Jean Genet (1910/1986)


Brassai [ Jean Genet ] 1948


Havia um homem que gostava mais de flores do que o jardim gostava desse homem.
Era um anjo que seduzia pelos cotovelos como fazem homens e mulheres nos autocarros cheios, em cidades onde só se ama quando se é empurrado.
Nehuma vítima tem menos ossos que o seu carrasco, e a órgãos principais idem. A diferença é que o carrasco tem a lâmina, e a vítima tem o pescoço mesmo a jeito. Mauzinhos e maus são todos, bons é que não conheço.
Era um homem que parecia vender flores, mas reparando bem eram as flores que o vendiam a ele. Era um prostituto, ou um romântico.

Gonçalo M. Tavares in "Biblioteca" campo das letras

Sartre, Genet, Camus...

Nunca perdoarei a Sartre o prefácio que escreveu ao "Estrangeiro", de Camus, muito melhor escritor do que ele. Mas, poderosamente dialéctico, Sartre aborreceu-o; basta ler os últimos parágrafos. Mas também não perdoo a Albert Camus não ter dado o seu nome para um abaixo-assinado em que se pedia a comutação da pena de Jean Genet, um dos bons dramaturgos do século.
Em que ficamos?
(...).

Sebastião Alba in. "Albas" edições quasi



DESTE LADO DA MORTE NINGUÉM RESPONDE

fazia nós no outono. o eco genital de Deus a abrir avessos. um sangue muito branco falava na água da pele. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém respondia.
árvores todas caiam os braços. o deserto escorria no lugar da pele. um lençol cheio de silêncio respondia pelo mundo. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém respondeu.
o dia não sabia se existia. uma canção de barco abria feridas no tempo. as janelas diziam dezembro, dezembro, e a primavera tinha sido ontem por fora. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém responde.

Pedro Sena Lino in. "deste lado da morte ninguém responde" edições quasi

ERRAR

Claro que podemos errar e não voltar atrás para corrigir o erro porque o erro não é o ERRO o erro só começa no corrigir, errar e avançar não é errar: é avançar; errar e corrigir não é corrigir: é errar.

Gonçalo M. Tavares in. " Livro da Dança " assirio & alvim


QUANDO FOMOS PARA A CAMA

Os resíduos de estrela que ficaram entre os seus cabelos
crocitavam como cascas de amendoins
a estrela cuja luz tu descobriste
há um milhão de anos já
no mesmo instante em que era dado à luz
um diminuto menino chinês.

"Os Chinas são os únicos que não temem
os fantasmas
que não saem da pele todas as noites"

Lástima é que a estrela
não tivesse sabido fecundar teu seio
e que o pássaro da lamparina de azeite
a bicasse como casca de amendoim
o teu e o meu olhar
deixaram-te no ventre
um signo futuro de luminosa multiplicação.

Luis Buñuel in. "Os poemas de Luis Buñuel" assirio & alvim

O Mito de Sísifo



"Um homem carrega, com grande esforço e sofrimento físico, uma pedra enorme até ao cimo de uma montanha. Aí chegado, deixa que a pedra se lhe solte das mãos, e role pela encosta abaixo, para que todo o processo de novo se inicie..."

Publicado em Outubro de 1942, O Mito de Sísifo constitui uma das partes de uma trilogia dedicada por Albert Camus (1913/1960) à compreensão do absurdo (as outras duas são O Estrangeiro e Calígula), e, é decerto, juntamente com O Homem Revoltado, o mais importante dos seus ensaios.
O livro foi recentemente reeditado em Portugal pela editora Livros do Brasil, a tradução é de Urbano Tavares Rodrigues.

Antonin Artaud



as I know how to say it
immediately
you will see my present body
fly into pieces
and under ten thousand
notorious aspects
a new body
will be assembled
in which you will never again
be able
to forget me.

Dicionário do Diabo

O Dicionário do Diabo é um clássico da literatura americana. O seu autor, Ambrose Bierce(1892/1914), amigo e rival de Mark Twain, tornou-se um dos mais famosos escritores e jornalistas depois da Guerra Civil. Esta obra foi primeiro publicada num jornal, entre 1881 e 1906. No seu estilo deliciosamente sarcástico, o autor assume o papel do Diabo para subverter o sentido que habitualmente atribuímos às palavras. Bierce inventou um dicionário politicamente incorrecto, capaz de provocar tudo e todos. O seu humor é hoje tão acutilante como há cem anos atráz. As ilustrações são do senhor Ralph Steadman, conhecido pelo trabalho feito com o outro senhor, Hunter S. Thompson.
Amor, n. Demência temporária que se cura com o casamento, ou afastando o paciente das influências que provocaram a enfermidade. Esta doença, tal como a cárie e outras, prevalece apenas entre as raças civilizadas que vivem em condições artificiais; as nações bárbaras que respiram ar puro e comem alimentos simples são imunes aos seus ataques. Chega a ser fatal, embora mais para o médico do que para o paciente.
Ignorante, n. Uma pessoa que desconhece certas coisas que nos são familiares, conhecendo outras coisas das quais nunca ouvimos falar.

Ambrose Bierce "Dicionário do Diabo" Tinta da China

À Bout de Souffle


Jean Seberg (1938/1979) fotograma de À Bout de Souffle


O acossado - Jean-Luc Godard (1959)

Cinco passos para a frente,
era o infinito dos felizes.
Cinco passos para trás,
o curral dos ofendidos.

Não havia saída,
nenhum ermo onde esconder
a vida. Só a morte
nos dizia - por aqui.

José Miguel Silva in. " Movimentos no Escuro " Relógio d'água

O que é a simplicidade se não for fábula ou ficção?

O que é a simplicidade se não for fábula ou ficção?
A página sugere-nos que pode haver um verbo novo
de linfa adolescente de adormecida oferenda
Mas a verdadeira simplicidade é a do sono
e só o sono nos pode dar a visão flutuante e vaga
das figuras que só vivem de um único elemento
É na penumbra das pálpebras que elas se levantam como trémulas hastes
enquanto uma guitarra murmura a melodia do olvido
Desejaríamos tocar os seus músculos sedosos
e nas indecisas linhas beijar os seua sorrisos leves
Mas elas afundam-se na matéria espessa do sono
deixando um rastro de nostalgia azul
É então que a palavra procura a voluptuosa harmonia
das suas constelações fictícias
em que estremece a fugidia plenitude
de haver sido e da iminência de ser o que nunca será.

António Ramos Rosa in. " Génese " roma editora

AVISO A TEMPO POR CAUSA DO TEMPO



Declara-se para que se saiba:

1.º que não apoiamos qualquer partido, grupo, directriz política ou ideologia e que na sua frente apenas nos resta tomar conhecimento: algumas vezes achar bom outras achar mau. Quanto à nossa própria doutrina, os outros hão-de falar.

2.º que não simpatizando com qualquer organização policial ou militar achamo-las no entanto fruto e elemento exacto e necessário da sociedade - com a qual não simpatizamos igualmente.

3.º que sendo nós indivíduos livres de compromissos políticos permaneceremos em qualquer local com o mesmo à-vontade. Seremos nós os melhores cofres-fortes dos segredos do estado: ignoramo-los.

4.º que sendo individualmente e portanto abjeccionalmente desligados das normas convencionais, temos o máximo regozijo em ver essas mesmas normas nos componentes da sociedade. Assim delas daremos por vezes testemunho e mesmo ensino.

5.º que não somos assim contra a ordem, o trabalho, o progresso, a familia, a pátria, o conhecimento estabelecido (religioso, filosófico, cientifico) mas que na e pela Liberdade, Amor e Conhecimento que lhes preside preferimos estes.

6.º que a critica é a forma da nossa permanência.

Acreditamos que nestes seis pontos fundamentais vão os elementos necessários para que o Estado, os Governos, a Policia e a Sociedade nos respeitem; nós há muito que nos limitamos neles e neles temos conhecido a maior liberdade. Não se tem do mesmo modo limitado o Estado, a Policia e a Sociedade e muito menos o seu ultimo reduto: a Familia. A eles permaneceremos fiéis pois todo o nosso próprio destino e não só parte dele a estes seis pontos andam ligados como homens, como artistas, como poetas e por paradoxo como membros desta sociedade.

António Maria Lisboa(1928/1953) in. "Poesia" assirio & alvim

Peter Lorre



PETER LORRE (1904/1964), o homem que se imortalizou no cinema em filmes dos principais realizadores da sua época, "M" Fritz Lang (1931), "The Man who knew too much " Alfred Hitchcock (1934), "Casablanca" Michael Curtiz (1942), "Arsenic and old lace" Frank Capra (1944), ganha agora mais um lugar na história do cinema.
Já tinhamos visto "piu-piu" a interpretar a sua personagem num dos episódios dos Loony Tunes "Carrotblanca", agora 42 anos após a sua morte ele é a Larva que habita o olho da noiva cadáver em "Corpse Bride" do srº Tim Burton.


DÁ-ME A TUA MÃO

Dá-me a tua mão.
Dá-me a tua mão e partamos pelos ancestrais caminhos
onde o mar outrora colhia os sorrisos da infância.
Dá-me a tua mão neste momento em que já nada
me resta.
Em que todos os dias me conduziram às negras
alamedas de cidades que me eram adversas.

Esqueci as sendas onde a nudez da água
habitava os meus passos.

Perdi-me entre as pedras
julgando garantidas as promessas que imortalizavam
as velhas árvores protectoras dos gestos inseguros.

Por favor.
Dá-me a tua mão.


Fernando Gregório in. "Jogo de sombras" amores perfeitos

in Alfred Hitchcock's


Jeanloup Sieff [ Alfred Hitchcock ] 1962


A piedade canta
A inocência adoça o meu ultimo suspiro escuro
A modéstia esconde as minhas meias nas suas asas
E as virtudes mortíferas atormentam a minha morte!

Dylan Thomas (1914/1953)

retirado do doc. "No direction home: Bob Dylan", Martin Scorsese 2005

Fernando Lemos e o Surrealismo



"intimidade dos armazens do chiado" 1952

A obra de Fernando Lemos foi recentemente adquirida pela colecção Berardo, podendo a partir de agora e até Abril, ser vista em Sintra, no Sintra Museu de Arte Moderna.



HÁ NA INTIMIDADE UM LIMIAR SAGRADO

Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não podem transpor-
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.

Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição...
Agora compreendes por que já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.

Anna Akhmátova in. "só o sangue cheira a sangue" assirio & alvim

No Prelo # 1



Alexandre O' Neill- Uma biografia literária - Maria Antónia Oliveira (Dom Quixote)

Textos para nada - Samuel Beckett (Assirio & Alvim)

Primavera autónoma das estradas (nova edição) - Mário Cesariny (Assirio & Alvim)

Celestino antes da madrugada - Reinaldo Arenas (Âmbar)

Kafka à beira-mar - Haruki Murakai (casa das letras)

Fanny e Alexandre - Ingmar Bergman (Assirio & Alvim)


ILHA

Regresso sempre a ti, ilha,
à casa do silêncio,
às falésias da tua loucura,
ao berço que se move eternamente no
quarto da angústia,
regresso,
ilha, depois das estradas que conheceram o meu
corpo e a minha saudade,
depois das eras de gelo e trevas,
depois dos incêndios,
regresso como quem já viu todas as luas e
todos os barcos ancorados,
todas as aves, todos os peixes cegos,
todas as rosas de basalto,
depois da paixão e dos crimes e da extrema
claridade,
depois das cinzas onde se apagam os
astros e as tuas tranças,
regresso para suplicar-te, ilha,
que me devolvas as cadeiras e os terraços
da mocidade,
a avó, o tio, o pai, os pássaros que ouvi
nos ramos da antiga árvore,
o mar, o iodo, o fim das tardes,
os frutos mais estranhos e o vinho
dos amigos perdidos,
regresso, ilha,
para dizer-te que já não tenho endereço,
que já não tenho idade,
que espero por ti como se fosse a mãe
da mãe que no coração trago,
regresso sem o primeiro sonho e sem a
bondade,
porque já não sei onde cantar,
onde abrir os braços à juvenil chama que
o vento apagou,
porque já não sei, ilha,
como deitar-me nas tuas levadas e no
teu regaço,
e, como um menino que procurava na
noite dos céus o rosto de Deus e das
estrelas,
já não sei adormecer simplesmente.

José Agostinho Batista in. "anjos caídos" assirio & alvim

E como eram as ligas de Madame Bovary ?

É com imenso gozo que Francisco Umbral se dedica nesta obra à recriação humana e intelectual de uma vasta gama de literatos e artistas, numa série de retratos irónicos, líricos e deliciosamente anedóticos que nos falam do cabelo verde de Baudelaire, do falhanço de Stendhal, dos pecados de Clarín, da cozinheira de Proust, da orelha de Van Gogh, do namorado de Oscar Wilde, do surrealismo burguês de Magritte ou das ligas de Madame Bovary. Um percurso repleto de grandes figuras, figurões e fetiches literários do autor, onde não faltam kafka, Cocteau, Dali, Dora Maar, Kipling, Joyce, Virginia Woolf, Sartre, Rilke, André Breton ou Saramago. O autor não pretende com estes perfis fazer cátedra nem converter a literatura num campeonato; opta apenas por conviver irónica e educadamente com os monstros que tanto amamos e com as "monstras" que habitualmente lhes deram sol e lhes fizeram sombra. Um livro esplêndido , onde Umbral mostra as secretas paixões literárias e apresenta um heterodoxo mapa cultural da Europa.

in. " E como eram as ligas de Madame Bovary ? " campo das letras

Orson Welles



"A câmara de filmar deve ser os olhos na cabeça de um poeta "

Henri Cartier-Bresson [ brie ] 1968


A ESTRADA BRANCA

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate.

José Tolentino Mendonça in. " A estrada branca " assirio & alvim

Tonino Guerra



TONINO GUERRA nasceu em Sant'Arcangelo di Romagna, na provincia de Forlì, em 1920.
A sua fama internacional provém-lhe principalmente da actividade como argumentista cinematogáfico, tendo colaborado sobretudo com Federico Fellini (Amarcord, Ginger e Fred, o Navio, etc) e Michelangelo Antonioni (A aventura, O deserto Vermelho, Blow-up, Para além das nuvens, etc) mas também com Francesco Rosi, os irmão Taviani, Andrei Tarkovski (Nostalgia) ou Theo Angelopoulos (O olhar de Ulysses).
Contudo, possui igualmente uma vasta obra literária, não só narrativa, mas sobretudo poética no seu dialecto romanholo, em que a lingua se torna intrumento de uma original transformação grotesca e fabulosa da realidade, representando sob forma fantástica o mundo dos humildes e dos marginalizados. Em Portugal estão traduzidos três dos seus livros:

O livro das Igrejas abandonadas, assirio & alvim
O mel, assirio & alvim
Histórias para uma noite de calmaria, assirio & alvim



O RITMO DO PRESÁGIO

A tinta das canetas
reflui de antipatia
e impregnadas, assiduas
cambam as borrachas.
Não há tinta de maquina
que o uso não esmague
o vaivem não ameace
de dessorar os textos.
Mas a grafia nada diz
de pausas na cabeça
vozes inarticuladas
adensam, durante elas
uma tempestade
recôndita
e nubladas carregam-se
as suspensões
encadeando em nós
o ritmo do preságio.

Sebastião Alba in. "uma pedra ao lado da evidencia" campo das letras

Der Mensch



Alfred Kubin (1877/1959) [ der Mensch ] 1902

Mankind

Vivemos cercados num mundo imaginário,
onde a chama que nos aquece, lentamente se apaga.
Caminhamos calmamente para esse abismo cavado,
onde a frieza das palavras se confunde com a incerteza
das imagens, e onde todos os porquês se tornam os quês,
e donde verdade,ninguém vê nada.

1 de dezembro de 2000

Habito um corpo - é apenas isso.
As crianças, na rua, preparam
a morte, pisam as folhas
do acaso. Quem as olhará, neste
momento parado na praça das Flores?

Benilde, ao balcão, diz que é uma flor,
talvez a última. Mas as canções,
na rádio, desmentem qualquer sorriso
e banalizam em língua portuguesa
o milagre sem voz do amor.

Não me venham dizer que existo.


Manuel de Freitas in. "[sic]" assirio & alvim

Lou Andreas-Salomé

A mulher que seduz vários homens inteligentes é uma sedutora ou uma intelectual ? Não há nenhuma pele colectiva a não ser a pele de dois, no momento amoroso. E esta é efémera e rápida, enquanto a vida é, normalmente, uma efémera mais lenta. Poderás também dizer que o acto amoroso é uma vida rápida, e assim terás tantas vidas rápidas quanto os actos amorosos. E no fim da vida longa, a outra, a contabilidade de vidas rápidas, terá importância, se não para muitos assuntos, pelo menos para a quantidade do teu sorriso final. Eis.

Gonçalo M. Tavares in. "Biblioteca" campo das letras

p.s - esta senhora só foi... namorada de Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e o amor da vida de Rainer Maria Rilke





















"Masculin - Féminin" Mimi Parent(1924/2005)


EMBRIAGAI-VOS

É preciso estar sempre embriagado. É isso mesmo: é a única questão. Para não sentir o fardo horrivel do tempo que nos verga os ombros e nos inclina a terra, é preciso que nos embriaguemos sem cessar. Mas com quê? Com vinho, poesia ou virtude, como vos aprouver. Mas embriagai-vos. E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de um valado, na solidão triste do vosso quarto, acordardes, com a embriaguês já deminuida ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, responder-vos-ão: "É hora de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, como vos aprouver."

Charles Baudelaire in. "Do vinho e do haxixe" colares editora

Explicit Lyrics





















Who made Who, "WHO MADE WHO" gomma recordings

Quando nasci.



quando nasci. esperava que a vida.
me trouxesse. a terra. quando nasci.
esperava que a vida. me trouxesse.
as árvores. e os pássaros. e as crianças.
quando nasci. tinha o mundo. todo.
depois dos olhos. depois dos dedos.
e não percebi. não percebi. nada.
nunca imaginei. quando nasci. que a vida.
quando nasci. já era a escuridão. a escuridão.
em que estava. quando nasci.

José luís Peixoto in. "a criança em ruínas" edições quasi


"Um dia, ao voltar da casa-de-banho, encontrei o meu quarto fechado à chave e as minhas coisas empilhadas em frente da porta. Isto pode dar-vos uma ideia da prisão de ventre com que eu estava na altura."

Samuel Beckett in. "Primeiro Amor - Companhia" Ambar

Fotografia: Henri Cartier-Bresson

OSSOS.



Quanto de ti são ossos?
Amar-te-ei até aos ossos!

Não quero ser quem sou, é evidente;



Não quero ser quem sou, é evidente;
antes monstro qualquer com ar de gente
do que este tronco de árvore daninha
onde repousam ninhos de fantasmas
e brilham finos dentes de duendes.
Antes ser, no ar frio, nuvem que voa
branca de não ser nada, para leste,
do que esta sombra humana que me deste
sem dimensão nem cor, nem sábia hipnose,
nem o fulgor vulgar dos ectoplasmas.
Na pele esburacada já deitaram
semente microscópicos venenos;
vou-me deixar levar, por mão de verme,
antes que à luz do dia possas ver-me.

António Franco Alexandre in. "Duende" assirio & alvim

Ma Mère


Christophe Honoré [ Ma Mère ] 2004


E eis que finalmente tenha a oportunidade de ver o tão polémico filme de Christophe Honoré, "Ma Mère" (2004). Baseado num romance de George Bataille, o filme conta a história de Pierre (Louis Garrel), um adolescente de 17 anos, que tem um amor cego pela mãe (Isabelle Huppert), mas ela não está disposta a assumir o que o fillho projecta dela.
Recusando ser amada por aquilo que não é, decide quebrar o mistério e revelar a sua verdadeira natureza...
Uma verdadeira viagem ao mundo do deboche e dos vicios mais imorais.
Isabelle Huppert, não precisa de ser apresentada neste tipo de interpretações, quanto a Louis Garrel, olhos bem postos neste jovem actor, já tinha sido um dos enfants terribles em "the Dreamers" (2003) de B. Bertolucci e para este ano está prevista a estreia nas nossas salas o filme realizado pelo seu pai, Phillipe Garrel, "Les amants réguliers" (2005).

A origem do mundo



Gustave Courbet (1819/1877) [ l'origine du monde ]

É evidente...

é evidente que podemos explicar.
é evidente que podemos concluir.
é evidente que podemos curar.
é evidente que podemos abrir 1 consultório e dizer : PAGA!
é evidente que podemos psicanalizar.
é evidente que podemos ter componentes.
é evidente que podemos começar pelo início.
é evidente que podemos ter emoção e razão e céu em cima e terra por baixo.
é evidente que podemos comer e não dar por isso, defecar e não dar por isso,
fornicar e fecundar e não dar por isso.
é evidente que podemos Regressar.
é evidente que podemos enumerar e dar os nomes certos às coisas erradas.
é evidente que podemos acertar.
é evidente que podemos ter 1 corpo sem falhas execpto a falha grande
que é MORRER e as outras falhas pequenas que são a dor a doença
e a velhice .
é evidente que podemos fixar, explicar, concluir, exemplificar, começar, abrir 1 consultório,
curar, receber e pagar, estruturar, desenvolver, ter ideias claras e ideias claras.
é evidente que podemos pensar, dançar e depois pensar ou então o contrário.
é evidente, enfim, insisto, que podemos explicar,
mas é melhor não.

Gonçalo M. Tavares in. " Livro da dança " assirio & alvim