
ardendo em labaredas cada vez
mais frias. As metáforas
servem-me já de pouco, são brinquedos
sepultados bem fundo entre estilhaços
de uma estrela que eu vi cair do céu.

Como era bom sofrer quando alguém me fazia sofrer,
como era clara a escuridão do mundo
reflectida no espelho deste corpo,
no cristal ainda puro dessas lágrimas
tão absolutamente necessárias
à minha vida insone,
ao naufrágio dos sonhos que alguém destruía
e que pareciam sempre disfarçados
de sinais do destino.

No avesso dos anos fui crescendo,
fui conseguindo decifrar as máscaras,
o seu extenso alfabeto de paixões,
todo esse repertório de anjos e demónios.

Por isso, finalmente,
passei de vítima a verdugo,
tornei-me um aprendiz bem sucedido
na arte da tortura
e o coração que sofre já não é o meu.

Sei agora que o crime não compensa
que o preço será sempre demasiado
e que a estranha moeda em que o tento pagar
vai perdendo o valor todos os dias.

À passagem dos anos é difícil
colher ainda as "flores do mal" ,
respirar o seu cheiro,
alimentar de sangue outra vez meu
essa hidra infiel a que chamamos
alma,
esse vírus mutante viciado
em fascínios e mágoas e remorsos
- imitações das máscaras de Deus.

Fernado Pinto do Amaral in. "Pena Suspensa" Dom Quixote
imagem: Lorenzo Mattoti [confesion]
Invisível não é só o que ainda não está visível, é também o que nunca será visível mas cuja posição pode ser contornada perfeitamente pelos limites do visível, como o cheio e o vazio num todo, isto é: o invisível é a descoberta feita pelo visível.
No olhado primeiro, anterior a visto, no ingénuo, o visível e o invisível estão confundidos um com o outro, e se a sabedoria reflectida do visto os distingue, isto não é ainda tudo, falta ainda o que o ingénuo, tal qual, seja levado a fim, que não fique vencido e convencido pelo exacto do visível que o ultrapasse e entre nas contas onde o visível e o invisível são um e o mesmo, como quando chegámos pela primeira vez à Natureza, ingénuos: com a sabedoria sagrada que não prevê a sabedoria reflectida por não a necessitar.
Sabedoria reflectida porque nela a Luz é a Sabedoria mesma, a sagrada, esta que cada pessoa recebe inteira e unicamente pela sua legítima ingenuidade, precisamente a que tem olhos e não vê, a que tem ouvidos e não ouve.

Almada Negreiros

Truffaut X 4

1983
1981
1964
1960
ambos editados pela costa do castelo