
Mário Botas [ Eugénio de Andrade ] 1980
URGENTEMENTE
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Eugénio de Andrade in. "Poesia" Fundação Eugénio de Andrade
Homenagem profunda ao artesão da cor, ao poeta onírico, ao saudoso Botas...Mário Botas. Terá dito um dia "só podemos falar que de nós mesmos". Desculpa contrariar-te mas um impulso incontrolável obriga-me a falar um pouco de ti. Licenciado em medicina, viu-se muito novo e em pleno exercício da sua profissão confrontado com o anûncio de uma morte eminente. Diagnóstico: leucemia. Despediu-se amargamente das ciências médicas e encontrou reconforto na pintura a tempo inteiro até ao seu último sopro na tregésima quarta primavera...Fica para a posteridade a sua belíssima obra, reflexo da sensibilidade de uma singular personagem e que invoca o panteão habitado por Baudelaire, Rimbeau, Pessoa, Poe, Cesarini, Mário de Sá Carneiro e todos os espíritos livres deste e do outro mundo. Em vez de um nazareno "Deus te guarde", rogarei antes por um "Deus te liberte" pois nosso és e não Dele.
ResponderEliminarEstimado amigo, é com agrado que leio a tua homenagem ao saudoso Mário Botas, aliás pintor que me foi "apresentado" por ti, uma boa combinação, os imortais Eugénio e Botas...
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