Pintura : Luis de Melo
A nova editora de Valter Hugo Mãe

1 comentário:

  1. Anónimo12:39 p.m.

    Como se o abraço necessário de todas as manhãs fosse um rio depressa,
    marginal.
    A chuva alterada dentro dos olhos
    enquanto as nossas bocas encolhidas se protegem da saliva limpa.

    Há sombras e razões para que a tua voz por vezes me soe verde.
    E há também razões para que as árvores como as nossas veias se cansem
    Do jugular andamento da terra.
    Da fria mão invisível: inverno tornado amável no nicho do peito.

    Percorro a distância inclinada da tua sombra ao imaginar
    Os teus músculos brancos.
    Dedos bússolas cotovelos e pernas tudo se revolta pelo que não foi dito
    na gaiola do silêncio da noite.

    Eu e tu.
    Fantasmas deitados de pálpebras vigilantes.
    Atingidos mortalmente na garganta.
    Amígdalas de pedras cristalizando água;
    Batendo o sal de costas que nenhuma morte compra.

    E quando a mão por vezes se eleva mais alto que as cortinas do quarto
    Para acordar o corpo,
    Gritam aí as íris inflamadas, os silêncios remendados e as danças e valsas
    valsas do sangue que o amor não ouve.

    A distância entre nós cresce como tinta madura derramada nos lençóis: doce queda não sibilada.
    Pergunto-te:
    Serão de carvão edificados os meus dentes?
    Terei eu a repulsa interna necessária para esperar
    em ti o crescer dos cravos que detesto?

    Guardo agora o nosso silêncio apetecido entre os dedos.
    Lá fora, a tangerina engorda em chamas.
    Começa a escutar-se a insanidade crescente da música que antecede o beijo.
    O hálito de pomba, vagaroso, nascido a cada sílaba como um cometa num dia chuvoso.

    Voltas-te para mim.
    E do lastro do incêndio desenhado pelo teu corpo
    Nasce a hesitação fulminante do branco.
    O desvario das regras puras.
    A folha de um poema crivada de pregos.

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